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Quando o algoritmo vira marqueteiro, até os políticos aprendem a dançar

A lógica das plataformas digitais transformou a disputa eleitoral, aproximou adversários na linguagem e fez da atenção um ativo tão valioso quanto as propostas.

10/7/2026
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A cada eleição, cresce o número de políticos "tiktokeiros". Candidatos que dançam, entram em desafios virais e transformam a campanha em uma sequência de conteúdos pensados para prender a atenção do eleitor nas redes sociais. ACM Neto, na Bahia, João Campos, em Pernambuco, e Flávio Bolsonaro, no cenário nacional, pertencem a campos políticos distintos. Mesmo assim, recorrem a uma linguagem semelhante. Isso não acontece por acaso. Os políticos não dançam por acaso. Eles adaptam suas campanhas a um ambiente em que um bom conteúdo, por si só, já não garante visibilidade. Para circular, a mensagem também precisa se adequar à lógica das plataformas digitais.

Nos últimos anos, a disputa eleitoral deixou de acontecer apenas nas ruas, na televisão ou no horário eleitoral. Ela passou a ser mediada por plataformas que distribuem conteúdos segundo critérios próprios. O que recebe mais alcance nem sempre é o conteúdo mais consistente. Em muitos casos, é o que consegue interromper o movimento do dedo na tela e manter a atenção do usuário por alguns segundos.

Essa mudança alterou a comunicação política. Movimentos corporais, trilhas sonoras, humor, cortes rápidos, expressões exageradas e repetição passaram a disputar espaço com programas de governo, propostas e debates. A dança é apenas a face mais visível dessa transformação. Ela não aparece porque o eleitor deixou de gostar de política, mas porque responde aos estímulos produzidos pelas plataformas. Quanto maior a capacidade de retenção, compartilhamento e reprodução de um conteúdo, maior tende a ser sua circulação.

Por isso, candidatos de partidos, regiões e ideologias diferentes acabam produzindo vídeos tão parecidos. Eles disputam votos, mas obedecem às mesmas regras de distribuição de conteúdo. A contradição fica ainda mais evidente quando observamos quem critica esse modelo.

Recentemente, Renan Santos, pré-candidato à Presidência, publicou um vídeo condenando candidatos que dançam durante a campanha. O argumento é que a política estaria sendo substituída pelo entretenimento, e a crítica parece fazer sentido. O problema é que o próprio vídeo utiliza exatamente os mecanismos que caracterizam a comunicação das plataformas, com cortes rápidos, frases de efeito, antagonismo, emoção, ritmo acelerado e linguagem pensada para maximizar alcance.

O avanço das plataformas digitais reorganizou a comunicação eleitoral, privilegiando conteúdos virais e impondo uma nova lógica de visibilidade às campanhas.Magnific

Até quem critica esse modelo continua dependente da arquitetura que tornou esses formatos eficientes. Isso não significa que candidatos devam abandonar linguagens populares. A política sempre utilizou músicas, imagens, símbolos e recursos culturais para dialogar com a sociedade. Nas plataformas digitais, esses elementos deixaram de complementar a mensagem. Em muitos casos, passaram a ser a própria mensagem.

Quando a visibilidade depende da capacidade de viralizar, propostas, programas e projetos podem perder espaço para conteúdos produzidos exclusivamente para gerar circulação. O verdadeiro debate não deveria ser se políticos devem ou não dançar.

A questão é entender por que a política passou a depender de performances para conquistar atenção. Enquanto a discussão permanecer concentrada na coreografia dos candidatos, continuará invisível o principal agente dessa mudança. Não é a dança que reorganizou a comunicação política. São as plataformas digitais e seus algoritmos, que passaram a definir quais linguagens circulam, quais narrativas ganham alcance e quais temas conseguem existir no debate público.

Isso afeta diretamente a democracia porque uma parte crescente do eleitorado se informa por meio de conteúdos curtos, fragmentados e orientados pela lógica da retenção. Quando o debate público passa a ser filtrado por critérios de engajamento, a política deixa de disputar apenas ideias e passa a disputar estímulos. O algoritmo não escolhe quem vence uma eleição, mas influencia quais discursos chegam ao eleitor, quais temas ganham visibilidade e quais candidaturas conseguem permanecer no debate público.

Talvez estejamos fazendo a pergunta errada. O problema não é descobrir por que os candidatos dançam. O problema é entender por que, nas plataformas digitais, quem não aprende a dançar corre o risco de desaparecer.


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