Artigos

Quando a misoginia vira método político

A tentativa de desqualificar o voto feminino revela menos sobre as mulheres e muito mais sobre a falência moral de certa política brasileira.

8/7/2026
Publicidade
Expandir publicidade

A política brasileira tem dessas ironias cruéis: às vezes, um conflito doméstico de poder revela uma rachadura muito mais profunda do que a disputa imediata que o produziu. O atrito público entre Michelle Bolsonaro e Flávio Bolsonaro, nascido das articulações do PL no Ceará, poderia parecer apenas mais um episódio de bastidor familiar, desses que misturam vaidade, cálculo eleitoral, ressentimento e disputa por influência. Mas o caso ganhou outra dimensão quando, no rastro da crise, o influenciador Paulo Figueiredo decidiu atacar o voto feminino.

A partir daí, o assunto deixou de ser uma briga interna do bolsonarismo. Passou a ser um sintoma de algo mais grave: a persistência, em setores da direita radicalizada, de uma fantasia autoritária segundo a qual a mulher só é politicamente aceitável quando confirma a vontade masculina, repete a voz do marido, obedece à hierarquia doméstica e não ousa existir como sujeito autônomo diante da urna.

Essa é a verdadeira questão.

Não se trata apenas de uma frase infeliz. Não se trata apenas de linguagem grosseira. Não se trata apenas de mais um "exagero" típico das redes sociais. Quando alguém afirma que mulheres votam mal, especialmente mulheres solteiras, e sugere que mulheres casadas tenderiam a acompanhar o voto do marido, o que está sendo dito é muito mais profundo: está sendo negada à mulher a condição de consciência política individual.

É exatamente aí que mora o perigo.

Atacar a autonomia política das eleitoras não fortalece a família nem a democracia. Apenas revela nostalgia de um tempo em que mulheres eram tratadas como cidadãs de segunda classe.Magnific

O voto não é uma extensão do lar. Não é propriedade do marido. Não é concessão do pai. Não é autorização do pastor, do partido, do influenciador ou do chefe da família. O voto é o ato mais direto pelo qual o indivíduo comparece à vida pública como cidadão. Retirar da mulher essa autonomia, ainda que apenas no plano retórico, é flertar com uma mutilação civilizatória.

O Brasil reconheceu o direito de voto das mulheres em 1932, com o Código Eleitoral que também instituiu a Justiça Eleitoral e o voto secreto. Desde então, a presença feminina nas urnas deixou de ser favor, ornamento ou tolerância. Tornou-se parte constitutiva da democracia brasileira. Hoje, qualquer tentativa de relativizar esse direito esbarra não apenas na história, mas na própria Constituição, que protege o voto direto, secreto, universal e periódico como núcleo duro da ordem democrática.

Por isso, a tese do chamado "voto de família" é tão perigosa. Ela parece, à primeira vista, uma curiosidade exótica de bolhas ultratradicionalistas. Mas, vista de perto, é uma regressão política completa. A ideia de que o "chefe do lar" deveria representar politicamente a família ressuscita uma concepção pré-democrática de sociedade: a mulher desaparece como pessoa pública e reaparece apenas como dependente privada.

É uma espécie de feudalismo doméstico com verniz religioso.

O mais curioso é que esse discurso costuma se apresentar como defesa da família, da tradição e da civilização ocidental. Mas não há nada de civilizado em negar a um ser humano adulto, responsável, trabalhador, contribuinte e participante da vida social o direito de pensar politicamente por si mesmo. Tampouco há algo de verdadeiramente conservador nisso, se entendermos o conservadorismo em sua tradição mais séria: aquela que reconhece a dignidade da pessoa, a responsabilidade moral individual, a limitação do poder arbitrário e a defesa de instituições estáveis.

Confundir conservadorismo com tutela masculina da consciência feminina é rebaixar uma tradição política inteira a um ressentimento de gênero.

Também é intelectualmente pobre tentar reduzir a defesa do voto feminino a uma pauta "marxista", "identitária" ou "feminista" em sentido pejorativo. O direito de voto das mulheres não pertence a um partido, a uma ideologia ou a uma corrente acadêmica. Pertence à história da cidadania. Antes de ser uma reivindicação de esquerda, é uma exigência elementar de liberdade civil. Antes de ser um debate identitário, é uma questão de igualdade jurídica. Antes de ser uma bandeira progressista, é uma consequência lógica da ideia de que o indivíduo humano não perde sua racionalidade ao nascer mulher.

Aliás, há uma contradição quase cômica no argumento de quem diz combater o "marxismo estrutural" e, ao mesmo tempo, trata mulheres como bloco homogêneo, massa manipulável e categoria incapaz de discernimento próprio. Isso é justamente o tipo de determinismo coletivo que essas mesmas vozes dizem rejeitar.

Se a esquerda erra quando reduz indivíduos a identidades fechadas, a direita radical erra de modo simétrico quando reduz mulheres a uma massa emocionalmente tutelável. Em ambos os casos, a pessoa concreta desaparece. No lugar dela, entra uma abstração conveniente: "as mulheres", "as solteiras", "as feministas", "as casadas", "as obedientes", "as desviadas".

Mas mulheres não são rebanho eleitoral. São cidadãs.

Há mulheres conservadoras, liberais, socialistas, religiosas, agnósticas, empresárias, professoras, trabalhadoras rurais, servidoras públicas, policiais, médicas, donas de casa, estudantes, mães solo, esposas, viúvas, solteiras, jovens e idosas. Há mulheres que votam à direita, ao centro e à esquerda. Há mulheres que mudam de opinião, que se arrependem do voto, que estudam programas de governo, que votam por valores morais, por economia, por segurança pública, por educação, por saúde, por religião ou por rejeição a determinado candidato.

Exatamente como os homens.

A tentativa de dizer que mulheres votam mal revela uma arrogância seletiva. Afinal, homens não votam mal? Homens não elegem corruptos? Homens não acreditam em boatos? Homens não seguem líderes fanáticos? Homens não caem em teorias conspiratórias? Homens não votam por raiva, medo, ressentimento, interesse pessoal ou desinformação?

A história política do mundo seria bem mais confortável se os erros eleitorais fossem monopólio feminino. Mas não são. Nunca foram.

O problema não é a mulher votar mal. O problema é uma política incapaz de dialogar com mulheres sem insultá-las.

Quando um campo político fracassa em convencer mulheres solteiras, chefes de família, trabalhadoras, estudantes e eleitoras independentes, a resposta racional seria perguntar: quais demandas não estamos compreendendo? Que linguagem não estamos conseguindo construir? Que propostas não estamos oferecendo? Que medos, necessidades e expectativas estamos ignorando?

Mas a resposta autoritária é sempre mais simples: culpar o eleitor.

É o velho vício de toda política decadente. Quando o povo não vota como eu quero, o povo é ignorante. Quando as mulheres não votam como eu espero, as mulheres são manipuladas. Quando os jovens divergem, são doutrinados. Quando os pobres escolhem outro caminho, foram comprados. Quando os intelectuais criticam, são comunistas. Quando as instituições reagem, são inimigas.

Essa lógica não educa. Ela apenas revela incapacidade democrática.

Por isso, a reação de Flávio Bolsonaro ao se afastar publicamente da fala de Paulo Figueiredo não é mero detalhe. É cálculo, evidentemente. Nenhum candidato competitivo quer carregar o peso de uma declaração que agride diretamente a maioria do eleitorado. Mas também é uma confissão involuntária: atacar mulheres por votarem de forma autônoma é um desastre político.

A questão é saber se o repúdio será apenas tático ou se haverá uma ruptura real com esse tipo de pensamento.

Porque não basta dizer que a fala foi equivocada. É preciso reconhecer que ela não nasceu do nada. Ela brota de um ecossistema discursivo no qual misoginia, ressentimento masculino, fundamentalismo político e nostalgia autoritária se alimentam mutuamente. Não é apenas uma opinião isolada. É parte de uma gramática.

Essa gramática tem alguns sinais conhecidos. Primeiro, transforma a mulher independente em ameaça. Depois, apresenta o feminismo como causa de todos os males sociais. Em seguida, idealiza uma família hierárquica, na qual o homem decide e a mulher confirma. Por fim, chama essa submissão de ordem natural.

Mas a ordem natural, se invocada seriamente, não autoriza a supressão da consciência. Pelo contrário. Se há algo que pode ser chamado de lei natural no plano moral é a dignidade racional da pessoa humana. Homens e mulheres são sujeitos de responsabilidade. Ambos respondem por seus atos. Ambos discernem. Ambos erram. Ambos acertam. Ambos devem ter direito à representação política.

A diferença biológica entre os sexos não cria hierarquia civil entre consciências.

É por isso que a tese do "voto de família" deve ser combatida com firmeza. Ela não fortalece a família; enfraquece a cidadania. Não protege a mulher; infantiliza a mulher. Não defende a tradição; trai a tradição democrática. Não preserva valores; substitui valores por obediência.

Uma família pode compartilhar princípios, fé, projetos e visões de mundo. Mas compartilhar não é anular. O casamento não dissolve a individualidade política da mulher. A maternidade não suspende sua cidadania. A vida doméstica não confisca sua voz pública.

No fundo, o defensor do "voto de família" teme a urna porque a urna é um lugar de silêncio soberano. Ali, ninguém manda. Ninguém vigia. Ninguém traduz. Ninguém substitui. A mulher vota sozinha, diante da própria consciência. E talvez seja isso que incomode tanto: o voto secreto impede a fiscalização patriarcal da alma.

A democracia começa justamente nesse ponto: quando o indivíduo pode contrariar a expectativa do seu grupo sem perder sua dignidade.

O acionamento da Procuradoria-Geral da República pela senadora Soraya Thronicke mostra que o episódio ultrapassou o terreno do bate-boca digital. A parlamentar classificou as declarações como possível violência política de gênero e discurso misógino contra mulheres. Pode-se discutir juridicamente o enquadramento, os limites da liberdade de expressão e a tipificação adequada. Esse debate é legítimo. Mas politicamente o recado já está dado: naturalizar a degradação pública da capacidade eleitoral feminina não é brincadeira inocente.

A democracia não sobrevive apenas a golpes explícitos. Ela também adoece quando certos grupos passam a ser tratados como cidadãos de segunda classe.

E aqui chegamos ao ponto central. O voto feminino não é uma concessão moderna. É uma conquista inalienável. Não pertence à esquerda, à direita, ao feminismo acadêmico, ao liberalismo partidário ou ao conservadorismo religioso. Pertence à cidadania. É patrimônio democrático do Brasil.

Por isso, qualquer projeto político que tolere, relativize ou trate como excentricidade a defesa de teses que diminuem a autonomia eleitoral das mulheres assume uma responsabilidade moral. Não basta dizer: "ele não fala por nós". É preciso perguntar por que esse tipo de voz encontrou ambiente, audiência, prestígio e circulação dentro do próprio campo político.

A misoginia não começa quando alguém propõe formalmente retirar direitos. Começa antes: quando se ridiculariza a inteligência feminina; quando se transforma a mulher solteira em inimiga moral; quando se reduz a esposa a satélite do marido; quando se usa a palavra "família" para apagar a pessoa; quando se chama a autonomia de desvio; quando se confunde discordância política com inferioridade intelectual.

A urna eletrônica brasileira não pergunta se a eleitora é casada, solteira, viúva, mãe, evangélica, católica, espírita, ateia, empresária, doméstica, professora ou estudante. Pergunta apenas se ela é cidadã. E essa pergunta a democracia brasileira já respondeu: sim, ela é.

O resto é ruído autoritário.

O Brasil pode discutir economia, segurança, costumes, educação, política externa, tamanho do Estado, reforma tributária, religião no espaço público e todos os temas próprios de uma sociedade plural. Pode haver mulheres à direita, à esquerda e ao centro. Pode haver divergências duras, inclusive entre mulheres. Isso é democracia.

O que não pode haver é a tentativa de desqualificar metade da população como incapaz de votar porque seu voto não agrada a determinado grupo.

Quando uma corrente política começa a fantasiar que o problema da democracia é o excesso de autonomia das mulheres, ela já deixou de discutir política: passou a discutir tutela. E tutela não é democracia. Tutela é medo da liberdade do outro.

O voto feminino é uma das grandes provas de maturidade civilizatória do Brasil. Questioná-lo, ainda que por insinuação, não é coragem intelectual. É nostalgia do atraso.

E quem pretende governar um país democrático precisa decidir de que lado está: do lado da cidadania plena ou do lado daqueles que ainda sonham com uma urna onde a mulher entra como sombra do homem.

A democracia brasileira, com todos os seus defeitos, já fez essa escolha em 1932. E não há influencer, partido, patriarca ou candidato que tenha legitimidade moral para nos empurrar de volta.


O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para redacao@congressoemfoco.com.br.

Veja mais no portal
cadastre-se, comente, saiba mais

Artigos Mais Lidos