Artigos

A força indígena não vai recuar

Apesar do recorde de 191 candidaturas indígenas, apenas sete representantes foram eleitos para a Câmara e as Assembleias Legislativas, evidenciando as barreiras de acesso aos espaços de poder.

13/10/2026
Publicidade
Expandir publicidade

As eleições de 2026 produziram uma contradição que precisa ser enfrentada. Nunca tivemos tantas candidaturas indígenas, mas esse crescimento ainda não se converteu, na mesma proporção, em representação nos parlamentos.

Foram registradas 191 candidaturas indígenas, presentes em 26 unidades da Federação e representando 64 povos. Em 2014, eram 85. Em 12 anos, o crescimento foi de aproximadamente 125%. Na disputa pela Câmara dos Deputados, o número triplicou: passou de 25 candidaturas em 2014 para 75 neste ano.

Apesar desse avanço, somente três indígenas foram eleitos para a Câmara, ocupando 0,6% das 513 cadeiras. Nas Assembleias Legislativas, foram quatro entre 1.059 parlamentares estaduais, cerca de 0,4%. Para o Senado, nenhuma pessoa autodeclarada indígena foi eleita entre as 54 vagas em disputa.

Os números mostram que não faltam lideranças ou disposição para participar da política. O que ainda falta são condições iguais de competição.

As estruturas partidárias concentram recursos, equipes e tempo de propaganda em candidaturas tradicionais, geralmente com mandatos, visibilidade e redes políticas já consolidadas. Embora o Tribunal Superior Eleitoral tenha garantido a destinação proporcional de recursos e tempo de rádio e televisão às candidaturas indígenas, os partidos continuam com ampla autonomia para definir quais nomes serão prioritários, quanto cada campanha receberá e quando o dinheiro será transferido.

Muitas candidaturas indígenas recebem recursos tarde, não contam com equipes jurídicas, contábeis e de comunicação e precisam percorrer territórios extensos. Somente no Amazonas, aproximadamente quatro mil seções eleitorais dependem exclusivamente do transporte fluvial. Em alguns trajetos, o deslocamento das urnas supera 1.500 quilômetros e pode levar cerca de sete dias. A baixa conectividade também limita o contato com os eleitores e a presença das campanhas no ambiente digital.

Há ainda o racismo estrutural e a tentativa de restringir as lideranças indígenas a determinados temas. Temos muito a dizer sobre demarcação, saúde, educação e proteção ambiental, mas também apresentamos propostas para a economia, a política externa, a transição energética, a cultura e o desenvolvimento nacional. Os povos indígenas não podem ser chamados apenas quando o assunto são os seus próprios direitos. Precisam participar de todas as decisões do país.

Com apenas três deputados federais e quatro estaduais eleitos em 2026, lideranças indígenas defendem financiamento eleitoral mais justo, reserva de cadeiras e maior participação nas decisões partidárias.Divulgação/Assessoria Sônia Guajajara

Essa desigualdade se aprofunda no recorte de gênero. Das 191 candidaturas indígenas, 84 eram de mulheres, aproximadamente 44% do total. Em 2014, eram 29. O crescimento demonstra a força das mulheres indígenas, mas elas continuam enfrentando a combinação do racismo, do machismo e da violência política. Entre os sete indígenas eleitos para a Câmara e as Assembleias, somente três são mulheres.

Superar essas barreiras exige medidas concretas. Os partidos precisam financiar as candidaturas indígenas desde o começo da campanha, garantir equipes técnicas e ampliar nossa participação nas instâncias que decidem as estratégias eleitorais. Também precisamos discutir mecanismos efetivos de reserva de cadeiras nos parlamentos, fortalecer o enfrentamento à violência política e ampliar a formação eleitoral nos territórios, com materiais acessíveis e em línguas indígenas.

Fora das instituições, o caminho passa pela preparação antecipada de candidaturas, pela formação de novas lideranças e pela construção de redes permanentes de comunicação, financiamento e apoio jurídico. Uma candidatura competitiva não se constrói apenas durante o período eleitoral.

Essa agenda está diretamente ligada à eleição presidencial. A continuidade do atual projeto democrático é fundamental para impedir novos retrocessos. Foi nesse ciclo que o país criou seu primeiro Ministério dos Povos Indígenas, retomou demarcações e iniciou a reconstrução de políticas desmontadas nos anos anteriores.

Ainda há muito a avançar. Precisamos acelerar as demarcações, proteger os territórios, fortalecer a Funai e a saúde indígena, combater o garimpo e transformar as conquistas recentes em políticas permanentes de Estado. Diante de um Congresso mais conservador, a reeleição do atual presidente torna-se ainda mais necessária para conter retrocessos, garantir o cumprimento da Constituição e manter aberto o diálogo com os povos indígenas e os movimentos sociais.

O resultado das eleições acende um sinal de alerta, mas não representa um recuo da nossa mobilização. As 191 candidaturas demonstram que existe uma força indígena crescendo, formando lideranças e se organizando em todas as regiões.

Vamos continuar aldeando a política e disputando todos os espaços de decisão. Não vamos recuar. Nunca mais um Brasil sem nós.


O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para redacao@congressoemfoco.com.br.

Veja mais no portal
cadastre-se, comente, saiba mais

Artigos Mais Lidos