Os resultados da eleição de 4 de outubro mostram a força do voto contrário ao Partido dos Trabalhadores (PT). Flávio Bolsonaro conquistou 47,03% dos votos válidos e ficou à frente de Lula por 2.227.651 votos. Nenhum dos dois, porém, ultrapassou metade dos votos válidos, e a eleição será decidida no segundo turno.
Mas o que explica esse resultado? O Brasil cansou do PT e das pautas progressistas e identitárias? A crise de confiança no STF e as suspeitas envolvendo ministros da Corte influenciaram o eleitor? Houve uma percepção de proximidade entre o presidente Lula e o ministro Alexandre de Moraes? A atuação pública da primeira-dama Janja teve algum peso? Os casos de corrupção revelados a partir de 2014 ainda reverberam contra Lula em 2026? A inflação e a proibição das bets influenciaram a rejeição? Flávio foi visto como uma alternativa diferente do pai? Defendo que todos esses pontos podem ter pesado nas escolhas dos brasileiros que não gostam do PT, embora os resultados eleitorais, sozinhos, não permitam medir o peso de cada um.
Fato interessante é que, apesar do caso das rachadinhas, da investigação sobre o financiamento do filme Dark Horse, da relação com Daniel Vorcaro e do desgaste provocado pela fake news envolvendo Nossa Senhora Aparecida, Flávio pareceu imune e terminou à frente de Lula. O resultado, por si só, não prova que esses episódios não tenham desgastado sua imagem, mas reforça o argumento do voto antipetista.
Faço aqui uma ressalva sobre a controvérsia envolvendo Nossa Senhora Aparecida e o eleitorado católico. Os estudos de Machado e Tuñón mostram a participação de setores católicos progressistas na formação e na expansão inicial do PT. Porém, o estudo recente de Luz identifica uma associação significativa entre o catolicismo e o antipetismo, mas não uma relação direta entre ser católico e se posicionar à direita. Por isso, não dá para concluir, a partir desse estudo ou do resultado eleitoral, que a controvérsia não tenha causado desgaste entre os católicos.
Os estudos de Luz, Bello e Areal ajudam a interpretar o antipetismo e a polarização afetiva na política brasileira. Luz analisa o voto em Jair Bolsonaro em 2018; Bello identifica o antagonismo crescente entre petismo e antipetismo; e Areal estuda as identidades negativas, como antipetistas e antibolsonaristas. Lynch e Cassimiro analisam o bolsonarismo e seu projeto político. Esses trabalhos oferecem elementos para interpretar a disputa, na qual a vantagem de Flávio pode ser explicada pela clivagem afetiva e pelo sentimento de aversão ao PT e ao lulismo.
Além disso, o PT soma cerca de 17 anos e 1 mês à frente do governo federal: de 2003 à suspensão do governo de Dilma Rousseff, em maio de 2016, e de 2023 até outubro de 2026. A literatura de Ciência Política chama de "custo de governar" a tendência de partidos no governo perderem apoio eleitoral ao longo do tempo. Estudos indicam que esse desgaste pode crescer conforme aumenta o período de permanência no poder. No caso do PT, essa permanência prolongada pode ter ampliado a aversão e fortalecido a oposição — um fator que, na minha hipótese, ajuda a explicar a força do antipetismo em 2026.
Os dados da eleição mostram o crescimento do movimento antipetista em torno da candidatura de Flávio Bolsonaro. Defendo que Flávio conseguiu reduzir, entre parte dos eleitores, a rejeição associada ao sobrenome Bolsonaro: alguns podem não ter visto nele a mesma imagem negativa que o pai construiu durante os quatro anos de governo e que contribuiu para sua derrota em 2022. Uma hipótese a ser discutida é que Flávio conseguiu convergir os votos antipetistas e diminuir sua rejeição entre o eleitorado antibolsonarista.
A força do antipetismo aparece também no mapa eleitoral. Flávio venceu em 14 Estados e no Distrito Federal; Lula venceu em 12 Estados. Flávio teve mais votos nas regiões Norte, Centro-Oeste, Sudeste e Sul. Lula dominou o Nordeste, onde abriu uma vantagem superior a 11 milhões de votos. Nas outras quatro regiões, a vantagem de Flávio somou cerca de 13 milhões, compensando a diferença nordestina e garantindo sua liderança nacional.
Para piorar a situação do PT e reforçar minha hipótese sobre a força da polarização afetiva, o PL elegeu 121 deputados federais, conquistou 19 das 54 vagas em disputa no Senado e deverá ter 28 das 81 cadeiras da Casa a partir de 2027. Nikolas Ferreira, um dos principais nomes do discurso antipetista e expositor da campanha de Flávio, foi reeleito com mais de 3,1 milhões de votos, um recorde para a Câmara. Além disso, o PL elegeu cinco governadores no primeiro turno. Essas alianças podem dar palanque ao candidato e permitir que os governadores eleitos ajudem na campanha de Bolsonaro.
Apesar de tudo isso, ainda teremos segundo turno para a eleição presidencial. Mas e agora? Como se diz no mundo dos gamers, agora é X1.
Uma análise sóbria é considerar os votos dos outros candidatos que apresentaram discursos críticos ao PT ou ao governo: Augusto Cury, Ronaldo Caiado, Renan Santos e Romeu Zema. Juntos, eles receberam 9.055.845 votos válidos. Cury, Caiado e Renan não declararam apoio a nenhum dos dois candidatos. Zema, por sua vez, declarou que apoiaria Flávio contra Lula no segundo turno. Isso fortalece a hipótese de que o voto antipetista pode favorecer Flávio, mas não significa que todos os eleitores desses candidatos votarão nele.
Seguindo a ideia de que o antipetismo foi importante na eleição de 2018, conforme indicam os estudos citados, defendo que ele foi essencial no primeiro turno de 2026 e pode ser ainda mais importante no segundo. A literatura não permite afirmar que os votos de um candidato serão transferidos automaticamente para outro. A abstenção também precisa ser considerada: em 2022, ela foi de 20,59% no segundo turno, uma pequena queda em relação ao primeiro. Se, apenas como hipótese de cálculo, aplicarmos uma abstenção de 20% aos 9.055.845 votos de Cury, Caiado, Zema e Renan, cerca de 1.811.169 eleitores deixariam de comparecer, e restariam aproximadamente 7.244.676 votos potenciais. Isso não quer dizer que esses votos serão transferidos para Flávio: é somente um cenário numérico. Ainda assim, a vantagem no primeiro turno, o apoio de políticos eleitos e o sentimento antipetista, se explorados pela coordenação de Flávio, podem ajudar sua campanha a buscar esses votos.
Faltam três domingos para o segundo turno. Na minha visão, considerando os dados e a lógica apresentada acima, Flávio Bolsonaro está em posição favorável para buscar a vitória. Lula fará aniversário em 27 de outubro, dois dias depois da votação; se minha previsão estiver certa, talvez não tenha muito motivo para comemorar.
Referências
LUZ, Leonardo Neves. "Religião, ideologia e antipetismo nas eleições presidenciais brasileiras de 2018". Revista de Sociologia e Política, v. 33, 2025. SciELO.
BELLO, André. "Polarização política dinâmica: evidências do Brasil". Opinião Pública, v. 29, n. 1, 2023. SciELO.
AREAL, João. "'Them without 'us: negative identities and affective polarization in Brazil". Political Research Exchange, v. 4, n. 1, 2022. DOI: 10.1080/2474736X.2022.2117635.
LYNCH, Christian Edward Cyril; CASSIMIRO, Paulo Henrique Paschoeto. "O populismo reacionário no poder: uma radiografia ideológica da presidência Bolsonaro (2018–2021)". Aisthesis, n. 70, p. 223–249, 2021. SciELO Chile.
MACHADO, Adriano Henriques. "A influência dos setores católicos na formação do Partido dos Trabalhadores: da relação com os movimentos sociais à ideia de formar um novo partido". In: XXV Simpósio Nacional de História, Fortaleza, 2009. Anais da ANPUH.
TUÑÓN, Guadalupe. "When the Church Votes Left: How Progressive Bishops Supported the Workers Party in Brazil". American Political Science Review, v. 120, n. 3, p. 1150–1166, 2026. DOI: 10.1017/S0003055426101427.
WLEZIEN, Christopher. "Policy (Mis)Representation and the Cost of Ruling: U.S. Presidential Elections in Comparative Perspective". Comparative Political Studies, v. 50, n. 6, p. 711–738, 2017. DOI: 10.1177/0010414015626446.
THESEN, Gunnar; MORTENSEN, Peter B.; GREEN-PEDERSEN, Christoffer. "Cost of Ruling as a Game of Tones: The Accumulation of Bad News and Incumbents Vote Loss". European Journal of Political Research, v. 59, n. 3, p. 555–577, 2020. DOI: 10.1111/1475-6765.12367.
TRIBUNAL SUPERIOR ELEITORAL. "Flávio Bolsonaro e Lula vão disputar o 2º turno para a Presidência da República". 5 out. 2026. TSE.
TRIBUNAL SUPERIOR ELEITORAL. "100% das seções totalizadas: confira como ficou o quadro eleitoral após o 2º turno". 31 out. 2022. TSE.
CONGRESSO EM FOCO. "Flávio vence em quatro regiões; Lula domina Nordeste". 5 out. 2026. Congresso em Foco.
CONGRESSO EM FOCO. "PL elege 121 deputados e faz a maior bancada eleita em 40 anos". Congresso em Foco.
CONGRESSO EM FOCO. "Novo Senado: veja quem serão os 81 senadores a partir de 2027". Congresso em Foco.
FOLHA DE S.PAULO. "Flávio tem 2,2 milhões de votos a mais, e Rio Grande do Sul e Minas Gerais viram desafio para Lula". 5 out. 2026. Folha.
FOLHA DE S.PAULO. "Aliados de Flávio Bolsonaro vencem em 10 estados, e aliados de Lula, em 5". 5 out. 2026. Folha.
FOLHA DE S.PAULO. "Cury, Renan Santos e Caiado não declaram voto no 2º turno e criticam polarização". 4 out. 2026. Folha.
UOL. "Cury não declara apoio, Zema vai 'contra PT e PSD libera apoio no 2º turno". 4 out. 2026. UOL.
FOLHA DE S.PAULO. "Tema de campanha, Nossa Senhora é celebrada em igrejas católicas no dia da eleição". 5 out. 2026. Folha.
O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para redacao@congressoemfoco.com.br.