Artigos

O serviço público está na urna

Da saúde à educação, passando pelo Pix e pela segurança pública, as escolhas eleitorais influenciam a qualidade dos serviços essenciais e a capacidade de atuação do Estado.

19/10/2026
Publicidade
Expandir publicidade

O processo eleitoral é mais do que uma escolha entre candidatos e projetos políticos. É também uma escolha sobre o Estado que queremos e qual serviço público teremos nos próximos anos.

Isso pode parecer abstrato até o momento em que deixa de ser. O Estado está na escola que recebe uma criança, na vacina que chega a uma cidade distante, no benefício social pago a uma família em dificuldade, no leite que compramos com a segurança de que foi fiscalizado, na calçada limpa e no semáforo que organiza o trânsito, na fiscalização ambiental, na segurança pública das grandes cidades e na resposta a tragédias ambientais e humanitárias. Está também na pesquisa científica de ponta e em tecnologias que fazem parte da rotina dos brasileiros.

O Pix talvez seja o exemplo cotidiano mais eloquente. Hoje, transferir dinheiro em segundos, sem qualquer taxação bancária, tornou-se tão banal que é fácil esquecer que essa facilidade precisou ser concebida. O Pix nasceu no Banco Central e teve participação decisiva dos servidores públicos da instituição em sua formulação e implementação. O resultado está hoje no bolso de praticamente todos os brasileiros.

Mas a importância do serviço público vai além. Hoje, 75,3% dos brasileiros dependem exclusivamente do SUS, e 79,8% dos alunos da educação básica estudam na rede pública. Mas, mesmo quem não usa um hospital ou uma escola pública, depende do serviço público todos os dias, muitas vezes sem perceber. São serviços essenciais, e a qualidade de cada um deles também depende de quem escolhemos como nossos representantes, pois o serviço público certamente também está na urna.

São cerca de 12,7 milhões de profissionais públicos no país. E, ao contrário de uma ideia repetida com frequência, o Brasil não tem uma proporção excepcionalmente alta de servidores. Eles representam 12,3% dos trabalhadores brasileiros, abaixo da média de 16,9% dos países da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), segundo dados reunidos pela República.org.

Escolher um presidente também é escolher o futuro do serviço público.Fernando Frazão/Agência Brasil

Há momentos, porém, em que discutir a importância do serviço público deixa de ser apenas uma questão de números. A pandemia foi um deles. Enquanto o país enfrentava uma emergência sem precedentes, profissionais do SUS, pesquisadores, agentes comunitários e gestores públicos sustentaram uma rede nacional de atendimento, vacinação e informação. Em muitos casos, trabalham no limite para manter serviços essenciais funcionando. O Brasil não parou porque eles não pararam.

As enchentes que devastaram o Rio Grande do Sul, em 2024, ofereceram outro retrato dessa presença. Bombeiros, profissionais de saúde, policiais, integrantes da Defesa Civil, militares, assistentes sociais e servidores das diferentes esferas de governo participaram dos resgates e do atendimento a milhões de atingidos.

Nas grandes crises, o que durante anos parece invisível aparece de forma explícita. Sem instituições sólidas e, sobretudo, gente preparada, não é possível enfrentar emergências de forma efetiva. Servidores bem selecionados, qualificados, valorizados e capazes de trabalhar com autonomia técnica não são um detalhe da administração pública, são elementos fundamentais.

Não existe Estado eficiente sem bons profissionais. E não se formam bons quadros públicos sem seleção adequada, formação, remuneração compatível, reconhecimento e condições de trabalho.

Defender o serviço público tampouco significa defender o Estado como ele está. Há privilégios e distorções que devem ser corrigidos, para restaurar a confiança e a legitimidade do Estado, e serviços que precisam melhorar. Mas reformar não deve ser sinônimo de diminuir a capacidade do Estado de chegar a quem e onde precisa e nem enfraquecer as instituições.

No primeiro turno deste ano, cerca de 33,5 milhões de brasileiros não foram votar, uma abstenção de 21,6% do eleitorado. Quando milhões deixam de escolher, também deixam nas mãos de outros decisões que terão efeitos concretos sobre o seu dia a dia e bem-estar.

Ainda há escolhas a fazer nos Estados e para a Presidência da República. E cada eleitor que voltar às urnas ajudará a definir que serviço público, e que Estado, a sociedade brasileira receberá nos próximos anos. Só ao término da eleição essas escolhas estarão definidas.


O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para redacao@congressoemfoco.com.br.

Veja mais no portal
cadastre-se, comente, saiba mais

Artigos Mais Lidos