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Primeiro turno: Lula x Flávio — A eleição será decidida pela rejeição?

Estudos sobre polarização afetiva e pesquisas eleitorais mostram como identidades negativas podem influenciar a escolha entre os dois principais candidatos.

1/10/2026
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Para entender a polarização no Brasil, não basta perguntar se o eleitor se identifica com Lula ou com Flávio Bolsonaro. Também é preciso perguntar de quem ele quer manter o outro lado afastado do poder.

É esse o ponto do artigo de João Areal sobre polarização afetiva: a hostilidade ao grupo adversário pode ser mais forte do que a identificação positiva com o próprio grupo. Em alguns casos, a pessoa pode não se definir primeiro como petista ou bolsonarista, mas como antipetista ou antibolsonarista. [1]

Os dados de Areal ajudam a deixar isso mais claro. Na pesquisa online complementar do artigo, que perguntou sobre o voto no segundo turno de 2018, 53% dos eleitores de Bolsonaro se descreviam como anti-PT, enquanto cerca de 19% se identificavam como bolsonaristas. Entre os eleitores do PT, 88% se declaravam anti-Bolsonaro, mas apenas 8% se identificavam como petistas. A amostra não representa estatisticamente todo o eleitorado brasileiro; ainda assim, a comparação mostra como, naquele levantamento, a identidade negativa aparecia mais do que a identificação positiva com o próprio campo. [1]

André Bello chega a uma conclusão compatível por outro caminho. Ao analisar dados sobre ideologia e posições em temas políticos entre 1989 e 2019, Bello conclui que não há evidências de polarização ideológica no eleitorado brasileiro nesse período. Os grupos de esquerda e direita mantiveram ampla sobreposição e, em muitos temas, moveram-se de forma semelhante. Na minha leitura, isso reforça a importância da explicação de Areal: a divisão pode ser mais afetiva, marcada pela rejeição ao outro lado, do que resultado de uma distância ideológica crescente entre os eleitores. [2]

Em 2026, a disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro se apertou. Em junho, o Datafolha mostrava Lula com 41% e Flávio com 31% no primeiro turno. Na pesquisa realizada em 22 e 23 de setembro, Lula tinha 40%, e Flávio, 36%. A diferença caiu de dez para quatro pontos. [3][4]

Mas a intenção de voto não conta a história toda. Na pesquisa mais recente do Datafolha, 45% disseram que não votariam em Lula de jeito nenhum; outros 45% disseram o mesmo sobre Flávio. Na Quaest realizada alguns dias depois, a rejeição também ficou alta e próxima: 55% para Lula e 56% para Flávio. Os números dos institutos não são diretamente comparáveis, mas mostram um cenário em que os dois chegam ao primeiro turno com rejeições elevadas. [4][5] Em julho, a Genial/Quaest perguntou sobre essas identidades: 36% dos entrevistados se declararam antipetistas e 44%, antibolsonaristas. Não é a mesma medida que rejeição eleitoral, mas ajuda a observar a presença dessas identidades negativas no eleitorado. [6]

O dado sobre a razão do voto também importa. No Datafolha de 15 a 17 de setembro, 35% dos eleitores de Flávio disseram votar nele para evitar que outro candidato fosse eleito. Entre os eleitores de Lula, 18% deram a mesma resposta. O voto para barrar o adversário aparece nos dois eleitorados, mas foi quase duas vezes mais frequente entre os eleitores de Flávio naquele levantamento. [3]

Rejeição, antipetismo e antibolsonarismo ajudam a compreender uma eleição em que parte dos eleitores escolhe pensando também em quem deseja manter longe do poder.Magnific

Minha hipótese para 2026 é direta: a rejeição pesa mais na decisão de voto dos dois eleitorados do que a identificação positiva com o próprio candidato. No primeiro turno, outras candidaturas dividem quem rejeita o governo Lula. É nesse contexto que a campanha de Flávio aposta no voto útil: tenta convencer esse eleitorado a concentrar nele o voto já no primeiro turno. No segundo turno, com apenas dois candidatos, a rejeição ao adversário pode ganhar ainda mais peso. O eleitor pode acabar escolhendo não quem prefere, mas quem considera menos ruim — ou quem mais teme ver eleito. [7]

As pesquisas não permitem prever com segurança quem vencerá. Mas, na minha leitura, os dados indicam que a rejeição tem peso decisivo nos dois eleitorados e pode pesar mais do que a identificação positiva na escolha entre Lula e Flávio. Isso confirma a força do antipetismo e do antibolsonarismo: parte dos eleitores se aproxima de um candidato porque rejeita o outro lado. Se a disputa chegar ao segundo turno, quando só haverá dois nomes, essa rejeição pode ser decisiva para definir o resultado.

Referências

[1] AREAL, João. "Them" without "us": negative identities and affective polarization in Brazil. Political Research Exchange, v. 4, n. 1, artigo 2117635, 2022. DOI: 10.1080/2474736X.2022.2117635.

[2] BELLO, André. Ideologia e Polarização Política no Brasil. In: BORGES, André; VIDIGAL, Robert (orgs.). Para Entender a Nova Direita Brasileira: Polarização, populismo e antipetismo. Porto Alegre: Zouk, 2023, cap. 3, p. 147–176.

[3] DATAFOLHA. Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) empatam no 1º e 2º turnos. Pesquisa realizada de 15 a 17 set. 2026; publicada em 21 set. 2026.

[4] DATAFOLHA. No 1º turno, Lula (PT) tem 40%, e Flávio Bolsonaro (PL) aparece com 36%. Pesquisa realizada de 22 a 23 set. 2026; publicada em 28 set. 2026.

[5] QUAEST. Rejeição de Flávio Bolsonaro e Lula. Pesquisa realizada de 24 a 27 set. 2026; resultados divulgados em 28 set. 2026, conforme reportagem da CNN Brasil.

[6] GENIAL/QUAEST. Pesquisa Genial – Patriotismo e defesa do Brasil – Julho/2026. Pesquisa realizada de 10 a 13 jul. 2026.

[7] FOLHA DE S.PAULO. Datafolha: Campanha de Lula vê alívio, e equipe de Flávio Bolsonaro mantém aposta em voto útil. 24 set. 2026.


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