Quem acompanha as sabatinas com presidenciáveis desta campanha com a memória de 2018 percebe que alguma coisa mudou. Dois ciclos atrás, esses encontros funcionavam como teste de temperamento e posicionamento moral. A declaração escandalosa rendia mais do que desenho de política pública, e o candidato ausente ainda conseguia dominar a conversa nacional a partir do sofá de um programa de auditório. Agora, o custo do despreparo está mais exposto.
A entrevista pergunta de onde sai o dinheiro, qual instrumento viabiliza a proposta, quem executa e como se mede o resultado. Quando o candidato responde com uma generalidade, o jornalista insiste. É um jornalismo menos disposto a aceitar retórica de valores como se fosse proposta.
Lula circula com facilidade nesse ambiente porque tergiversa contando histórias. Recupera números do próprio governo e remenda a pergunta com uma memória de gestão que soa concreta mesmo sem responder, com a experiência de quem passou décadas sendo entrevistado. Mas a experiência não salva sempre. Caiado opera como se ainda estivesse num Brasil sem smartphone, em que bastava usar uma voz firme para que a afirmação valesse. Irrita-se quando o jornalista insiste e produz sozinho cortes que circulam contra ele. Parece um mal-entendido de época.
Entre os menos habituados aos holofotes, o amadorismo fica mais evidente. Zema elogia a violência antidemocrática de Bukele, mas não descreve as políticas que defende, não estima custos nem explica como elas caberiam na Constituição. Renan Santos leva à bancada o repertório digital, em que a réplica veloz e o deboche são moeda corrente. O tom juvenil pode até parecer, para alguns, carisma num corte de trinta segundos, mas escancara arrogância quando o entrevistador não ri e retoma a pergunta.
Augusto Cury impede que essa história seja contada como uma vitória limpa do formato. Propõe semipresidencialismo como quem receita mudança de rotina, fala em terapia coletiva para as estruturas de poder e resume o programa num lema sobre mente capitalista e coração social, sem apresentar um instrumento de governo. Ainda assim, cresceu nas primeiras pesquisas. Cury responde sobre custeio falando da dor do brasileiro, com a pausa, o vocabulário e o olhar de quem atende em consultório. É o lembrete de que a bancada mais rigorosa continua vulnerável ao timbre de quem parece confiável. A pergunta difícil pode revelar a ausência de resposta, mas nenhum formato garante que ela seja percebida como tal.
Essa mudança também responde à perda do monopólio da informação pela imprensa tradicional. Quando qualquer pessoa com celular e audiência disputa atenção, o diferencial do jornalismo profissional está na capacidade de perguntar o que ninguém mais pergunta. O constrangimento espontâneo de políticos poderosos também é espetáculo, e um bem raro nas redes controladas pelos candidatos.
A TV aberta ainda é uma força. Uma sabatina densa alcança mais gente do que uma live sem contraditório e produz um registro público de que um candidato não sabe explicar a própria proposta. O caso Cury mostra que produzir esse registro não garante sua leitura correta. Ainda assim, vale reconhecer o que está funcionando. Um jornalismo que cobra detalhamento cria demanda por propostas bem desenhadas e oferece ao eleitor um critério que o algoritmo ainda não entrega. A eleição depende de fatores fora do controle de qualquer redação, mas conhecer o próprio plano de governo voltou a ser uma vantagem competitiva. Isso deveria interessar a quem leva a democracia a sério.
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