A Copa do Mundo de 2026 terminou, deixando no ar aquela sensação vivida por quase 40 dias não só de disputas, mas, sobretudo, de muita troca de vivências culturais diversas. Foram 48 seleções representando seus respectivos países, num espetáculo que transcendeu o caráter esportivo e mostrou para o mundo como o futebol praticado hoje reúne técnicas e talentos de diferentes origens, fruto do intercâmbio entre jogadores de diferentes nacionalidades que atuam juntos nos grandes times.
Mas esse não é um artigo sobre futebol. É sobre o poder e o impacto da colaboração internacional em uma indústria. E, trazendo "a bola para o nosso campo" (com o perdão do trocadilho!), enquanto advogadas que atuam em parceria no setor audiovisual, uma no Brasil e outra em Portugal, analisamos os recentes avanços na aliança entre os dois países no setor audiovisual.
A distância entre as salas de cinema do Brasil e de Portugal está prestes a diminuir. A nova Chamada Pública de Coprodução Brasil–Portugal, anunciada em maio de 2026, abre as portas para que produtoras independentes dos dois lados do Atlântico tirem novos longas-metragens do papel. A iniciativa abrange projetos de ficção, documentário e animação, com lançamento previsto inicialmente para os cinemas.
A estrutura financeira foi organizada de forma espelhada. No Brasil, o edital é administrado pelo Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul (BRDE), com recursos do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA). O orçamento totaliza pouco mais de R$ 2 milhões, valor equivalente a cerca de € 350 mil, e cada projeto pode receber até R$ 1.026.077,50. As produtoras brasileiras têm de 15 de junho a 25 de setembro de 2026 para apresentar suas propostas.
Para garantir equilíbrio entre os parceiros, a chamada brasileira é destinada a produtoras nacionais que participem como coprodutoras minoritárias, assumindo entre 20% e menos de 50% da obra. A empresa portuguesa fica, portanto, com a participação majoritária.
Em paralelo, o Instituto do Cinema e do Audiovisual de Portugal lançou uma chamada equivalente, também no valor de € 350 mil, para projetos em que a participação portuguesa seja minoritária. A seleção será feita por uma comissão mista, formada por representantes e profissionais dos dois países.
O aspecto mais interessante dessa parceria é que ela não se limita à transferência de recursos. O edital exige uma colaboração que vá além do dinheiro: os projetos precisam demonstrar uma troca artística e técnica efetiva. Isso significa que a equipe do filme — do roteiro e da direção ao elenco, à produção e à pós-produção — deve contar com profissionais brasileiros e portugueses. O contrato de coprodução também precisa comprovar que as responsabilidades criativas e financeiras são realmente compartilhadas.
As regras são claras. Podem concorrer filmes em diferentes fases de produção, desde que ainda não estejam finalizados. Cada produtora brasileira pode apresentar apenas um projeto. Os recursos se destinam exclusivamente às despesas de produção sob responsabilidade da parte brasileira e não cobrem custos de distribuição ou divulgação. Além disso, o apoio do fundo brasileiro funciona como investimento retornável, o que garante ao FSA uma participação nos resultados comerciais da obra.
Fazer um filme em conjunto oferece vantagens que vão muito além do orçamento. Uma obra luso-brasileira já nasce com dois mercados naturais e reúne os contatos e as estratégias comerciais das equipes dos dois países. Na prática, isso pode facilitar a entrada em festivais internacionais, ajudar nas negociações com distribuidores e abrir portas para outros fundos europeus ou latino-americanos.
Em uma época em que o cinema independente enfrenta custos cada vez mais altos e forte concorrência das plataformas de streaming, a existência desses apoios coordenados representa um impulso bem-vindo para o setor. O objetivo não é apenas financiar alguns filmes, mas criar relações de trabalho reais e duradouras entre as duas indústrias.
E talvez esse seja o aspecto mais importante dessa aproximação: aqui, não há espaço para um único vencedor. Não existe mata-mata, mas uma construção conjunta em que todos podem ganhar. Ganha o Brasil, ganha Portugal, ganha a indústria audiovisual dos dois países e, sobretudo, ganha o público, que passa a ter acesso a histórias capazes de atravessar fronteiras, aproximar culturas e ampliar horizontes.
No cinema, como no futebol, grandes resultados raramente são obra de um único talento. Eles nascem do encontro, da troca e da capacidade de jogar juntos. E, neste caso, Brasil e Portugal entram em campo com a mesma ambição: transformar essa aproximação em filmes capazes de atravessar fronteiras, aproximar culturas e alcançar o mundo.
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