Negar o feminicídio e transformar a misoginia em conteúdo viral é uma forma de degradar o debate público e banalizar vidas. O Brasil registrou 848 vítimas de feminicídio entre janeiro e julho de 2026. Em 2025, o país contabilizou cerca de 1.470 feminicídios. Cada número corresponde a uma vida interrompida, a filhos e filhas que ficaram sem suas mães e a famílias inteiras submetidas a uma dor que nenhuma estatística consegue dimensionar.
Esses dados são oficiais. Foram consolidados pela Secretaria Nacional de Segurança Pública a partir do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp). Também é objetiva a definição legal: desde a Lei nº 14.994/2024, o feminicídio é crime autônomo, previsto no art. 121-A do Código Penal, e ocorre quando uma mulher é morta em contexto de violência doméstica e familiar ou por menosprezo ou discriminação à condição de mulher. Diante disso, negar a existência do feminicídio é recusar os fatos, a lei e a experiência concreta de milhares de brasileiras.
Quando esse negacionismo parte de quem disputa um mandato público eletivo, a gravidade se amplia. Candidaturas não podem transformar a dor das mulheres em matéria-prima para obter visibilidade. O debate eleitoral não pode normalizar a divulgação de fatos sabidamente inverídicos como atalho para conquistar audiência.
Essa lógica tem nome: rage bait, ou conteúdo-isca de indignação. Produz-se uma fala absurda ou ofensiva justamente para provocar raiva, reação e compartilhamento. Os apoiadores difundem a mensagem; os críticos, ao tentar desmenti-la, também ampliam o seu alcance. O algoritmo não distingue indignação de adesão: ele contabiliza interações. A polêmica deixa de ser um efeito colateral e passa a ser o próprio método de campanha.
No caso da violência contra as mulheres, esse método encontra terreno fértil na chamada "machosfera", um ecossistema digital formado por perfis, fóruns e influenciadores que convertem frustrações e ressentimentos em hostilidade às mulheres e aos seus direitos. Ao minimizar o feminicídio, agentes políticos legitimam um ambiente social em que a misoginia se torna linguagem de pertencimento e a violência passa a ser tratada como exagero, invenção ou espetáculo.
Defender a integridade do debate público não é censurar divergências. É impedir que a desinformação e a misoginia capturem o processo eleitoral, modificando a verdade e alterando o entendimento dos cidadãos.
Assim, a leviana estratégia de negar o feminicídio e transformar a misoginia em conteúdo viral na tentativa de atingir a integridade do processo eleitoral, manipulando a opinião pública com fato sabidamente inverídico, é uma atitude danosa para toda a sociedade.
Por isso, cabe ao Ministério Público Eleitoral e à Justiça Eleitoral agir com rapidez sempre que manifestações ultrapassarem a esfera da opinião e ingressarem no campo da ilicitude. E cabe à sociedade compreender que nem toda polêmica merece engajamento. Algumas exigem denúncia, responsabilização e recusa.
A memória das vítimas de feminicídio não pode servir de cenário para vídeos virais. A vida das mulheres não é instrumento de campanha. E atacar direitos fundamentais para conquistar alguns minutos de atenção não é coragem nem autenticidade: é a confissão pública de que, onde deveriam existir propostas, há apenas oportunismo.
Democracia exige vigilância cívica constante. Que os demagogos da nossa geração encontrem em nós a barreira necessária para cercear a sua postura antidemocrática.
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