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O voto que realmente importa

Congresso ganhou protagonismo sobre leis, Orçamento e agenda política, mas eleitores ainda lembram muito menos dos votos para deputados e senadores.

31/8/2026
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Em outubro, o eleitor fará seis escolhas. As quatro primeiras serão para o Legislativo: deputado federal, estadual ou distrital e dois senadores. Depois virão governador e presidente. A ordem da urna traz uma ironia: os nomes digitados primeiro são os primeiros a serem esquecidos.

Segundo o Datafolha, 67% não lembram o voto para deputado federal em 2022 e 66% não recordam o voto para senador ou deputado estadual. Para presidente, são 7%. O país lembra a escolha que domina a campanha e apaga aquelas que definem como o governo poderá governar.

A Presidência importa, mas o Congresso importa muito mais do que o eleitor aprendeu a reconhecer.

Quem vive Brasília já viu a Esplanada ter outra dinâmica de poder. A agenda nascia no Planalto e chegava ao Congresso para ser chancelada. Reformas institucionais e a prática política construíram um Parlamento mais autônomo, dono da agenda e decisivo no Orçamento.

Os números mostram a mudança. Em 2008, pela primeira vez desde 1988, a produção de leis não orçamentárias de origem parlamentar superou a presidencial. Em 2024, 83% das leis promulgadas tiveram início no Congresso. No mesmo ano, o Senado aprovou apenas 11 medidas provisórias; 54 perderam eficácia sem votação.

A transformação chegou ao Orçamento. As emendas ganharam peso e mudaram a destinação de recursos. Há problemas de transparência e controle. Mas há uma virtude nessa descentralização: quem representa a população participa da definição de onde o dinheiro deve chegar.

Por isso, os quatro votos para o Legislativo exigem atenção inédita. Em 2026, serão eleitos 513 deputados federais, por quatro anos, e 54 dos 81 senadores, por oito. Eles legislam, fiscalizam e aprovam o Orçamento. O Senado confirma autoridades, inclusive ministros do STF. Juntos, delimitam as possibilidades do próximo governo.

O voto para deputado não escolhe apenas uma pessoa. No sistema proporcional, ajuda a definir o tamanho do partido ou da federação. Analisar o candidato sem olhar sua legenda é conhecer apenas metade do mandato.

A legislação eleitoral exige propostas dos candidatos ao Executivo, mas não de quem disputa o Legislativo. Não seria hora de a Justiça Eleitoral oferecer uma forma simples e comparável de conhecer suas prioridades?

Fortalecimento do Congresso exige mais atenção à escolha de deputados e senadores, responsáveis por legislar, fiscalizar e definir os limites do próximo governo.Charles Sholl/Brazil Photo Press/Folhapress

Também convém atualizar o conceito de "renovação". Trocar o parlamentar pelo parente ou pelo herdeiro político é uma forma bastante criativa de renovar: muda-se o nome na urna e preserva-se cuidadosamente o patrimônio político.

No outro extremo, surgiu outra ideia igualmente curiosa: a de que nunca ter feito política seria, por si só, uma qualificação para fazê-la bem. É como escolher um piloto pela vantagem de nunca ter voado; afinal, ele não adquiriu os vícios da aviação.

Experiência, evidentemente, não se mede apenas por diploma, mandato ou currículo. Um líder comunitário pode conhecer políticas públicas muito melhor do que uma celebridade recém-convertida em candidato ou um empresário que descobriu uma vocação pública às vésperas da eleição. O que importa é saber ouvir, estudar, negociar, fiscalizar, construir maioria e prestar contas. O oposto da velha política não é a política amadora. É a política responsável.

Esse amadurecimento também aparece na relação entre sociedade e Parlamento. Nas últimas legislaturas, as frentes parlamentares se consolidaram como espaços que aproximam o Congresso dos setores produtivos e da sociedade civil. Ajudam a transformar demandas dispersas em agendas e propostas. Mas essa ponte só produz resultado quando há parlamentares capazes de ouvir, traduzir interesses legítimos em políticas públicas e construir maioria.

A eleição presidencial continuará recebendo mais tempo e emoção. É natural. Mas o presidente eleito governará com os 513 deputados e os 54 senadores escolhidos no mesmo dia.

Fortalecer o Congresso foi amadurecer a democracia. Agora, é preciso amadurecer o voto na mesma proporção.

Em 2026, os quatro primeiros votos da urna precisam ser também os primeiros em importância. O voto que mais determina como o Brasil poderá ser governado é o voto no Legislativo.


O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para redacao@congressoemfoco.com.br.

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