O Brasil vive um ano eleitoral, e anos eleitorais têm uma característica própria: as promessas crescem na proporção inversa das cobranças. Candidatos falam em investir mais, construir escolas, valorizar professores. O discurso é generoso, mas nem sempre consistente.
Por isso a De Olho no Material Escolar decidiu fazer diferente: produzimos um questionário com uma série deperguntas estratégicas a candidatos à Presidência, governos estaduais, Senado e câmaras de deputados, que exigem projeto e comprometimento e transformam promessas em responsabilidade pública.
O Brasil já conhece seus problemas. O Censo Escolar 2025 registrou 46 milhões de estudantes na educação básica, com a maior queda de matrículas da série recente. O Pisa 2022 mostrou 73% dos estudantes abaixo do nível mínimo em Matemática, e o Saeb 2023 revelou que menos de 20% concluem o Ensino Médio com nível adequado em Português. São 8,4 milhões de analfabetos e 63,9 milhões que abandonaram a escola sem concluí-la, segundo a Rede EJA. O país não precisa de mais diagnósticos, precisa de decisões efetivas.
Esta eleição tem uma particularidade: o Brasil acaba de promulgar o novo Plano Nacional de Educação (PNE 2026-2036), que vai nortear as políticas do setor pela próxima década. Os eleitos em outubro precisarão dar vida a esse plano — ou deixá-lo morrer na gaveta, como aconteceu antes. Uma criança que ingressa hoje na escola concluirá a educação básica por volta de 2040; até lá, o Brasil elegerá até quatro presidentes.
A De Olho não aceita candidaturas que tratam a educação como promessa residual. Queremos saber como cada candidato pretende transformar o novo PNE em execução real, com metas monitoradas e gestores responsabilizados. Participamos da construção do plano, protocolamos mais de 900 emendas, e boa parte delas foi aprovada. A aprovação de metas é só o começo, o trabalho real começa agora.
Um dos maiores problemas da educação brasileira é a descontinuidade: mudam os governos, e boas iniciativas são descartadas por terem sido criadas pela gestão anterior. E quem paga são os estudantes. Defendemos que gestores eleitos assumam a educação como compromisso de Estado, não de campanha: metas do PNE acompanhadas publicamente, dados usados para decidir e alfabetização na idade certa como garantia.
Há um ator pouco presente nesse debate: o setor produtivo. O Brasil convive com um paradoxo: faltam profissionais qualificados, ainda que milhões de jovens concluam a educação básica sem as competências que o mercado exige. Segundo a CNI, entre 1988 e 2024 a produtividade do trabalho cresceu só 0,2% ao ano, alerta que o setor não pode ignorar. O caminho passa por engajamento estratégico, não filantropia esporádica.
Em outubro, o Brasil escolherá novos presidentes, governadores e parlamentares. Estaremos atentos ao resultado e aos compromissos assumidos antes das urnas. A baixa escolaridade custa ao país cerca de R$ 66 bilhões por ano em renda não gerada, segundo a Rede EJA. Falta a decisão de agir e nenhuma entrega é mais transformadora do que educação pública de qualidade.
O futuro do país está sendo decidido agora: nas urnas, nas salas de aula e nas decisões que gestores, candidatos e empresas tomarão nos próximos meses. Estamos de olho.
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