Mais uma vez vivemos um momento histórico no país: as eleições de 2026 já registram o maior número de candidaturas indígenas desde que a Justiça Eleitoral passou a reunir dados de cor e raça das candidatas e dos candidatos. São 191 candidaturas de pessoas indígenas em 26 unidades da Federação, segundo levantamento da Campanha Indígena da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), atualizado em 17 de agosto a partir da base do Tribunal Superior Eleitoral. São 64 povos presentes na disputa. Não se trata apenas de um recorde estatístico. É a expressão de uma caminhada coletiva, construída nos territórios, nas retomadas, nas organizações e na luta de muitas gerações.
É sobre isso que falamos quando dizemos que precisamos Aldear a política.
O projeto Aldear a Política nasceu para apoiar e fortalecer a participação indígena nos espaços onde são tomadas decisões que afetam nossas vidas, nossos territórios e o futuro do país. Ainda durante minha pré-candidatura, começamos articulando 43 candidaturas indígenas em diferentes regiões do Brasil. Aquela iniciativa ajudou a demonstrar que era possível construir uma ação política nacional conectada às bases, com identidade, ancestralidade e compromisso coletivo. A semente encontrou terra fértil. Espalhou-se pelo país, ganhou novas vozes e passou a nomear um desejo muito maior do que qualquer candidatura ou mandato.
Hoje, "Aldear a política" virou símbolo da representatividade indígena. A expressão pertence à mobilização de nossos povos. Ela significa ocupar a política sem deixar nossa identidade do lado de fora; levar para os parlamentos e governos as propostas que nascem nos territórios; fazer com que os povos indígenas falem por si mesmos e participem, em primeira pessoa, das escolhas sobre o Brasil.
Os números ajudam a dimensionar essa mudança. De acordo com a série divulgada pela APIB com base no TSE, o país passou de 85 candidaturas indígenas nas eleições gerais de 2014 para 133 em 2018, 186 em 2022 e 191 em 2026 — crescimento de 125% em doze anos. Na disputa para a Câmara dos Deputados, foram 25 candidaturas em 2014, 39 em 2018, 59 em 2022 e, agora, 75 em 2026. Em doze anos, esse número triplicou.
Esse avanço precisa ser visto à luz de uma ausência histórica. Mário Juruna, do povo Xavante, foi eleito deputado federal em 1982 pelo Rio de Janeiro. Depois dele, o Brasil passou 36 anos sem eleger outra pessoa indígena para a Câmara. Somente em 2018 Joenia Wapichana, por Roraima, rompeu esse silêncio e se tornou a primeira mulher indígena eleita deputada federal na história do país.
Em 2022, demos um novo passo: cinco pessoas indígenas foram eleitas para a Câmara dos Deputados. Quatro eram mulheres — Célia Xakriabá, Juliana Cardoso, Silvia Waiãpi e eu. Paulo Guedes completou o grupo. Portanto, as mulheres representaram quatro das cinco pessoas indígenas eleitas naquele pleito, ou 80% dessa bancada. Ao mesmo tempo, éramos apenas quatro entre as 513 cadeiras da Câmara, menos de 1% da Casa. O dado revela, ao mesmo tempo, a potência das mulheres indígenas e o tamanho da distância que ainda precisamos percorrer.
São Paulo ocupa um lugar importante nessa história recente. Em 2022, o Estado elegeu duas mulheres indígenas para a Câmara dos Deputados: eu, Sônia Guajajara, com 156.966 votos, e Juliana Cardoso, do povo Terena. Juntas, ocupamos duas das 70 cadeiras da bancada paulista — cerca de 2,9% da representação do Estado — e duas das cinco vagas conquistadas por pessoas indígenas em todo o país naquele ano.
Não podemos permitir, porém, que os recordes escondam a sub-representação. O Censo 2022 contou cerca de 1,69 milhão de pessoas indígenas no Brasil, aproximadamente 0,83% da população. Mesmo após a eleição histórica de 2022, as pessoas indígenas ocupavam cinco das 513 cadeiras da Câmara, cerca de 0,97%. A proximidade entre esses percentuais não significa igualdade política: a presença parlamentar permaneceu concentrada em apenas três Estados, enquanto centenas de povos e dezenas de unidades da Federação continuaram sem representação indígena direta na Casa.
Também é necessário lembrar que candidatura não é sinônimo de eleição. É preciso transformar presença nas urnas em presença efetiva nos espaços de decisão, os partidos precisam garantir condições reais de competitividade: financiamento justo, tempo de propaganda, estrutura de campanha, segurança e proteção contra o racismo e a violência política de gênero. Mulheres indígenas enfrentam essas barreiras de forma ainda mais intensa. Quando uma mulher indígena ocupa a tribuna, ela carrega consigo a voz das anciãs, das jovens, das mães, das defensoras dos territórios e de todas aquelas que por muito tempo foram tratadas como objeto de políticas públicas, nunca como autoras das decisões.
Por isso, celebro cada parente que decidiu colocar seu nome e sua trajetória à disposição de seu povo e do Brasil. Celebro os 64 povos presentes nesta disputa, as 75 candidaturas à Câmara e todas as candidaturas aos legislativos estaduais, ao Senado e aos governos. Cada uma delas amplia o horizonte do possível.
A democracia brasileira será mais forte quando tiver a nossa cara, as nossas línguas, os nossos conhecimentos e a nossa diversidade. Aldear a política é democratizar o poder. É transformar instituições que historicamente decidiram sobre nós em espaços nos quais decidimos junto com toda a sociedade. É defender os territórios, enfrentar a emergência climática, proteger a vida e construir um país em que ninguém precise deixar de ser quem é para participar da política.
A semente que plantamos cresceu. Agora precisamos cuidar para que ela floresça em mais mandatos, mais políticas públicas e mais direitos. Seguiremos "Aldeando a política" — porque o Brasil precisa ouvir seus povos originários e aprender com eles a construir o futuro.
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