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O que há disponível quando uma criança desliga a tela?

Quando uma criança desliga a tela, deveria existir um mundo de possibilidades esperando por ela.

11/9/2026
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Na atualidade, a sociedade tem levantado inúmeras discussões sobre o uso de telas na infância e sobre os possíveis prejuízos que o uso prolongado, sem monitoramento adequado, pode trazer às crianças. Diante da necessidade de um trabalho efetivo relacionado ao tema, surgem dúvidas sobre como utilizar essas ferramentas de maneira qualitativa e, principalmente, sobre como estabelecer limites que respeitem as necessidades da infância.

Em 2019, a Organização Mundial da Saúde (OMS) lançou a publicação 'Diretrizes sobre Atividade Física, Comportamento Sedentário e Sono para Crianças Menores de 5 anos". Entre as recomendações estão as diretrizes limitando o tempo sedentário de tela: zero exposição para menores de 2 anos e, no máximo, uma hora diária para crianças de 2 a 4 anos. Somam-se também as horas diárias de sono (de 10 a 13 horas) e de atividade física (ao menos 180 minutos).

A orientação da OMS, entretanto, não se resume a retirar a criança da frente da tela. Ela pressupõe uma reorganização do cotidiano infantil, com mais movimento, brincadeira, interação, descanso e experiências que contribuam para o desenvolvimento integral.

Mas, diante de tais recomendações, surge uma dúvida: De quais infâncias estamos falando? Será que todas elas cabem nessas recomendações?

Vivemos em uma metrópole marcada por profundas desigualdades sociais e territoriais. Em muitos distritos periféricos, as populações são afetadas, entre outras questões, pelo racismo ambiental e estrutural. Assim, quando falamos em reduzir o tempo de tela, precisamos também perguntar: quais experiências estão disponíveis para essa criança quando a tela é desligada?

Reduzir a tela não significa simplesmente retirar uma atividade da rotina da criança.Magnific

A pesquisa "O Teto e a Tela: conversas sobre cuidado, tecnologia e famílias periféricas", realizada pelo Observatório das Mulheres Periféricas (OMPerifa) e o Nós, mulheres da periferia, em parceria com o Instituto Salve Quebrada ouviu 15 mães e cuidadoras dos distritos Jabaquara, Jardim Ângela, Pedreira e Cidade Ademar, na zona sul de São Paulo, além do município de Diadema. O estudo revela que as crianças utilizam a internet diariamente, sobretudo para vídeos e jogos, em contextos onde faltam praças seguras, centros culturais e equipamentos públicos de lazer. A tela do celular aparece como substituta do espaço público ausente, funcionando como janela para entretenimento, informação e até cuidado.

Afinal, reduzir a tela não significa simplesmente retirar uma atividade da rotina da criança. É preciso que existam outras experiências possíveis para ocupar esse tempo. Por isso, a redução do uso excessivo de telas em territórios periféricos precisa ser pensada também como uma questão de políticas públicas, acesso e garantia de direitos. Não é possível falar sobre redução de telas sem considerar se as famílias possuem condições concretas para realizar essa redução.

Há ainda outra dimensão que precisa ser considerada: as condições em que mães, pais e outros responsáveis exercem o cuidado.

Uma revisão sistemática e meta-análise publicada pela BMJ Public Health em 2026, envolvendo mais de 32 mil participantes e 17 países, encontrou associação entre estresse parental e uso de dispositivos móveis por crianças pequenas. Os autores defendem que estratégias de redução do uso precisam considerar também o estresse dos responsáveis e oferecer suporte às famílias.

Esse dado é importante porque nos ajuda a deslocar o olhar da culpabilização. Não se trata de afirmar que o estresse parental "causa" o uso de telas, mas de reconhecer que as condições emocionais, familiares e sociais fazem parte desse fenômeno.

Como exigir que uma família simplesmente desligue a tela se não discutimos as condições em que essa família cuida, trabalha, se desloca, descansa e educa? E quando falamos de periferias, essa discussão precisa incorporar também a dimensão racial.

As desigualdades sociais e territoriais brasileiras não são racialmente neutras. O racismo estrutural participa historicamente da distribuição desigual de renda, moradia, saneamento, equipamentos públicos, acesso à cultura, lazer e outros direitos. Por isso, discutir as condições de vida das crianças negras nos territórios periféricos também significa discutir as estruturas que produzem e mantêm essas desigualdades.

O UNICEF, por exemplo, aponta que, em 2023, 63,6% das crianças e adolescentes negros do país viviam em contextos de desigualdade social, dado que avalia, além da questão de renda, o acesso à fatores como saúde, educação, saneamento básico e moradia digna, enquanto entre crianças e adolescentes brancos esse percentual era de 45,2%. Esses dados não dizem que crianças negras utilizam mais telas, mas evidenciam que as condições de vida são profundamente desiguais e racializadas.

É nesse ponto que a discussão sobre telas precisa ganhar outra dimensão. Quando uma criança desliga a tela, deveria existir um mundo de possibilidades esperando por ela.

E garantir que esse mundo exista não é responsabilidade apenas das famílias. É também uma questão de território, políticas públicas, equidade, enfrentamento ao racismo e garantia do direito de toda criança a viver plenamente sua infância.


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