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Entre EUA e China, o Brasil precisa preservar sua autonomia

Disputa entre as duas potências aumenta a pressão sobre o país, que precisa preservar autonomia e negociar com ambos de acordo com seus próprios interesses.

28/8/2026
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A nova rodada de tarifas impostas pelos Estados Unidos a produtos brasileiros colocou em evidência um movimento maior da política internacional. Em 21 de agosto, Lula e Donald Trump conversaram por telefone e concordaram em retomar as negociações. O diálogo é importante, mas o episódio mostra que comércio e política externa estão cada vez mais misturados em uma disputa por influência.

Isso acontece porque os Estados Unidos estão redefinindo suas prioridades. Durante quase duas décadas, depois do fim da União Soviética, o país exerceu uma hegemonia praticamente incontestável. Esse período, no entanto, foi uma exceção histórica. O que vemos agora não é bem um colapso americano, mas o retorno de um mundo com múltiplas potências, cada uma tentando consolidar sua própria esfera de influência.

Na América Latina, essa mudança significa uma presença mais direta de Washington. Isso pode abrir espaço para investimentos e novos acordos, mas também aumenta a pressão sobre os países da região. Tarifas, restrições econômicas e outras medidas passam a ser usadas como instrumentos para aproximar governos dos interesses americanos.

Para o Brasil, a situação é especialmente delicada. Os Estados Unidos continuam sendo parceiros fundamentais, mas a China já ocupa uma posição central no nosso comércio. Em julho, os chineses compraram US$10,67 bilhões em produtos brasileiros, enquanto as exportações para os americanos somaram US$3,64 bilhões. Romper com um lado para aderir ao outro teria um custo econômico e diplomático muito alto.

Tarifas americanas evidenciam um cenário de maior competição entre potências e exigem do Brasil equilíbrio para proteger relações econômicas estratégicas.Magnific

A comparação com a Guerra Fria, por isso, tem limites. Hoje, as economias estão muito mais integradas e um mesmo país pode manter relações relevantes com potências rivais. O Brasil já faz isso. Dialoga com Washington, depende comercialmente de Pequim e, ao mesmo tempo, tenta preservar espaço para tomar suas próprias decisões.

Essa autonomia não significa neutralidade automática. Significa analisar cada negociação de acordo com o interesse brasileiro, sem transformar uma parceria em relação de dependência. É uma linha tênue, porque Estados Unidos e China tendem a cobrar posicionamentos mais claros à medida que a disputa se intensifica.

O Brasil, porém, tem condições de navegar nesse cenário. Temos um grande mercado consumidor, commodities estratégicas, peso político regional e uma posição geográfica privilegiada. Esses ativos interessam aos dois polos e podem ampliar nossa capacidade de negociação.

Para aproveitar essa oportunidade, o país precisa de instituições sólidas e de uma política externa previsível. O desafio não é escolher entre Estados Unidos e China, mas saber negociar com ambos sem pagar um preço diplomático proibitivo e sem abrir mão da própria autonomia.


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