Escrito com Mônica Francisco, cientista social e ex-deputada estadual.
Julho é um mês de memória, resistência e compromisso com a Justiça. É também tempo de mobilização. Inspirado no significado político do 25 de julho (Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha), o Julho das Pretas consolidou-se, desde a sua criação, em 2013, como uma das mais importantes agendas do movimento feminista negro no Brasil. Mais do que um calendário de homenagens, trata-se de uma construção coletiva que amplia o debate sobre igualdade racial, democracia, participação política e direitos.
A inspiração da data veio de Tereza de Benguela, mulher que deveria ocupar lugar de destaque de todos os livros de História. No século XVIII, Tereza liderou, por cerca de duas décadas, o Quilombo do Quariterê, no atual Estado de Mato Grosso, formado por escravos fugidos e indígenas. Após a morte de seu companheiro, nos idos de 1750, ela assumiu o comando da comunidade, organizou sua administração, fortaleceu a produção agrícola, promoveu o comércio e coordenou a defesa do território contra as constantes investidas do regime escravista. O quilombo resistiu até aproximadamente 1770, quando finalmente foi destruído pelas tropas coloniais.
Sua liderança provou que coragem, inteligência e capacidade política independem de cor ou gênero. Seu legado atravessou séculos e continua inspirando mulheres que se recusam a aceitar o silêncio, a discriminação e a exclusão como destino inexorável.
Mais do que celebrar uma personagem histórica, o Julho das Pretas valoriza milhões de mulheres negras que, ao longo dos tempos, têm alicerçado famílias, organizado comunidades, produzido conhecimento, preservado culturas e ajudado a melhorar a sociedade como um todo.
Os desafios permanecem gigantes. Mulheres pretas continuam entre as maiores vítimas da pobreza, da violência e da exclusão dos espaços de poder. Mas também, como Tereza, viraram protagonistas e continuam fazendo História.
Cada jovem preta que chega à universidade, cada trabalhadora, cientista, artista, empreendedora que conquista autonomia, cada liderança negra eleita pelo voto popular – tudo isso prova que somos capazes de ocupar o lugar que quisermos na sociedade. Ensina, também, que ninguém chega a lugar nenhum sozinha.
Cada uma das conquistas obtidas carrega a força de muitas mulheres negras que vieram antes, que enfrentaram portas fechadas e decidiram abri-las – para si mesmas e para as próximas gerações.
Por isso, o Julho das Pretas não é apenas um calendário de homenagens. É um chamado à ação. Ao lembrar Tereza de Benguela, lembramos das Terezas viram depois dela. E Beneditas, Marielles e tantas outras. Não apenas a Benedita que assina este artigo – que saiu da favela para ser a primeira mulher negra vereadora do Rio, a primeira mulher negra deputada constituinte, a primeira senadora negra, primeira governadora do Rio, ministra, secretária de estado, reconhecida mundialmente. Mas também todas as mulheres negras que transformam resistência em representação, coragem em oportunidade e luta em direitos.
É dessa memória que nasce a nossa força. Seguimos juntas nesta caminhada coletiva para, pretas teimosas que somos, construir o Brasil que merecemos.
O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para redacao@congressoemfoco.com.br.