Novamente, as candidaturas apresentadas em julho deste ano, em Deli, na Índia, à lista representativa do patrimônio cultural imaterial da Unesco, trouxeram para o centro do debate uma questão interessante: como reconhecer culturas que não pertencem exclusivamente a um território, mas que foram construídas, transformadas e transmitidas por comunidades que atravessam fronteiras?
No ciclo de 2026, diversas das candidaturas ao patrimônio cultural imaterial da Unesco que solicitaram avaliação são multinacionais, como o caso do patrimônio alimentar alpino apresentado pela Itália, Áustria, Suíça, França e Eslovênia. A escolha chama atenção não apenas pela valorização da cultura alimentar, mas porque os Alpes constituem um espaço cultural que ultrapassa as fronteiras de diversos Estados.
Saberes, técnicas, práticas de produção e formas de alimentação foram construídos ao longo dos séculos por comunidades que hoje vivem em diferentes países, mas compartilharam historicamente o mesmo espaço natural e ecológico. A montanha continua onde sempre esteve. As fronteiras não, elas mudam, avançam e recuam. Isto é, são resultados de construções políticas.
Tal perspectiva vem ganhando cada vez mais espaço no sistema da Unesco. A Convenção de 2003 para a Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial prevê a possibilidade de inscrições multinacionais, e a própria organização vem estimulando os Estados a identificarem elementos compartilhados, visando o desenvolvimento de candidaturas conjuntas.
A questão, nesse caso, deixa de se saber a quem pertence uma determinada tradição, mas de reconhecer que existem patrimônios construídos por diversas comunidades em territórios que possam pertencer a diferentes Estados. Patrimônios que atravessam fronteiras e que continuam sendo recriados em lugares distintos.
Quando se fala em patrimônio cultural imaterial, ainda é comum associá-lo imediatamente a uma determinada origem nacional. Essa associação pode ser útil do ponto de vista administrativo, burocrático e de propriedade, mas nem sempre corresponde à maneira como as culturas realmente se formam. Culturas não nascem necessariamente dentro das fronteiras dos Estados. Pelo contrário, elas circulam, são transmitidas, assimiladas, transformadas e recriadas.
E talvez seja esse o ponto interessante para pensar o patrimônio cultural imaterial hoje e suas respectivas políticas. O patrimônio deixa de ser pensado como algo que pertence a um país, a um Estado e passa a poder ser compreendido como algo que é compartilhado por comunidades.
A experiência de cooperação transfronteiriça, nesse sentido, pode oferecer um campo importante a ser estudado e desenvolvido, como a criação de redes entre instituições, projetos culturais conjuntos e a integração multinacional, acarretando, assim, condições para que comunidades e Estados desenvolvessem mecanismos de colaboração que ultrapassam a lógica exclusivamente nacional.
O Brasil, por sua vez, apesar da enorme quantidade de patrimônios culturais imateriais que poderiam ser analisados sob uma perspectiva transnacional, ainda tem pouca, senão nenhuma, presença em candidaturas multinacionais. O que é particularmente curioso em um país cuja formação cultural é marcada por diásporas, encontros e transformações. A cultura brasileira é, em muitos sentidos, resultado de encontros, desencontros e circulações multinacionais. Povos indígenas, populações africanas trazidas à força, migrações europeias e asiáticas, entre tantas outras partes do mundo participaram de processos culturais que criaram conhecimentos, culinárias, práticas religiosas, festas, modos de fazer e outros. Não se trata apenas de pensar "influências", mas reconhecer conhecimentos que foram transformados, combinados e recriados.
É por isso que buscar uma candidatura multinacional não significa olhar para fora em busca de uma origem legítima. Pode significar justamente o contrário: olhar para dentro e reconhecer a dimensão internacional da própria formação cultural brasileira. A pergunta deixa de ser "de onde veio?" e passa a ser "o que aconteceu com tal prática quando ela circulou entre diferentes comunidades, pessoas, culturas e territórios?"
Essa mudança de perspectiva abre possibilidades interessantes para pesquisas e políticas de patrimônio. Em vez de procurar uma origem, seria muito mais interessante investigar os processos culturais construídos historicamente. Pois pensar em patrimônio compartilhado significa reconhecer as identidades em toda a sua complexidade.
A busca de patrimônios culturais imateriais compartilhados pode ser, nesse sentido, uma política relevante para o futuro. E uma candidatura multinacional pode ser muito mais do que um instrumento para obter uma inscrição na lista da Unesco. Pode criar espaços permanentes de cooperação entre comunidades, universidades, pesquisadores, instituições de patrimônio e organizações da sociedade civil.
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