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Esta não é uma eleição justa

Em 2026, a disputa democrática será travada também contra desinformação, manipulação algorítmica e desigualdade na formação da opinião.

17/8/2026
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Há uma afirmação incômoda que precisa ser feita antes que a disputa eleitoral de 2026 entre em sua fase decisiva: esta não será uma eleição justa.

Não porque as urnas não sejam confiáveis. Não porque a Justiça Eleitoral não tenha condições de organizar o pleito. Não porque existam razões para antecipar suspeitas sobre a apuração dos votos. Questionar sem evidências a segurança das urnas significaria reproduzir uma das estratégias de desinformação que contribuíram para criar o ambiente político que desembocou no 8 de janeiro de 2023. O problema é outro — e talvez mais profundo.

Uma eleição democrática não começa quando o eleitor entra na cabine de votação. Começa muito antes, nas condições em que os cidadãos formam suas opiniões, conhecem os problemas do país, confrontam alternativas, avaliam propostas e decidem em quem confiar. É nesse terreno que a disputa se tornou profundamente desigual.

Nunca dispusemos de tantos meios para produzir e compartilhar conhecimento. Paradoxalmente, nunca foi tão fácil produzir e disseminar falsidades em escala industrial. Redes sociais tornaram-se espaços centrais da disputa política, mediados por algoritmos opacos, controlados por empresas privadas e orientados por modelos de negócio baseados em atenção e engajamento.

A mentira ganhou infraestrutura. Pode ser produzida continuamente, reproduzida por milhares de perfis, dirigida a públicos específicos e potencializada pela inteligência artificial. Imagens podem ser fabricadas, vozes reproduzidas e contextos adulterados. Meias verdades podem ser ainda mais eficazes porque preservam fragmentos da realidade capazes de conferir credibilidade à distorção.

Mais preocupante talvez seja o desaparecimento da vergonha de mentir. Candidatos e lideranças afirmam falsidades, omitem informações, selecionam fragmentos convenientes da realidade ou contradizem o que disseram antes sem constrangimento. Quando desmentidos, repetem; quando confrontados com evidências, mudam de assunto ou atacam quem apresenta os fatos. A mentira deixa de ser desvio e vira método.

A democracia pressupõe divergência, conflito de interesses e diferentes interpretações da realidade. Há, porém, diferença entre disputar sobre os fatos e disputar a partir dos fatos. Quando desaparece uma base mínima de realidade compartilhada, o próprio debate democrático perde seu chão.

É nesse ambiente que questões complexas são substituídas por mecanismos de mobilização emocional. Pautas de costumes, corrupção e violência são temas legítimos, mas tornam-se problemáticas quando questões reais são transformadas em dispositivos de medo, preconceito, ressentimento e distração, afastando do debate suas causas e possíveis soluções.

Como reduzir a violência sem enfrentar desigualdades, crime organizado, circulação de armas, precarização urbana e a ausência, insuficiência ou presença seletiva e violenta do Estado? E sem investir em inteligência e investigação capazes de identificar redes de financiamento e proteção e alcançar quem lucra com atividades criminosas? Concentrar a repressão nos elos mais frágeis dessas cadeias não desmonta o crime organizado e pode ampliar a violência e o encarceramento.

Há ainda outra dimensão: nesses territórios, o Estado não está apenas ausente. Pode fazer-se presente de forma degradada, quando agentes ou segmentos das forças de segurança são corrompidos, capturados ou associados a redes criminosas. Enfrentar a violência exige perguntar que Estado chega a esses territórios, a serviço de quem atua e sob quais mecanismos de controle e responsabilização.

O mesmo vale para a corrupção. Não basta atacar os elos mais visíveis sem discutir transparência, apropriação privada do Estado, relações entre poder econômico e político e instrumentos capazes de rastrear fluxos financeiros, patrimônios e beneficiários. E como falar em defesa da família ignorando emprego, renda, moradia, educação, saúde, alimentação e as condições concretas em que vivem as famílias brasileiras? O rebaixamento do debate não resolve os problemas: explora-os.

A ignorância, nessas circunstâncias, pode tornar-se politicamente funcional. Quanto menos se compreendem os mecanismos que distribuem renda, riqueza e poder e as relações entre juros, tributação, orçamento, emprego e políticas públicas, mais fácil se torna substituir problemas estruturais por inimigos imaginários e soluções complexas por palavras de ordem. Uma sociedade desinformada é mais vulnerável à manipulação.

A disputa pela formação da opinião pública também não ocorre dentro de fronteiras nacionais. Plataformas, fluxos de informação, interesses econômicos e estratégias de influência atravessam países e se articulam a relações de poder. A disputa pela consciência dos cidadãos é também uma disputa geopolítica.

As eleições de 2026 ocorrerão em um mundo marcado pelo enfraquecimento do multilateralismo, pela intensificação das disputas geopolíticas e pela retomada de políticas de força. A América Latina volta a ser tratada, em determinados discursos e práticas, não como uma região de Estados soberanos, mas como área submetida a interesses estratégicos dos Estados Unidos.

A intervenção norte-americana na Venezuela, culminando na captura, em Caracas, de Nicolás Maduro e em sua transferência para os Estados Unidos, estabeleceu um precedente cuja gravidade ultrapassa qualquer avaliação sobre seu governo. É possível criticar autoritarismos sem admitir que uma potência estrangeira se atribua o direito de decidir, pela força, o destino político de outro país.

O problema adquire significado particular para o Brasil quando setores da extrema direita recebem favoravelmente esse tipo de ação e mantêm alinhamento com o trumpismo. A disputa brasileira relaciona-se, então, a uma pergunta elementar: quem deve decidir o futuro do Brasil? Os brasileiros ou poderes econômicos, tecnológicos e geopolíticos capazes de pressionar Estados e influenciar o ambiente político?

Afirmar que esta não é uma eleição justa não significa antecipar a ilegitimidade de seu resultado. Significa reconhecer que a liberdade formal de depositar um voto não elimina as desigualdades que condicionam a formação desse voto.

Urnas seguras não bastam quando mentiras, algoritmos opacos e inteligência artificial desequilibram as condições em que formamos nossas escolhas.Magnific

Uma pessoa pode chegar à cabine eleitoral sem coerção direta e, ainda assim, não ter formado sua escolha em condições livres. Durante meses, pode ter sido submetida a um ambiente informacional construído para explorar preconceitos e inseguranças; receber mensagens falsas sem acesso à correção; e acreditar que decide com base em informações quando reage a conteúdos selecionados por sistemas cuja lógica desconhece.

A urna pode ser segura e a disputa profundamente desigual. Esse é um dos problemas democráticos de nosso tempo. Enfrentá-lo exige cuidado. A resposta à mentira não pode ser uma verdade oficial; a resposta aos algoritmos não pode censurar o debate; a resposta à extrema direita não pode ser restringir a liberdade política.

A democracia precisa responder com mais democracia: transparência dos algoritmos, responsabilização das plataformas, identificação de conteúdos artificialmente produzidos, educação crítica para as mídias, jornalismo profissional, ciência, universidades, pluralidade de fontes, instituições públicas confiáveis e sociedade civil capaz de disputar ideias. Isso exige também reconhecer o poder dos grandes meios de comunicação e garantir condições efetivas para a expressão de perspectivas divergentes.

Pluralidade não significa admitir que os fatos sejam livremente fabricados. Quanto mais aberto o debate, mais necessário preservar uma base factual comum. A democracia precisa recuperar o valor político da verdade: afirmações factuais devem poder ser confrontadas com evidências; candidatos devem responder pelo que dizem; mentiras deliberadas não podem ser normalizadas como estratégia eleitoral.

Há uma assimetria que não podemos ignorar: quem aceita os limites impostos pelos fatos disputa em desvantagem diante de quem se considera livre para inventá-los. Mas recuperar a verdade não basta. É preciso recuperar também a política como disputa sobre o futuro. Por trás das mentiras, controvérsias fabricadas e exploração eleitoral do medo existe uma questão que não pode continuar encoberta: que país queremos construir?

As eleições de 2026 precisam ser também uma disputa sobre desenvolvimento, desigualdade, trabalho, saúde, educação, ciência, ambiente, democracia e soberania; sobre quem controlará os recursos públicos e segundo quais prioridades; sobre que lugar o Brasil pretende ocupar no mundo e quais direitos consideramos universais.

Durante muito tempo, pensamos eleições livres e justas principalmente como aquelas em que todos podem votar, candidaturas podem disputar, os votos são corretamente contados e o resultado é respeitado. Tudo isso continua indispensável. Mas já não basta. Precisamos acrescentar outra pergunta: em que condições uma sociedade forma livremente sua vontade?

Se poucas grandes plataformas concentram parcela decisiva da infraestrutura digital da informação; se algoritmos opacos reforçam crenças; se falsidades disseminadas por robôs, redes coordenadas e impulsionamento adquirem aparência de consenso; se a inteligência artificial dificulta distinguir conteúdos autênticos de fabricados; e se candidatos transformam a mentira em método, a igualdade democrática começa a ser comprometida antes mesmo do 1º voto.

Defender as eleições brasileiras de 2026 significa, portanto, muito mais do que defender as urnas. Significa defender as condições sociais, informacionais, econômicas e políticas que permitem ao cidadão escolher conscientemente.

Não haverá democracia substantiva se a mentira puder competir sem limites com a verdade, se a ignorância for cultivada como instrumento de poder, se desigualdades extremas condicionarem a cidadania e se a liberdade de escolha for colonizada por poderes que o cidadão não vê, não elege e não controla.

Por isso, 2026 não pode ser compreendido como uma eleição inteiramente normal, travada em terreno democrático já assegurado. Disputa-se também a possibilidade de que diferentes perspectivas políticas possam se organizar, manifestar, confrontar projetos e disputar legitimamente o apoio da sociedade. Será preciso distinguir quais forças aceitam a soberania popular, o resultado das urnas, as liberdades políticas, o pluralismo e as regras constitucionais — e quais fazem dessas regras objeto de contestação ou ruptura.

Isso não elimina as divergências entre as forças democráticas. Unidade democrática não significa uniformidade, adesão incondicional ou renúncia à crítica. Significa reconhecer, em cada momento histórico, o que é principal e o que é secundário. Não devemos temer o confronto entre projetos distintos. Ele é constitutivo da democracia. O que devemos enfrentar é uma disputa na qual se tornam menos nítidas as fronteiras entre confronto de ideias e fabricação da realidade, argumento e manipulação, informação e propaganda, adversário e inimigo.

Nenhuma correlação de forças é permanente: ela pode ser transformada pela organização social, pela participação política, pela disputa de ideias e pela construção de novas maiorias. Preservar e ampliar hoje o espaço da democracia significa assegurar as condições para disputá-lo e transformá-lo amanhã.

E preservá-lo não basta: a democracia precisa ser exercida. A urna pode decidir quem governará o Brasil. Mas somente uma sociedade informada, organizada e participante poderá decidir que Brasil queremos construir.

Para isso, é preciso recuperar a autonomia coletiva na formação da opinião e superar a desconfiança em relação à participação política. A ideia de que a política é um jogo sujo, entediante ou complexo demais para o cidadão comum favorece seu afastamento dos espaços de decisão. A descrença pode ter razões concretas, mas abster-se da política não significa escapar dela: enquanto alguns se retiram, outros continuam decidindo, disputando recursos e exercendo poder.

A democracia tampouco se fortalece quando cidadãos afastados da vida pública são mobilizados principalmente pelo medo, pela indignação ou pelo ressentimento. A insatisfação social é real e suas causas precisam ser conhecidas, debatidas e enfrentadas. Quando isso não acontece, sentimentos legítimos podem ser capturados, falsos culpados fabricados e respostas simples ocupar o lugar da compreensão.

Recuperar a política significa transformar insatisfação em compreensão, compreensão em participação e participação em capacidade coletiva de mudar a realidade. Significa reconhecer que a política não pertence aos políticos: pertence à sociedade. Exige cidadãos capazes de confrontar projetos, argumentos e evidências, participar das decisões e identificar, por trás das explicações fáceis, as estruturas e interesses que produzem muitos dos problemas cotidianos.

É por isso que a luta por uma eleição verdadeiramente justa começa muito antes do voto — e não termina quando as urnas se fecham.


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