Durante os últimos anos, medicamentos como Wegovy e Mounjaro ficaram conhecidos do grande público principalmente por uma característica: a capacidade de promover perda de peso. O sucesso foi tamanho que a expressão "canetas emagrecedoras" acabou resumindo uma geração de tratamentos que, na prática, começa a ocupar um espaço muito maior na medicina.
A próxima fronteira está no coração.
Nos Estados Unidos, o Mounjaro, à base de tirzepatida, acaba de receber uma nova indicação para reduzir o risco de morte cardiovascular, infarto não fatal e acidente vascular cerebral, o AVC, em adultos com diabetes tipo 2 e alto risco cardiovascular. A decisão amplia o papel de um medicamento até então associado principalmente ao controle do diabetes e à perda de peso.
No Brasil, outro medicamento bastante conhecido já havia avançado nessa direção. Em fevereiro, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária, a Anvisa, ampliou a indicação do Wegovy, à base de semaglutida, para redução do risco de eventos cardiovasculares graves em adultos com doença cardiovascular estabelecida e sobrepeso ou obesidade. A própria agência estima que aproximadamente 400 mil brasileiros morram todos os anos em decorrência de infarto ou AVC.
Mais do que mudanças de bula, essas decisões ajudam a reposicionar uma geração inteira de medicamentos. O debate começa a sair apenas da balança e da glicemia para alcançar desfechos que realmente mudam a vida dos pacientes e estão entre os maiores desafios dos sistemas de saúde: infarto, AVC, incapacidade e morte cardiovascular.
E, no Brasil, essa transformação já começa a chegar a uma discussão ainda mais ampla: em quais situações esses tratamentos podem fazer sentido também para a saúde pública.
Da balança ao coração
O principal marco dessa mudança para a semaglutida foi o estudo SELECT, que acompanhou mais de 17 mil pessoas com sobrepeso ou obesidade, doença cardiovascular já estabelecida e sem diabetes.
Ao longo de pouco mais de três anos, morte cardiovascular, infarto não fatal ou AVC não fatal ocorreram em 6,5% dos participantes tratados com semaglutida e em 8% daqueles que receberam placebo. O resultado correspondeu a uma redução relativa de 20% no risco desse conjunto de eventos cardiovasculares.
O número ganhou destaque mundial e ajudou a mudar a percepção sobre o medicamento, mas é importante entender o que ele representa. Os 20% correspondem à redução relativa do risco do desfecho cardiovascular combinado. Em números absolutos, houve diferença de 1,5 ponto percentual entre os dois grupos durante o período acompanhado.
Essa distinção não diminui a importância do resultado. Pelo contrário, ajuda a dimensionar corretamente uma descoberta relevante. O estudo mostrou que uma terapia já utilizada para obesidade poderia também reduzir eventos cardiovasculares graves em pessoas que não tinham diabetes, mas que já apresentavam doença cardiovascular.
Foi esse tipo de evidência que permitiu que a semaglutida passasse a ser discutida sob uma perspectiva mais ampla. A pergunta deixa de ser apenas quanto peso o paciente perde e passa a incluir se o tratamento pode modificar o risco de complicações que afetam sua expectativa e sua qualidade de vida.
Com a tirzepatida, o caminho foi um pouco diferente.
No estudo SURPASS-CVOT, mais de 13 mil pessoas com diabetes tipo 2 e doença cardiovascular foram acompanhadas. Desta vez, o Mounjaro não foi comparado a um placebo, mas à dulaglutida, outro medicamento da família das incretinas que já possuía benefício cardiovascular demonstrado.
Eventos cardiovasculares importantes ocorreram em 12,2% dos pacientes tratados com tirzepatida e em 13,1% daqueles que receberam dulaglutida. A tirzepatida atendeu ao critério estatístico de não inferioridade, o que significa que apresentou desempenho cardiovascular dentro da margem previamente estabelecida em comparação com uma terapia que já tinha benefício reconhecido. A diferença entre os dois grupos não foi suficiente, porém, para demonstrar superioridade estatística da tirzepatida.
Em posicionamento enviado ao Congresso em Foco, a Lilly destacou justamente essa característica do estudo: a comparação direta entre duas terapias incretínicas, em vez de uma comparação com placebo. Segundo a companhia, os resultados ajudam a ampliar o olhar sobre o paciente com diabetes tipo 2 para além do controle isolado da glicemia e do peso.
Apesar de muitas vezes serem colocadas sob o mesmo rótulo de "canetas de GLP-1", as moléculas também são diferentes. A semaglutida atua sobre o receptor de GLP-1, enquanto a tirzepatida combina ação sobre GLP-1 e GIP. É mais um sinal de que o campo das chamadas incretinas está ficando maior e mais diverso do que a expressão popular "caneta emagrecedora" sugere.
Quando a inovação chega ao SUS
Wegovy e Mounjaro estão em momentos diferentes desse percurso no Brasil.
A semaglutida já possui indicação cardiovascular aprovada pela Anvisa. Para a tirzepatida, a nova indicação concedida nos Estados Unidos ainda não aparece entre as aprovações brasileiras. Questionada pelo Congresso em Foco, a Lilly informou que qualquer atualização de bula no país depende de submissão e aprovação pela Anvisa e que, neste momento, não existe cronograma definido.
Com a semaglutida, a discussão já avançou para outra etapa: uma possível incorporação ao Sistema Único de Saúde.
A Novo Nordisk apresentou uma nova proposta à Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS, a Conitec, para que o medicamento seja avaliado em uma população bastante específica. São pessoas com 45 anos ou mais, sem diabetes, com obesidade graus I ou II, que já sofreram um infarto e estão em prevenção secundária.
Não se trata, portanto, de uma proposta de utilização ampla da semaglutida para todas as pessoas com obesidade. O foco são pacientes que já sofreram um evento cardiovascular grave e apresentam maior risco de recorrência.
Segundo a Novo Nordisk, a definição dessa população busca justamente concentrar o tratamento em pessoas nas quais existe maior oportunidade de benefício clínico e, ao mesmo tempo, potencial para evitar novos custos decorrentes de hospitalizações e tratamentos de alta complexidade.
A empresa também informou ao Congresso em Foco que a nova submissão incorpora a indicação cardiovascular aprovada pela Anvisa, novas evidências científicas e uma modelagem econômica atualizada. Segundo a companhia, a proposta inclui uma redução de 59% no preço oferecido ao governo.
É a segunda vez que a semaglutida passa por uma discussão desse tipo no SUS. Em 2025, uma proposta anterior foi analisada pela Conitec e o medicamento não foi incorporado naquele momento. Ao longo da avaliação, questões como impacto orçamentário, duração do tratamento e definição da população que poderia obter maior benefício estiveram entre os pontos discutidos.
A proposta atual parte de um cenário diferente. A população foi redefinida, a indicação cardiovascular já está aprovada no país e a análise econômica foi revisada. A empresa informou ainda que, desta vez, o modelo considera o uso contínuo da semaglutida.
Esse processo ajuda a mostrar uma diferença importante entre ter um medicamento autorizado no país e oferecê-lo em um sistema público universal.
A Anvisa avalia se existem evidências suficientes de qualidade, segurança e eficácia para determinada indicação. Para uma incorporação ao SUS, é preciso responder perguntas adicionais: quantos pacientes podem se beneficiar, como a nova terapia se compara ao que já está disponível, qual o custo para tratar essa população e se o benefício adicional justifica o investimento.
Não é uma particularidade das chamadas canetas. É a lógica aplicada à incorporação de qualquer nova tecnologia em saúde.
Prevenir também tem valor
Quando se fala em medicamentos inovadores, o preço costuma aparecer rapidamente no debate. Mas, em prevenção cardiovascular, olhar apenas para o valor de uma caixa ou de uma aplicação pode produzir uma análise incompleta.
Um infarto ou um AVC podem significar atendimento de emergência, internação, terapia intensiva, angioplastia, cirurgia, reabilitação e medicamentos por muitos anos. Em situações mais graves, podem deixar incapacidade permanente, afastamento do trabalho e dependência de cuidadores.
Evitar um novo evento cardiovascular tem, portanto, valor para o paciente e também para o sistema de saúde.
Isso não significa que qualquer tecnologia deva ser incorporada independentemente do preço. Significa que a avaliação precisa considerar os dois lados da conta: quanto custa tratar e quanto benefício aquele investimento consegue produzir.
A Novo Nordisk afirma que a proposta apresentada à Conitec não pretende substituir as estratégias cardiovasculares já disponíveis, mas complementar o tratamento de pacientes que permanecem sob risco elevado de novos eventos mesmo recebendo o cuidado padrão. A companhia sustenta também que suas análises econômicas apontam relação favorável entre custo e benefício para essa população.
Os detalhes financeiros da nova proposta, segundo a empresa, integram o processo técnico em curso com o Ministério da Saúde e a Conitec.
Essa é uma discussão importante porque a prevenção cardiovascular já conta com ferramentas bastante eficazes. Controlar pressão arterial e colesterol, parar de fumar, praticar atividade física, tratar adequadamente o diabetes e utilizar medicamentos cardiovasculares quando indicados continuam sendo pilares do cuidado.
As novas terapias não substituem essas medidas. A questão passa a ser saber se, para determinados pacientes de maior risco, existe agora uma ferramenta adicional capaz de reduzir a possibilidade de um novo evento.
Como qualquer tratamento, semaglutida e tirzepatida também não são isentas de efeitos adversos e precisam ser utilizadas dentro das indicações adequadas, com prescrição e acompanhamento profissional.
Uma nova fase da medicina cardiometabólica
O avanço dessas terapias também expõe algo que a medicina conhece há bastante tempo, mas que nem sempre aparece com a mesma clareza no debate público: obesidade, diabetes e doença cardiovascular raramente vivem em mundos separados.
Na prática, elas frequentemente fazem parte da mesma história.
Excesso de peso pode aumentar o risco de desenvolver diabetes. Diabetes eleva o risco cardiovascular. Hipertensão, alterações do colesterol, sedentarismo e outros fatores se somam ao longo dos anos. Quando um infarto finalmente acontece, ele pode ser o resultado mais visível de um processo que começou muito antes.
É nesse contexto que a expressão "canetas emagrecedoras" começa a ficar pequena demais.
A perda de peso continua sendo um resultado importante para quem vive com obesidade, uma doença crônica associada a uma série de complicações. Mas a discussão sobre essa nova geração de medicamentos passa cada vez mais pelo que acontece além da balança: controle metabólico, doença renal, saúde cardiovascular e prevenção de complicações graves.
O próprio mercado tende a mudar rapidamente. Com o avanço de novas moléculas, diferentes fabricantes e maior concorrência, preços e possibilidades de acesso também podem se transformar ao longo dos próximos anos. No caso da semaglutida, por exemplo, a Anvisa já começou a analisar e registrar novas apresentações após o fim da principal patente no país. Isso não significa que todos os produtos tenham automaticamente as mesmas indicações, mas amplia a competição em torno de uma das classes de medicamentos que mais crescem no mundo.
Para o setor privado, boa parte dessa transformação depende da aprovação regulatória, da prescrição e do acesso dos pacientes. No SUS, existe uma etapa adicional: descobrir como transformar avanço científico em política pública sem perder de vista a sustentabilidade do sistema.
Semaglutida e tirzepatida ainda estão em momentos diferentes desse percurso. A primeira já possui indicação cardiovascular aprovada no Brasil e voltou à avaliação da Conitec em uma proposta direcionada a pacientes que já sofreram infarto. A segunda acaba de avançar nos Estados Unidos e ainda aguarda os próximos movimentos regulatórios brasileiros.
O que une as duas é uma mudança de perspectiva.
Por alguns anos, a pergunta que tornou essas canetas famosas era relativamente simples: quanto peso elas conseguem fazer uma pessoa perder?
A ciência começa agora a ampliar essa pergunta: em quais pacientes esses medicamentos podem ajudar a evitar um novo infarto, um AVC ou outra complicação grave, e como fazer com que esse benefício chegue de maneira responsável a quem mais precisa?
É provável que essa resposta tenha consequências muito maiores do que o número que aparece na balança.
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