A amarga derrota da seleção brasileira para a Noruega serviu para reavivar um incômodo estatístico: os nórdicos continuam sendo a única equipe do mundo que o Brasil nunca conseguiu vencer no futebol. No entanto, para qualquer observador que se desvencilhe da paixão esportiva e encare a realidade global com rigor analítico, o revés nos gramados é apenas uma nota de rodapé. O verdadeiro abismo entre nós e eles não é medido em gols, mas em prosperidade, solidez institucional e liberdade econômica. E, nesse campo, sofremos uma goleada diária e humilhante.
O Brasil é um país de dimensões continentais, abençoado com clima favorável, ausência de catástrofes naturais crônicas e um subsolo que abriga riquezas cobiçadas por potências do mundo inteiro. Apesar de todo esse capital natural, permanecemos acorrentados a crises cíclicas e à estagnação. A Noruega, em contrapartida, ergueu uma das sociedades mais ricas, livres e igualitárias do globo sobre um território de geografia acidentada e clima inóspito. A gênese dessa discrepância não repousa na sorte ou na natureza, mas nas escolhas políticas, na arquitetura do Estado e na crença inegociável no livre mercado.
Quando confrontados com esse contraste, os defensores do nosso asfixiante modelo estatista frequentemente recorrem a um atalho intelectual raso: a demografia. Argumentam que a Noruega só é próspera porque possui uma população equivalente à do estado do Rio de Janeiro. Essa falácia ignora a matemática mais elementar do desenvolvimento. Dividir a pobreza por um número menor de pessoas não gera riqueza; apenas distribui a escassez. A prosperidade norueguesa deriva de altíssima produtividade, segurança jurídica e respeito irrestrito à livre iniciativa.
Os dados internacionais não deixam margem para contorcionismos retóricos. No prestigiado Índice de Liberdade Econômica da Heritage Foundation, a Noruega figura consistentemente na elite global, ocupando com frequência o cobiçado "Top 15". O país destaca-se pela blindagem quase sagrada da propriedade privada, pela facilidade em se abrir e fechar negócios e pela eficiência de sua regulação. Embora possua uma rede de proteção social robusta — frequentemente usada de forma equivocada por setores da esquerda para rotulá-la como "socialista" —, a Noruega é sustentada por uma economia de mercado ferozmente capitalista e aberta.
Enquanto isso, o Brasil amarga a 101ª posição no mesmo ranking. Quem ousa empreender em solo brasileiro é punido por um cipoal tributário indecifrável, por leis trabalhistas que desestimulam a contratação e por um Estado gigantesco que não atua como árbitro, mas como um parasita hostil ao setor produtivo.
Contudo, nada ilustra de forma mais pedagógica — e revoltante — a miopia institucional brasileira do que a forma como os dois países lidaram com a descoberta de suas riquezas naturais. Quando a Noruega encontrou vastas reservas de petróleo no Mar do Norte, no fim dos anos 1960, tomou uma decisão de Estado implacável: o recurso finito não seria utilizado para inchar a burocracia ou financiar populismo no curto prazo. Criaram o Government Pension Fund Global, um Fundo Soberano que investe no exterior a renda gerada pelo petróleo. Hoje, esse fundo ultrapassa a assombrosa marca de 1,4 trilhão de dólares. Eles pouparam para as gerações futuras, evitaram o desequilíbrio inflacionário interno (a chamada "Doença Holandesa") e, paradoxalmente, usam o dinheiro do petróleo para financiar a vanguarda global em energia limpa.
O enredo brasileiro diante do pré-sal deveria ser motivo de profunda vergonha nacional. Descoberto com a promessa de ser o "passaporte para o futuro", a abundância de óleo foi rapidamente capturada pelas engrenagens do nosso capitalismo de laços. Em vez de um fundo focado no futuro, o Estado brasileiro orquestrou o Petrolão — o maior escândalo de corrupção sistêmica da história moderna.
A Petrobras foi aparelhada para comprar sustentação no Congresso Nacional, financiar campanhas políticas, enriquecer um cartel de empreiteiras e subsidiar regimes ditatoriais aliados no exterior. Segundo os laudos da Polícia Federal durante a Operação Lava Jato, a sangria nos cofres da estatal ultrapassou os R$ 42,8 bilhões. Enquanto os noruegueses usaram sua estatal operando sob governança de mercado para garantir o amanhã, nós usamos a nossa para alimentar um projeto de poder corrupto e retroalimentar o atraso.
O Brasil tem lições vitais a aprender com os nórdicos, desde que abandone a desonestidade intelectual de querer copiar apenas a etapa final do processo. Não precisamos importar a alta carga tributária de um país que já enriqueceu; precisamos, com urgência, abraçar a liberdade econômica que permitiu que eles gerassem a riqueza que hoje é tributada.
Precisamos privatizar estatais ineficientes que servem de cabide de empregos, punir a corrupção sem o atual revisionismo jurídico que assola o país, abrir nossa economia à competição global e desidratar o Leviatã estatal que promete justiça social, mas entrega apenas concentração de privilégios nas mãos da elite burocrática e política.
Perder para a Noruega no futebol fere o ego do torcedor. No entanto, continuar a ser engolido por eles nos índices de desenvolvimento humano, liberdade e transparência — por puro e orgulhoso apego a um modelo de Estado que já fracassou globalmente — é o que deveria ferir, de forma irreparável, a nossa consciência nacional. O Brasil só assumirá a sua grandeza no dia em que decidir parar de apostar na falência.
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