A ordem internacional construída após a Segunda Guerra Mundial está sendo desmontada, e não por esgotamento natural ou acidente de percurso. O desmonte tem agentes, método e propósito. Um documento recente ajuda a dimensionar o problema, ainda que não chegue a nomeá-lo. A Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL) apresentou em 4 de agosto de 2026, em Santiago, o relatório Rupturas e oportunidades: propostas para que a América Latina e o Caribe prosperem na nova era geopolítica, elaborado por uma comissão internacional de especialistas. Sua mensagem central é direta. O mundo mudou e a região dispõe de ativos estratégicos para prosperar no novo cenário, desde que fortaleça suas instituições, a cooperação regional e a capacidade de ação internacional.
Para dimensionar a profundidade dessa transformação, o documento da CEPAL identifica oito rupturas globais simultâneas, mudanças estruturais que, em conjunto, redesenham o ambiente em que todos os países terão de atuar nas próximas décadas. Quatro delas têm caráter sistêmico e dizem respeito à estrutura do poder mundial. Envolvem a transformação da interdependência econômica em instrumento de coerção, a erosão do multilateralismo, o fim da hegemonia americana e a redistribuição da influência entre as potências. As outras quatro atingem diretamente a vida das sociedades. São o retrocesso democrático acompanhado da polarização política, a desinformação amplificada pela inteligência artificial, o abandono do consenso científico sobre o clima e o retrocesso nos direitos das mulheres e na inclusão. Não são fenômenos paralelos. São oito faces de um mesmo processo, a decomposição de uma ordem internacional que, com regras acordadas em amplos setores como o comércio, a saúde, o meio ambiente, a aviação civil, as telecomunicações, a propriedade intelectual e o uso da energia nuclear, tornou a convivência entre as nações mais previsível e mais harmônica.
Apesar da qualidade do diagnóstico, há uma ausência central no relatório. O documento descreve a desordem com precisão e projeta cenários possíveis para o futuro, mas não explica por que a ordem internacional está sendo desmontada nem identifica quem a desmonta. Em outras palavras, apresenta um levantamento completo dos sintomas sem apontar a causa da doença. Transições de poder anteriores, como a que se seguiu à Segunda Guerra Mundial, produziram novas regras e novas instituições. A atual produz apenas instabilidade. A diferença tem explicação, e ela não está na economia nem na tecnologia. Rupturas dessa escala não acontecem por inércia, resultam de decisões tomadas por governos identificáveis, que escolheram abandonar acordos, esvaziar organismos internacionais e empregar a pressão econômica e militar fora de qualquer regra. É essa dimensão, a das escolhas políticas e de seus autores, que falta ao relatório.
Os autores dessas escolhas têm identidade política definida, e as razões da falência situam-se na ascensão da extrema-direita internacional, catalisada pela chegada de Donald Trump ao poder com a doutrina Make America Great Again (MAGA) e replicada, com variações locais, em diversos países. O que essa corrente promove não é uma disputa por vantagens dentro do sistema internacional, movimento que qualquer potência realiza. É um projeto deliberado de demolição das instituições que sustentam esse sistema. A multipolaridade não se consolida como ordem porque os Estados Unidos, país mais poderoso do mundo e antigo fiador dessas instituições, são hoje governados por um movimento que trabalha ativamente contra qualquer ordem baseada em regras.
O arco ideológico desse movimento ultrapassa em muito o nacionalismo clássico. Os nacionalismos do século XX buscavam vantagens para seus países, fossem territórios, tarifas mais favoráveis ou prestígio, mas o faziam dentro de um jogo cujas regras não questionavam. O fenômeno atual ataca as próprias regras do jogo e as instituições encarregadas de aplicá-las. A demonstração mais contundente veio em 7 de janeiro de 2026, quando Trump assinou um memorando presidencial determinando a retirada dos Estados Unidos de 66 organizações internacionais, das quais 31 vinculadas à ONU, sob a justificativa de que operam contra os interesses nacionais e a soberania americana A lista inclui a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, tratado que sustenta o Acordo de Paris, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), principal órgão científico de avaliação do aquecimento global, e a ONU Mulheres. A medida consolidou um processo iniciado em 2025 com a saída da Organização Mundial da Saúde, do Acordo de Paris, do Conselho de Direitos Humanos da ONU e da Unesco, instituição mundialmente reconhecida pela preservação do Patrimônio Mundial da Humanidade. A escolha dos alvos é reveladora. O negacionismo climático e o retrocesso nos direitos das mulheres deixaram de ser bandeiras de campanha e se tornaram política de Estado.
Na América Latina, essa postura assume contornos próprios. A consultoria Eurasia Group, em seu relatório de riscos globais de 2026, descreveu a política externa americana como uma reinterpretação ampliada da Doutrina Monroe, que combina pressão militar, coerção econômica e alianças seletivas para afirmar primazia sobre as Américas. O caso venezuelano demonstra como esses três instrumentos operam de forma combinada. Em janeiro de 2026, forças americanas capturaram o presidente Nicolás Maduro sob acusação de narcoterrorismo. Em 28 de agosto, a lógica da operação ficou explícita. Trump anunciou o que chamou de o maior acordo de petróleo da história mundial, pelo qual os Estados Unidos assumem o controle do desenvolvimento de 65 bilhões de barris das reservas venezuelanas, distribuídos em 17 campos estratégicos, anúncio confirmado pelo governo interino instalado em Caracas. A sequência é eloquente. Primeiro a captura do presidente, depois a troca de governo, por fim a entrega do petróleo. Não se trata de exagero chamar esse processo de recolonização.
Há ainda um paradoxo que denuncia a natureza do fenômeno. Um movimento que se proclama nacionalista coordena-se transnacionalmente com desenvoltura. A eleição de José Antonio Kast no Chile e o alinhamento do argentino Javier Milei com Washington compõem uma internacional reacionária que compartilha agenda, métodos e redes de financiamento, enquanto nega legitimidade às instituições que regulam a convivência entre as nações. O preço dessa opção já é mensurável. Pesquisa do Pew Research Center divulgada em julho de 2026 registrou que, na maioria dos países pesquisados, a China passou a ser vista mais favoravelmente que os Estados Unidos, inversão inédita em quase duas décadas de medições do instituto. O dado indica a perda daquilo que os estudiosos das relações internacionais chamam de Sof Power (poder brando), a capacidade de um país influenciar os demais pela atração de seus valores, de sua cultura e de seu exemplo, sem recorrer à força ou à pressão econômica.
Para a América Latina, a consequência é séria. A principal proposta do relatório da CEPAL é o chamado não alinhamento ativo. Em termos simples, significa não aderir automaticamente a nenhuma das potências em disputa, negociando com todas a partir dos interesses da própria região. A estratégia é sensata, mas pressupõe duas condições que hoje não existem. A primeira é um mínimo de regras compartilhadas entre os polos, exatamente o que o projeto trumpista destrói. A segunda é a capacidade da região de agir como bloco. A América Latina concentra parcela decisiva das reservas mundiais de lítio, cobre e terras raras, insumos essenciais da transição energética e da inteligência artificial, mas cada país negocia esses recursos por conta própria, sem estratégia comum. O comércio entre os próprios países latino-americanos representa apenas 14% de suas exportações, um dos índices mais baixos do mundo. Na prática, essa desarticulação significa que as potências podem pressionar cada governo isoladamente, oferecendo vantagens a uns e impondo punições a outros, sem que a região reúna peso para negociar em conjunto condições melhores. Recursos que poderiam fortalecer a América Latina numa negociação coletiva acabam transformando cada país, sozinho, em objeto facilmente assimilável em ações neocolonialistas.
O Brasil oferece a demonstração mais acabada dessa engrenagem. O tarifaço imposto por Washington em 2025, que elevou a até 50% as tarifas sobre produtos brasileiros, não teve justificativa comercial. Foi anunciado como retaliação ao julgamento de Jair Bolsonaro pela tentativa de golpe de Estado, após articulação da extrema-direita brasileira conduzida abertamente nos Estados Unidos. O episódio expõe o traço mais revelador dessa internacional. Setores políticos nacionais convocam a pressão de uma potência estrangeira contra as instituições de seu próprio país, invertendo na prática o nacionalismo que proclamam em discurso. À pressão política somou-se, poucos meses depois, o avanço sobre recursos estratégicos. Em agosto de 2026, o Departamento de Defesa dos Estados Unidos aportou 750 milhões de dólares, metade do valor total da operação, para que a empresa americana USA Rare Earth adquirisse a Serra Verde, única produtora comercial de terras raras do país, que opera em Minaçu, no norte de Goiás, o único depósito de argila iônica em escala comercial fora da Ásia. São os minerais empregados nos ímãs de alta performance de jatos, drones e mísseis, e a jazida responderá por parcela decisiva da oferta mundial de terras raras pesadas nos próximos anos. A operação foi concluída na mesma semana do acordo petrolífero venezuelano, com o mesmo padrão: o aparato militar americano financiando a transferência de recursos estratégicos latino-americanos para o controle de empresas dos Estados Unidos.
O mérito do relatório da CEPAL está em identificar as rupturas e em defender maior integração regional. Sua limitação está em não nomear o responsável pela desordem que descreve. O que está em curso não é a construção de uma nova ordem mundial, é um projeto de poder que destrói a ordem existente sem oferecer alternativa alguma em seu lugar. Diante disso, defender as instituições multilaterais e acelerar a integração regional deixou de ser preferência diplomática. Tornou-se condição de sobrevivência política, pois enfrentar uma articulação internacional desse porte exige uma contrapartida à altura, capaz de apresentar propostas claras para retomar a construção de uma ordem internacional mais justa e comprometida com uma paz duradoura.
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