Há uma transformação silenciosa atravessando a política brasileira. Ela não aparece apenas nas votações do Congresso, nas decisões do Supremo Tribunal Federal, nas reuniões partidárias ou nas campanhas eleitorais. Ela acontece antes disso. Acontece na formação da percepção pública.
Antes de o eleitor votar, ele sente. Antes de avaliar uma proposta, ele reage. Antes de conhecer um projeto, ele já foi atingido por uma narrativa. Antes de acompanhar uma decisão institucional, ele recebeu um recorte, uma manchete, um vídeo curto, uma indignação pronta, uma explicação emocionalmente empacotada.
Esse talvez seja um dos maiores desafios democráticos do nosso tempo: a política continua formalmente organizada pelas instituições, mas sua energia social está cada vez mais sendo produzida em ambientes digitais controlados por plataformas privadas, algoritmos opacos e disputas permanentes por atenção.
Não se trata apenas de fake news. Também não se trata apenas de inteligência artificial, deepfakes ou disparos em massa. Esses elementos são graves, mas são sintomas de um fenômeno maior.
A política brasileira entrou em uma fase em que a disputa pelo poder passa, necessariamente, pela disputa da narrativa.
O fato já não circula sozinho. Ele chega enquadrado. Interpretado. Recortado. Moralizado. Transformado em emoção.
Uma votação no Congresso vira guerra entre "traidores" e "patriotas". Uma decisão judicial vira "salvação da democracia" ou "perseguição política". Uma divergência partidária vira crise terminal. Um vídeo de poucos segundos vira prova moral definitiva. Um conflito familiar vira disputa sucessória. Uma frase isolada passa a valer mais do que a trajetória inteira de quem a pronunciou.
A pergunta, portanto, já não é apenas quem governa o Brasil.
A pergunta é também: quem governa a percepção dos brasileiros?
Durante séculos, a teoria política se preocupou com o Estado. E com razão. O Estado define leis, arrecada impostos, administra políticas públicas, exerce coerção legítima, organiza eleições, regula conflitos e estrutura a vida coletiva.
Mas o século XXI nos obriga a reconhecer que surgiu uma nova camada de poder entre o Estado e o cidadão: a arquitetura digital da atenção.
Essa arquitetura não substitui o Congresso, o Executivo, o Judiciário, os partidos ou a imprensa. Mas condiciona o modo como milhões de pessoas percebem todos eles.
É nesse ponto que talvez precisemos de uma nova categoria analítica. Para fins de reflexão, proponho chamá-la de Leviatã Digital.
O Leviatã de Thomas Hobbes era uma metáfora do Estado soberano: uma grande estrutura criada para conter o medo, impor ordem e evitar a guerra de todos contra todos. O Leviatã Digital é diferente. Ele não governa apenas pela lei, pela força ou pela burocracia. Ele governa pela atenção, pela recomendação, pela emoção e pela visibilidade.
Ele não precisa mandar. Basta sugerir.
Não precisa censurar diretamente. Basta ocultar.
Não precisa convencer com argumentos longos. Basta repetir estímulos.
Não precisa produzir uma ideologia única. Basta criar bolhas suficientes para fragmentar a realidade comum.
O Leviatã Digital é formado por plataformas, algoritmos, dados, influenciadores, militâncias, campanhas, inteligência artificial, economia da atenção e narrativas emocionais. Seu território não é apenas físico. É cognitivo. Seu campo de batalha não é apenas institucional. É perceptivo.
A política sempre teve emoção. Sempre teve símbolos. Sempre teve encenação. O que mudou foi a escala, a velocidade e a capacidade técnica de transformar emoções em comportamento político mensurável.
Hoje, indignação gera engajamento. Engajamento gera alcance. Alcance gera influência. Influência gera pressão. Pressão altera agendas públicas. E agendas públicas pressionam instituições.
O caminho entre um vídeo viral e um projeto de lei ficou mais curto.
O caminho entre um boato e uma crise institucional também.
Esse ambiente cria um paradoxo perigoso. Nunca tivemos tanto acesso à informação. E, ao mesmo tempo, talvez nunca tenha sido tão difícil construir uma realidade pública compartilhada.
A democracia depende de conflito, mas também depende de algum chão comum. Podemos discordar sobre soluções, prioridades e valores. Mas, se discordamos até sobre os fatos básicos, a deliberação democrática se transforma em guerra de mundos paralelos.
É aí que a gestão pública sofre.
Governar exige tempo, planejamento, orçamento, avaliação, continuidade e responsabilidade. Mas o ambiente digital exige reação imediata, frase forte, imagem impactante, resposta emocional e narrativa vencedora.
A boa política pública raramente viraliza. A manutenção preventiva de uma escola não explode nas redes. Uma licitação bem conduzida não emociona. Um programa público consistente leva tempo para mostrar resultado. A gestão séria é, muitas vezes, silenciosa.
Já a política-espetáculo é ruidosa. Ela oferece conflito, personagem, vilão, vítima, herói, traição e redenção.
O risco é que gestores passem a governar para a cena, não para a estrutura.
Quando isso acontece, a pergunta "isso resolve o problema?" começa a concorrer com outra: "isso rende imagem?".
E uma democracia que troca gestão por performance pode até produzir muita mobilização, mas entrega pouca transformação concreta.
O Congresso Nacional está no centro desse desafio. Não apenas porque legisla sobre plataformas, inteligência artificial, eleições, comunicação política e proteção de dados. Mas porque também é impactado diretamente por essa nova lógica.
Parlamentares não disputam apenas votos. Disputam atenção diária. Precisam falar com suas bases, responder ataques, produzir conteúdo, marcar posição, reagir a temas virais e mostrar presença permanente.
A política parlamentar, que já era complexa, passou a ocorrer sob pressão de uma plateia digital ininterrupta.
Isso pode aproximar representantes e representados. Mas também pode empobrecer a representação.
Quando todo tema precisa ser reduzido a uma frase de impacto, a complexidade perde espaço. Quando toda negociação é vista como traição, a política perde sua capacidade de mediação. Quando toda dúvida é punida como fraqueza, a democracia perde inteligência.
A política democrática não é o lugar da pureza absoluta. É o lugar da construção possível. Exige diálogo, acordo, conflito regulado e responsabilidade institucional.
Mas o Leviatã Digital prefere a moralização permanente: ou herói, ou traidor; ou povo, ou sistema; ou verdade absoluta, ou mentira total.
Essa simplificação destrói a zona intermediária onde a política real acontece.
Por isso, a discussão sobre regulação das plataformas não pode ser tratada de forma infantil. Nem como censura automática, nem como liberdade absoluta de mercado.
A pergunta correta não é se devemos regular ou não. A pergunta é como regular democraticamente um ambiente que já regula, de forma privada e opaca, grande parte da esfera pública.
Porque as plataformas já regulam.
Regulam alcance.
Regulam visibilidade.
Regulam recomendação.
Regulam monetização.
Regulam permanência.
Regulam o que aparece primeiro e o que desaparece no fluxo.
A ausência de regulação pública não significa ausência de controle. Significa apenas que o controle fica concentrado em arquiteturas privadas, frequentemente inacessíveis ao escrutínio democrático.
O desafio é difícil: proteger a liberdade de expressão sem permitir que a mentira organizada destrua a própria possibilidade de debate público; combater manipulações sem entregar ao Estado um poder censório perigoso; responsabilizar plataformas sem sufocar inovação; garantir transparência sem transformar política em vigilância estatal.
Não há solução simples.
Mas ignorar o problema é a pior solução possível.
A inteligência artificial torna esse cenário ainda mais urgente. A capacidade de produzir textos, imagens, vídeos, vozes e simulações personalizadas amplia o poder de manipulação política. Mas o problema não está apenas no conteúdo falso. Está também na personalização invisível da persuasão.
A velha propaganda falava para massas.
A nova propaganda pode falar para medos específicos.
Para ressentimentos específicos.
Para crenças específicas.
Para inseguranças específicas.
Para grupos segmentados com precisão crescente.
Isso altera a natureza da disputa eleitoral. O eleitor deixa de receber apenas propostas públicas e passa a ser alcançado por mensagens desenhadas para suas vulnerabilidades emocionais.
A democracia pressupõe publicidade, contraditório e fiscalização. Mas quanto mais personalizada e opaca se torna a comunicação política, mais difícil fica saber quem está dizendo o quê, para quem, com qual financiamento, com qual base de dados e com qual objetivo.
Esse é o novo campo de batalha.
E ele não será vencido apenas com legislação. Também exigirá educação política, educação midiática, fortalecimento da imprensa, transparência tecnológica, responsabilidade partidária e formação crítica do cidadão.
No fundo, o Leviatã Digital nos obriga a recuperar uma pergunta antiga: o que significa ser cidadão?
Ser cidadão não é apenas votar. É participar de uma comunidade política com alguma capacidade de julgamento. É desconfiar de certezas fáceis. É comparar fontes. É aceitar que a realidade pode ser mais complexa do que a narrativa do nosso grupo. É não transformar adversário em inimigo absoluto. É resistir à tentação de reagir antes de pensar.
Esse é talvez o ponto mais difícil.
Porque o Leviatã Digital não nos domina apenas por fora. Ele conversa com fragilidades humanas profundas: medo, raiva, vaidade, ressentimento, desejo de pertencimento, necessidade de reconhecimento e prazer de confirmar aquilo em que já acreditamos.
Por isso ele é tão eficiente.
Ele não inventou nossas paixões. Apenas aprendeu a explorá-las.
A política brasileira precisa compreender isso com urgência. As próximas disputas eleitorais não serão decididas apenas por programas de governo, alianças partidárias ou tempo de televisão. Serão disputadas também na arena invisível da atenção.
Quem controlar a narrativa controlará parte importante do caminho até o voto.
Quem dominar a emoção pública poderá pressionar instituições.
Quem manipular percepções poderá transformar minorias barulhentas em aparência de maioria social.
Quem souber operar o Leviatã Digital terá vantagem sobre quem ainda acredita que a política acontece apenas nos lugares tradicionais do poder.
Mas há uma boa notícia: o Leviatã Digital é poderoso, mas não é destino.
Ele pode ser compreendido.
Pode ser regulado.
Pode ser limitado.
Pode ser enfrentado por instituições fortes e cidadãos críticos.
Pode ser tensionado por jornalismo profissional.
Pode ser exposto por pesquisa acadêmica.
Pode ser controlado por regras democráticas.
Pode ser desafiado por uma cultura política menos impulsiva.
A democracia brasileira já enfrentou autoritarismos, crises econômicas, rupturas institucionais, desigualdades profundas e conflitos sociais intensos. Agora enfrenta também a disputa algorítmica da realidade.
Talvez esse seja um dos maiores desafios do século XXI: preservar a política como espaço de construção coletiva em um ambiente desenhado para transformar tudo em reação imediata.
O poder mudou de lugar, mas não saiu completamente das instituições. Ele se espalhou.
Está no Congresso, mas também nos algoritmos.
Está nas urnas, mas também nas redes.
Está nos partidos, mas também nos influenciadores.
Está nas leis, mas também nas plataformas.
Está no Estado, mas também na arquitetura invisível que decide o que milhões de pessoas verão ao acordar.
Reconhecer isso não significa desistir da democracia. Ao contrário. Significa levá-la mais a sério.
Durante muito tempo, pensamos que o grande problema político era apenas quem ocuparia o poder.
Agora precisamos perguntar também quem organiza o ambiente mental em que escolhemos quem ocupará o poder.
Esse é o ponto.
A democracia continua sendo decidida nas urnas.
Mas o caminho até as urnas está sendo disputado todos os dias por máquinas de atenção, narrativas emocionais e sistemas invisíveis de influência.
Talvez ainda não tenhamos todas as palavras para nomear esse fenômeno.
Mas precisamos começar por alguma.
Leviatã Digital é uma delas.
E, se quisermos proteger a democracia brasileira, talvez seja melhor compreender esse monstro antes que ele aprenda definitivamente a nos governar sem parecer governo.
Referências
ARENDT, Hannah. Origens do totalitarismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.
BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1989.
CASTELLS, Manuel. O poder da comunicação. São Paulo: Paz e Terra, 2015.
DEBORD, Guy. A sociedade do espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997.
HABERMAS, Jürgen. Mudança estrutural da esfera pública. São Paulo: Unesp, 2014.
HOBBES, Thomas. Leviatã. São Paulo: Martins Fontes, 2003.
ZUBOFF, Shoshana. A era do capitalismo de vigilância. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2020.
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