O primeiro turno deixou um Congresso mais feminino. Foram 109 deputadas eleitas e 12 senadoras, o maior número de eleitas da nossa jovem Democracia. Deixou também um patrimônio político menos fácil de contabilizar. Candidatas, eleitas ou não, construíram relações de confiança com milhões de eleitores e podem, no segundo turno, levar a disputa presidencial a públicos que partidos e campanhas nem sempre conseguem alcançar. Essas lideranças femininas seguem em campanha, na disputa voto a voto.
Em São Paulo, essa força aparece nas trajetórias de Simone Tebet, Marina Silva, Erika Hilton, Sâmia Bomfim e Tabata Amaral. Erika foi reeleita com cerca de 1,6 milhão de votos. Sâmia e Tabata também conquistaram novos mandatos. São trajetórias distintas, capazes de estabelecer vínculos com setores da sociedade que não podem ser reduzidos aos votos recebidos. Terceira colocada, Simone Tebet não volta ao Senado, mas tem atenção particular por sua capacidade de negociação. Numa disputa presidencial marcada pela polarização, construir convergências sem apagar divergências pode abrir caminhos para o diálogo.
Em Minas Gerais, Ana Elisa, Duda Salabert, Ana Pimentel, Dandara e Bella Gonçalves foram eleitas para a Câmara. A jovem Ana Elisa recebeu mais de 524 mil votos, maior votação da esquerda em Minas.
No Rio Grande do Sul, outro fenômeno das redes, Manuela Dávila, ficou fora do Senado. A projeção nas redes sociais mostra as possibilidades e os limites da comunicação digital: alcançar milhares de pessoas não significa necessariamente convencê-las. O desafio é transformar visibilidade em diálogo e estabelecer relações de confiança com quem não está previamente convencido.
No Rio de Janeiro, Anielle Franco, Talíria Petrone, Jandira Feghali, Nísia Trindade, Tainá de Paula, Martha Rocha e Tatiana Roque reúnem experiências na representação parlamentar, na administração pública, na ciência e nos movimentos sociais. Nísia acumulou responsabilidades na direção da Fiocruz e do Ministério da Saúde, em uma trajetória que articula conhecimento científico, capacidade de gestão e compromisso com as necessidades da população. Esse conhecimento não perde relevância com o encerramento da disputa eleitoral e pode contribuir para a qualidade de um governo.
Do voto à participação no poder
No segundo turno, essas lideranças podem contribuir de maneiras distintas, conforme suas escolhas políticas: mobilizando apoiadores, esclarecendo dúvidas, apresentando argumentos e dialogando com pessoas que fizeram outras opções presidenciais. Mais importante do que reproduzir mensagens de campanha é compreender o que os eleitores vivem. O crescimento do emprego e da renda pode conviver com dificuldades para pagar aluguel, comprar alimentos, enfrentar dívidas ou conseguir atendimento nos serviços públicos. Para mulheres que conciliam trabalho remunerado, tarefas domésticas e cuidado de familiares, uma melhoria econômica nem sempre significa mais tempo, segurança ou tranquilidade.
A contribuição dessas mulheres não deveria terminar com a apuração dos votos. Experiências na saúde, educação, proteção ambiental, administração pública e movimentos sociais podem enriquecer a formulação de políticas. Incorporá-las às decisões não significa distribuir cargos como recompensa eleitoral, mas reconhecer que governar exige competência, diversidade de conhecimentos, capacidade de escuta e disposição para corrigir caminhos.
Há uma diferença decisiva entre reconhecer mulheres e compartilhar poder com elas. Uma liderança pode conquistar votos e visibilidade e continuar afastada dos lugares onde as decisões são tomadas. Pode ser valorizada enquanto oferece apoio e perder espaço quando apresenta críticas. A participação democrática exige condições para formular propostas, definir prioridades, acompanhar sua execução e questionar decisões.
Mais feminino, não mais feminista
Temos um Congresso majoritariamente conservador. O centrão perdeu hegemonia para a extrema direita. No Senado, a esquerda encolheu. Na Câmara dos Deputados, a federação PT-PCdoB-PV subiu de 82 para 88 deputados, mantendo certa estabilidade.
As candidaturas femininas seguiram a mesma tendência. Temos um Congresso mais feminino, não mais feminista. É a bancada majoritariamente conservadora, incluindo extremistas e suas contradições. Há as contradições pontuais, como a deputada que mora com a mãe que recebe Benefício de Prestação Continuada (BPC) e é contra auxílios. E uma mais ampla, estrutural: A ampliação da presença feminina nas urnas é uma conquista do movimento feminista, associado à esquerda.
É resultado de décadas de mobilização das mulheres e dos movimentos feministas pelo direito de participar da política em condições menos desiguais. A legislação estabeleceu, em 1997, uma cota para candidaturas femininas, mas durante anos a regra teve pouco efeito. Em 2009, tornou-se obrigatório o preenchimento mínimo de 30% das candidaturas por sexo. Restava uma barreira decisiva: sem dinheiro, muitas mulheres eram candidatas no registro, mas não tinham condições reais de disputar votos.
A batalha seguinte foi, portanto, pelo financiamento. Em 2015, a legislação reservou recursos do Fundo Partidário às campanhas femininas, mas permitiu que, mesmo representando pelo menos 30% das candidaturas, as mulheres recebessem no máximo 15% desses recursos. Em 2018, o Supremo Tribunal Federal considerou a limitação inconstitucional. A destinação dos recursos passou a acompanhar a proporção de candidaturas femininas, nunca inferior a 30%. Nas eleições de 2026, 34,85% das candidaturas consideradas pelo TSE para a distribuição dos fundos eram de mulheres.
O resultado dessa luta contém um paradoxo. As regras conquistadas sobretudo pela mobilização de mulheres e movimentos feministas abriram espaço para candidatas identificadas com pautas opostas. Não há nisso uma negação da conquista, mas uma de suas consequências.
Direitos políticos, quando se tornam direitos, não pertencem apenas a quem lutou por eles. Mulheres podem ocupar o Parlamento para defender projetos profundamente diferentes — e até antagônicos — sobre igualdade, direitos reprodutivos, família, trabalho ou o próprio papel do Estado. A ampliação da representação feminina não elimina a disputa política; permite que ela também seja travada por mais mulheres.
O número recorde de eleitas precisa ser comemorado sem esconder os limites. As 109 deputadas representarão apenas 21,2% da Câmara. A questão não é apenas quantas mulheres chegam ao poder, mas quais mulheres conseguem chegar, em que condições, quais projetos defendem e quanto poder efetivamente exercem.
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