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Autoestima política: por que tanta gente desiste de discutir o país em que vive

Polarização, medo da divergência e insegurança diante da desinformação afastam brasileiros do debate justamente quando o país volta às urnas.

28/8/2026
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Você já esteve numa roda de amigos, numa mesa de jantar de família ou num grupo de WhatsApp e sentiu aquele nó na garganta quando o assunto virou política? A vontade de falar algo, mas a insegurança de não saber exatamente como se posicionar, ou o medo de que sua opinião contrarie a de todo mundo ali? Isso tem nome, e vale a pena entendê-lo com mais precisão: autoestima política.

O conceito é simples de descrever e difícil de admitir. Discutimos com desenvoltura aquilo que conhecemos e no que acreditamos. Quando o tema foge do nosso domínio, quando não sabemos como nos posicionar ou quando o que está em jogo contraria nossas convicções, a tendência não é buscar entender — é recuar. Silenciar. Sair do grupo, mudar de assunto, fechar o aplicativo. E quanto mais isso se repete, menos preparados ficamos para a próxima conversa difícil. A autoestima política, como qualquer outra, se fortalece com exercício e se corrói com a fuga.

Os números mostram que esse recuo deixou de ser exceção e virou regra. Um levantamento do Instituto Locomotiva em parceria com o projeto Despolarize e a Fundação Tide Setubal encontrou que 79% dos brasileiros consideram a sociedade extremamente dividida, e mais da metade (51%) já desistiu de falar sobre política em algum momento, por acreditar — como 73% dos entrevistados acredita — que o diálogo com quem pensa diferente simplesmente não é mais possível. O dado mais revelador do estudo é justamente esse: a polarização que sentimos como ambiente não vem de todo mundo gritando. Apenas 31% da população se identifica fortemente com um lado. A maioria é uma plateia silenciada, que preferiu sair da sala.

A pesquisa "O que esperar do Brasil?", da Quaest, dá contorno a esse silêncio. Mais da metade (54%) afirma conhecer alguém que rompeu uma relação por causa de política, e um a cada quatro diz se sentir mal por isso — sinal de que o afastamento não é indiferença. Mais de um terço (35%) admite preferir um canal de TV que só reforce o que já pensa. Quase um em cada três (32%) reprovaria o casamento de um filho com alguém que votou diferente. São escolhas que blindam a vida contra a divergência — e uma vida blindada contra a divergência é uma vida que já decidiu, antes mesmo do debate começar, que não vale a pena se expor.

Polarização, medo da divergência e insegurança diante da desinformação afastam brasileiros do debate justamente quando o país volta às urnas.Magnific

Esse cenário já seria preocupante sozinho, entrando em um ano eleitoral. Mas há uma camada nova que o agrava: a inteligência artificial. Uma pesquisa do Projeto Brief mostrou que a maioria dos brasileiros topa consultar ferramentas de IA para ajudar a decidir o voto, mas menos da metade consegue identificar corretamente quando um vídeo foi gerado artificialmente — entre pessoas acima de 60 anos, a taxa de acerto cai para pouco mais de um em cada cinco. Quando a dúvida sobre o que é real se soma à insegurança de não saber se posicionar, o caminho de menor resistência é o mesmo de sempre: confiar em quem já concorda com você, porque pelo menos ali não há o risco de errar em público.

É essa combinação — insegurança pessoal, isolamento social e informação cada vez mais difícil de verificar — que corrói o debate público antes mesmo de ele começar. deias novas só circulam quando alguém se dispõe a defendê-las diante de quem discorda, e cada vez menos gente está disposta a isso. A democracia não se sustenta só com gente convicta gritando os mesmos argumentos para a própria torcida. Ela precisa de gente insegura, mas disposta a aprender em público — e é justamente esse tipo de coragem que estamos deixando morrer.

Cuidar da própria autoestima política é se permitir errar, perguntar, mudar de ideia sem que isso vire motivo de vergonha ou de corte de relação. É, sobretudo, resistir ao conforto de só falar com quem já concorda com a gente. Num ano em que o Brasil volta às urnas, essa pode ser a pauta mais urgente de todas: recuperar a confiança de que não apenas dá, como é urgente, sermos capazes de discutir política.


O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para redacao@congressoemfoco.com.br.

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