Durante muito tempo, uma imagem serviu como prova. Um áudio era entendido como registro de uma fala. Um vídeo parecia oferecer a confirmação definitiva de que determinada pessoa esteve em algum lugar, disse alguma coisa ou praticou determinado ato. A inteligência artificial está abalando essa certeza. E, em uma eleição disputada em grande medida nas telas dos celulares, essa mudança representa um dos maiores desafios para a democracia.
As deepfakes permitem reproduzir rostos, vozes e movimentos com um grau de realismo cada vez maior. O problema eleitoral não está apenas na possibilidade de fabricar uma mentira. Está na velocidade com que essa mentira pode circular e atingir milhões de pessoas antes que jornalistas, plataformas digitais, campanhas ou a própria Justiça Eleitoral consigam desmenti-la.
A quarta rodada da pesquisa nacional Indexa/Broadcast, divulgada em 26 de agosto, mostra um dado que merece atenção. Nada menos que 72% dos brasileiros se consideram capazes, em algum grau, de identificar quando uma foto, um áudio ou um vídeo de um candidato foi criado ou alterado por inteligência artificial. São 39% que se dizem totalmente capazes e 33% que se consideram mais capazes que incapazes.
Essa confiança, porém, varia significativamente conforme a idade. Entre os brasileiros de 35 a 44 anos, 81% acreditam ser capazes de reconhecer uma deepfake. O percentual é de 79% entre aqueles de 25 a 34 anos e de 77% entre os jovens de 16 a 24 anos. Depois cai para 69% entre os eleitores de 45 a 59 anos e chega a apenas 53% entre aqueles com 60 anos ou mais.
A escolaridade também faz diferença. Entre os brasileiros com ensino superior, 82% acreditam conseguir reconhecer conteúdos criados ou alterados por IA. Entre aqueles com ensino médio, são 69%, e entre os que estudaram até o ensino fundamental, 67%.
Esses números revelam uma desigualdade importante na percepção de preparo para enfrentar a nova desinformação. Mas apresentam também uma questão ainda mais delicada: considerar-se capaz de identificar uma deepfake não significa necessariamente ser capaz de identificá-la.
A tecnologia avança em ritmo extraordinário. Erros de sincronização entre voz e boca, movimentos artificiais, imagens pouco naturais e outras pistas que até recentemente denunciavam uma manipulação estão desaparecendo. O conteúdo falso de amanhã provavelmente será mais difícil de reconhecer do que o conteúdo falso de hoje.
E não estamos falando de uma ameaça futura. A inteligência artificial já entrou na campanha presidencial de 2026. Na convenção que oficializou a candidatura de Flávio Bolsonaro, em julho, foi exibido um vídeo produzido por IA que simulava imagem e voz de Jair Bolsonaro. O episódio acabou provocando uma discussão jurídica sobre os limites da utilização da tecnologia na campanha.
O Tribunal Superior Eleitoral estabeleceu regras específicas para este ano. Conteúdos produzidos ou significativamente modificados por inteligência artificial precisam ser identificados de maneira explícita, destacada e acessível. Deepfakes destinadas a favorecer ou prejudicar candidaturas são proibidas. A regulamentação também estabelece restrições adicionais nas 72 horas anteriores e nas 24 horas posteriores à votação.
A preocupação institucional mostra a dimensão do problema. Neste mês, o TSE anunciou acordos para combater tanto deepfakes de voz quanto conteúdos sintéticos que reproduzam indevidamente a imagem de candidatos. No Congresso, o assunto também está em debate. Há propostas para criminalizar a produção e a divulgação de deepfakes destinadas a interferir no processo eleitoral, e audiências públicas já discutiram as dificuldades técnicas das próprias plataformas para fiscalizar esse universo.
O crescimento desse tipo de conteúdo ajuda a entender a preocupação. Levantamento do Observatório Lupa apontou que deepfakes e outras peças de desinformação produzidas com inteligência artificial passaram de 39 casos identificados em 2024 para 159 em 2025, crescimento de 308%. A tendência é particularmente preocupante justamente porque 2026 é ano de eleição geral.
Há, entretanto, um dado alentador na pesquisa da Indexa. O eleitor estabelece limites muito claros para o uso político dessa tecnologia. Para 92% dos brasileiros, não deveria ser permitido que um candidato utilize deepfake envolvendo um adversário. Apenas 6% aceitam essa possibilidade. Mesmo quando a inteligência artificial é utilizada para favorecer a própria candidatura, 84% são contrários.
É uma rejeição quase consensual em uma sociedade profundamente dividida politicamente.
O problema é que a desinformação não precisa convencer todo mundo para produzir consequências. Em uma disputa apertada, basta alcançar determinados grupos, provocar dúvida, reforçar preconceitos ou espalhar uma acusação no momento certo. Uma deepfake lançada poucas horas antes da votação pode causar um dano que nenhum desmentido posterior conseguirá reparar integralmente.
Existe ainda um segundo risco, menos evidente. Quanto mais as pessoas souberem que imagens e vozes podem ser fabricadas, mais fácil será também negar fatos verdadeiros. Um candidato flagrado em uma situação comprometedora poderá simplesmente alegar que o vídeo é produto de inteligência artificial. A tecnologia, portanto, não ameaça apenas pela capacidade de transformar mentira em algo aparentemente verdadeiro. Ela também pode transformar a verdade em algo permanentemente questionável.
Esse talvez seja o desafio mais profundo que teremos pela frente.
A resposta não poderá vir apenas da Justiça Eleitoral. Precisará envolver plataformas digitais, imprensa, campanhas, instituições públicas e, principalmente, educação para o consumo de informação. O eleitor terá de incorporar um comportamento que se tornará cada vez mais necessário: desconfiar daquilo que recebe, verificar a origem, procurar outras fontes e resistir ao impulso de compartilhar imediatamente conteúdos que provocam indignação ou confirmam suas próprias convicções.
A pesquisa da Indexa mostra que os brasileiros estão conscientes de que existem limites éticos para o uso da inteligência artificial na política. Isso é importante. Mas os números também deixam um alerta. Em uma eleição na qual a inteligência artificial já está presente, nossa maior vulnerabilidade talvez seja acreditar que sempre conseguiremos distinguir sozinhos aquilo que é verdadeiro daquilo que foi fabricado.
Em 2026, preservar a liberdade de escolha do eleitor significará também preservar sua capacidade de saber em que informação pode confiar.
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