A mudança da ordem mundial em curso é um dos principais temas da atualidade. Está entre os assuntos debatidos pelos candidatos à Presidência da República do Brasil, ocupa as manchetes dos jornais e já chegou até mesmo às conversas de botequim. Isso acontece porque o cidadão comum percebeu, há muito tempo, que a política externa brasileira e as relações internacionais não são assuntos distantes de sua vida cotidiana. Uma decisão tomada em Washington, Pequim ou Buenos Aires pode afetar o preço dos alimentos, o custo dos combustíveis, o emprego em uma indústria, as exportações de um produtor rural ou a capacidade de uma empresa brasileira de vender seus produtos no exterior. O chamado "tarifaço" anunciado pelo presidente Donald Trump em 2025 foi um exemplo eloquente: uma decisão de política foi tomada nos Estados Unidos passou rapidamente a ser discutida no Brasil como uma questão de emprego, renda, produção e preços.
Mas o que significa, afinal, falar em "ordem mundial"? E por que a mudança dessa ordem pode produzir efeitos tão concretos sobre a vida de cada um de nós? Para responder a essas perguntas, é preciso compreender que uma ordem mundial não diz respeito apenas à distribuição do poder entre os países. Ela envolve também as regras, os valores, as instituições e os mecanismos de cooperação que, em determinado período histórico, procuram organizar a convivência entre Estados e sociedades.
Para o cientista político Amitav Acharya (2025), professor da American University, em Washington, a ordem mundial pode ser entendida como uma arquitetura política que permite algum grau de cooperação, estabilidade e paz entre as nações. Acharya mostra que a história da ordem mundial é muito mais antiga e diversa do que a narrativa centrada no Ocidente costuma sugerir. Ao percorrer cinco mil anos de história, ele identifica diferentes formas de organização política, econômica e social que existiram muito antes da ascensão do Ocidente e sustenta que a atual transição pode abrir espaço para uma ordem mais plural, na qual países não ocidentais e do sul global tenham maior voz e participação.
A ideia de ordem, portanto, é antiga. No Egito Antigo, por exemplo, os faraós legitimavam sua autoridade por meio da maat, conceito associado à ordem, à verdade, à justiça e à harmonia, apresentado como força capaz de conter o isfet, relacionado ao caos, à desordem e à violência. Ao longo dos séculos, diferentes civilizações construíram suas próprias concepções de ordem e diferentes formas de organizar a convivência entre os povos.
A ordem internacional que conhecemos hoje é resultado desse longo processo histórico e, em sua configuração contemporânea, foi profundamente marcada pela ascensão dos Estados Unidos, sobretudo a partir do final da Segunda Guerra Mundial, quando o país emergiu como a principal potência econômica, militar e política do Ocidente. É essa ordem, construída sob forte influência dos valores e das instituições ocidentais, que hoje passa por um processo de transformação, à medida que a China amplia seu poder econômico, político, tecnológico e militar e reivindica um papel cada vez mais relevante na definição das regras e instituições que organizarão o mundo nas próximas décadas.
Outro padrão recorrente aparece quando observamos como as potências justificam tanto a construção de uma nova ordem quanto a defesa daquela que já existe: tendem a apresentar sua expansão não apenas como resultado de uma relação de poder, mas como um projeto capaz de produzir estabilidade, prosperidade, segurança e justiça, inclusive para aqueles que passam a viver sob sua influência.
Quando essa ordem é desafiada, a mudança, por sua vez, costuma ser apresentada como uma ameaça, o que ajuda a compreender por que a ascensão de uma potência não ocidental como a China provoca, em alguns setores do Ocidente, não apenas uma disputa por poder e influência, mas também receios sobre o tipo de ordem que poderá emergir de sua ascensão.
Essa recorrência histórica nos leva a uma pergunta que não é meramente acadêmica: a mudança da ordem mundial que estamos testemunhando produzirá um mundo melhor ou pior?
A resposta dependerá, em grande medida, das escolhas que fizermos diante dos desafios que se apresentam. Para países como o Brasil, a transformação da ordem mundial impõe uma questão particularmente importante: como preservar nossos interesses e nossa capacidade de decisão em um ambiente internacional cada vez mais marcado pela competição entre grandes potências? A disputa entre Estados Unidos e China, a reorganização das cadeias produtivas, o acirramento das disputas comerciais e as crises e conflitos que se multiplicam em diferentes regiões do planeta apontam para uma ordem internacional mais instável e imprevisível.
Nesse cenário, preservar e fortalecer as relações com os países vizinhos ganha ainda mais importância. No caso da Argentina, cujo governo adotou um alinhamento estreito com o governo Trump e com setores da direita radical internacional, construir canais de diálogo capazes de sobreviver às ofensas dirigidas do presidente Lula não é apenas uma questão diplomática, mas de interesse nacional.
A história também nos ensina que momentos de crise podem ser oportunidades para ampliar o diálogo e criar canais de comunicação. Quando os mecanismos tradicionais da diplomacia enfrentam dificuldades, outros atores podem ajudar a preservar pontes que não deveriam ser destruídas. É nesse contexto que ganha importância a missão de parlamentares argentinos que chegará a Brasília em 31 de agosto de 2026. Pelo menos dez parlamentares da oposição argentina deverão participar da iniciativa, concebida justamente como uma forma de abrir um canal de diplomacia parlamentar em meio à crise entre os governos argentino e brasileiro.
A iniciativa pode ir além de uma visita circunstancial. Ela faz parte de uma proposta para que os Congressos dos dois países criem um mecanismo institucional permanente de diálogo parlamentar. A ideia é que esse mecanismo funcione não apenas como um canal alternativo a ser acionado quando os canais diplomáticos tradicionais falharem, mas como uma ponte permanente entre os representantes eleitos dos dois países. Afinal, se as relações entre Estados afetam diretamente a vida das pessoas, parece razoável que os representantes dessas mesmas pessoas também tenham um papel a desempenhar na construção e na preservação dessas relações.
Neste cenário que ganha relevância uma atividade ainda pouco conhecida do grande público, embora faça parte, há mais de um século, da atuação das Casas Legislativas de todo o mundo: a diplomacia parlamentar. Mais do que uma forma complementar de relacionamento entre países, a diplomacia parlamentar pode desempenhar um papel especialmente importante nos momentos de tensão, ajudando a preservar pontes, criar interlocutores e abrir caminhos para que uma relação bilateral não seja inteiramente capturada pelas divergências entre governos de ocasião.
Um exemplo recente, envolvendo o próprio Brasil, ajuda a compreender essa função. Em julho de 2025, diante do anúncio do governo de Donald Trump de uma tarifa de 50% sobre uma ampla parcela das exportações brasileiras, o Senado Federal enviou uma missão oficial a Washington. A comitiva, formada por oito senadores de diferentes partidos, esteve nos Estados Unidos entre 28 e 30 de julho daquele ano para conversar com parlamentares e empresários e buscar caminhos para reduzir ou adiar os efeitos da medida. Durante a missão, os senadores se reuniram com nove parlamentares americanos, de diferentes partidos, procurando demonstrar que as consequências da tarifa não atingiriam apenas o Brasil, mas poderiam também produzir prejuízos para os próprios Estados Unidos.
O episódio é particularmente interessante porque mostra com clareza o que a diplomacia parlamentar pode, e o que ela não pode, fazer. Os senadores brasileiros não foram aos Estados Unidos para substituir o Poder Executivo ou negociar em nome do governo brasileiro. Conforme explicou o presidente da Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional do Senado, senador Nelsinho Trad, que receberá a delegação argentina que chega na semana que vem, a missão tinha como objetivo abrir canais, distensionar a relação e criar condições para que novas tratativas pudessem ocorrer.
É justamente essa complementaridade que distingue a diplomacia parlamentar da diplomacia de Estado. Enquanto esta é conduzida pelos governos e, no caso brasileiro, pelo Itamaraty e pelos diplomatas de carreira, a diplomacia parlamentar acrescenta outros interlocutores ao relacionamento entre os países. Parlamentares podem conversar com seus pares de maneira mais política e, muitas vezes, mais flexível; podem construir relações que permanecem mesmo quando governos mudam; podem transmitir diretamente aos seus interlocutores estrangeiros as preocupações de setores de suas sociedades; e podem ajudar a manter abertas portas que, em determinados momentos, parecem prestes a se fechar. Por isso, mais do que uma forma complementar de política externa, a diplomacia parlamentar pode ser entendida como uma espécie de rede de segurança das relações internacionais.
Brasil e Argentina não escolheram a geografia que os colocou lado a lado. Também não podem simplesmente apagar os vínculos econômicos, sociais, culturais e históricos construídos ao longo de décadas. Governos passam, presidentes mudam, partidos chegam ao poder e deixam o poder e as mudanças na ordem mundial seguirão seu curso. Os interesses permanentes dos países, porém, permanecem.
Neste contexto de mudanças, o que está ao nosso alcance é decidir se seremos apenas espectadores dessa transformação ou se teremos capacidade de participar de sua construção. Para isso, precisaremos de mais diálogo, não menos; de mais instituições, não menos; de mais pontes, não mais muros. Que os parlamentes argentinos sejam muito bem-vindos ao Brasil!
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