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Espetacularização de um Congresso Nacional nada espetacular

Redes sociais transformam identidades e antagonismos em votos, levando ao Parlamento representantes cuja força digital nem sempre corresponde à capacidade de negociação e atuação legislativa.

15/10/2026
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A política sempre dependeu de representação. O cidadão escolhe alguém para falar, negociar e decidir em seu nome. Mas a representação política atravessa uma transformação relacionada à própria forma como o indivíduo percebe a realidade política e aqueles que dela fazem parte.

Durante muito tempo, a imagem representava a existência. Como explica o filósofo Guy Debord, primeiro vinha a experiência concreta; depois, sua representação. Uma pessoa vivia, trabalhava, se relacionava e registrava parte dessa existência. A lógica contemporânea das redes sociais introduziu uma inversão progressiva: a existência passou a ser organizada também pela expectativa de sua representação.

Passamos, em determinadas circunstâncias, a viver pensando naquilo que será publicado. A imagem, além de consequência da experiência, passa a orientar comportamentos. É nesse movimento que a sociedade do espetáculo ganha uma dimensão política particularmente relevante: o espetáculo constitui uma forma de relação social mediada por representações.

A consequência mais importante dessa transformação está na imagem que cada indivíduo produz dos outros.

Na política, o adversário pode aparecer como "a esquerda", "a direita", "o sistema", "o fascista", "a comunista" ou qualquer outra representação capaz de condensar, em uma única imagem, um conjunto complexo de posições políticas. O outro passa a ser reconhecido por aquilo que simboliza.

A espetacularização altera essa relação. O outro passa a ser apreendido como uma imagem daquilo que se deve combater. O antagonismo cumpre, então, uma função adicional: define o adversário e também define quem somos. Ao dizer "sou contra aquilo", o indivíduo afirma "sou isto". A identidade política passa a ser construída pela oposição. Quanto mais nítida a imagem do inimigo, mais nítida pode parecer a própria identidade.

Nas eleições de 2026, as redes sociais potencializaram esse processo ao permitir que imagens políticas sejam continuamente reproduzidas, compartilhadas e reforçadas. O próprio indivíduo participa da circulação da representação: escolhe o que compartilhar, com o que se identificar, aquilo que rejeitar e o que deseja que outros vejam.

É nesse circuito que surge o eleitor-avatar: o indivíduo que participa da política também como unidade de reprodução de imagens. Ele recebe uma representação, identifica-se com ela, reage, compartilha e encontra outros indivíduos que reproduzem a mesma percepção. A imagem ganha força ao organizar uma comunidade de identificação.

A lógica chega às urnas e adquire materialidade institucional. O cidadão que compartilha uma imagem, identifica-se com determinado antagonismo e reconhece naquele candidato uma representação de seus valores transforma essa identificação em voto. O candidato passa, então, a ocupar uma cadeira no Congresso Nacional.

Eleições de 2026 evidenciam como imagens, símbolos e conflitos construídos nas redes influenciam a escolha dos parlamentares e desafiam o funcionamento institucional do Congresso.Magnific

E é nesse ponto que o virtual se converte em realidade política. O Congresso Nacional representa, institucionalmente, a população brasileira. O parlamentar precisa transformar demandas em proposições, construir maiorias, negociar, participar de comissões, votar, estabelecer acordos e lidar com limites constitucionais, orçamentários e regimentais.

Só que a imagem opera segundo outra lógica. Uma publicação pode apresentar uma solução como simples. Uma campanha pode transformar um problema complexo em um antagonismo. Um parlamentar pode ser percebido como alguém que "vai resolver" determinada questão, enquanto sua capacidade institucional possui limites concretos.

Surge, assim, uma tensão entre representação imagética e representação institucional.

A primeira opera pela identificação, pela emoção e pelo antagonismo. A segunda depende de negociação, procedimento, competência e limites institucionais. A primeira pode ser viralizada em segundos. A segunda exige tempo. A primeira transforma um adversário em símbolo. A segunda exige convivência institucional.

E é nessa passagem que se encontra um dos principais dilemas contemporâneos do Congresso Nacional eleito para a 59ª legislatura, a próxima que está por vir.

A representação imagética ocupa progressivamente espaço na construção da representação política. Nesse cenário, o parlamentar pode ser eleito como expressão de uma identidade construída em determinada comunidade política e como representante de conflitos que ganharam força dentro dela.

Surge uma tensão entre aquilo que uma sociedade precisa discutir e aquilo que determinados grupos conseguem transformar em conflito político altamente mobilizador. A consequência é uma política progressivamente esvaziada.

Sua complexidade passa a ser substituída pela imagem que se faz dela. A negociação pode assumir a aparência de fraqueza; o acordo, de traição; a moderação, de ausência de convicção. Quanto mais a identidade política depende da oposição ao outro, mais difícil se torna reconhecer a legitimidade da negociação que constitui a própria atividade parlamentar.

O Congresso, nesse sentido, torna-se o lugar onde uma transformação iniciada na esfera virtual adquire materialidade.

Tem-se, assim, a sequência: a existência produz imagens; as imagens passam a mediar relações sociais; as relações produzem identificações e antagonismos; essas imagens são reproduzidas e viralizadas; a identificação transforma-se em voto; o voto produz representação institucional; e a representação institucional passa a produzir efeitos sobre a própria realidade.

A imagem, portanto, participa da produção da política. E esse é o ponto que merece atenção no debate sobre o futuro do Congresso Nacional. A questão central é compreender se estamos começando a escolher representantes a partir das imagens construídas sobre aquilo que eles simbolizam, em detrimento de sua capacidade efetiva de atuação institucional.

A representação política sofre, então, uma inversão. O cidadão escolhe alguém para representá-lo e, simultaneamente, alguém que representa uma imagem daquilo que ele é e daquilo que acredita combater.

O Congresso recebe, assim, representantes da sociedade e os conflitos imagéticos produzidos antes dela.

A política permanece institucionalizada. As eleições continuam produzindo mandatos. O Congresso segue como espaço de representação. Mas o objetivo destes representantes passam a ser focados em construção de narrativas transmitidas para explorar supostas contradições de blocos elaborados imageticamente e entreter eleitores digitais. De modo espetacular e inusitado, o ciclo da vida cidadã torna-se regido por políticos-avatares sem ideias concretas de melhoria ao país e seus residentes.


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