Em entrevista à repórter Janaina Leite, publicada neste domingo pela Folha de S. Paulo, o banqueiro Daniel Dantas, dono do Opportunity, nega ter documentos sobre contas bancárias do presidente Lula e de outros poderosos brasileiros no exterior.
Segundo a edição deste fim de semana da revista Veja, tais documentos são a principal parte do arsenal que Dantas possui de armas com capacidade para demolir o governo e o PT. A semanal afirma que a obtenção das contas foi um dos serviços prestados pela Kroll ao empresário baiano. O banqueiro nega as duas coisas.
Dizendo que jamais contratou serviços de investigação com esse objetivo, afirmou: "Tive conhecimento posterior, isto sim, de que havia suspeita da existência de cópias de tais contas. Disseram-me que havia o número das contas no exterior de pessoas ligadas ao governo, inclusive do presidente Lula. Mas não vou falar quem me disse, pois não dei a menor credibilidade".
Ele acrescenta que nem repassou nem autorizou ninguém a repassar à Veja material sobre o assunto. E completou: "Veja mente quando diz que tinha um compromisso comigo para preservar meu nome como fonte, caso essas contas fossem verdadeiras. Isso nunca existiu".
O empresário mantém na entrevista a versão que havia dado em setembro de 2005 em reunião conjunta das CPIs dos Correios e do Mensalão: garante que jamais pagou propinas ao governo ou ao PT. Mas insinua que sofreu extorsão. Explica que não revelou isso à época às CPIs porque somente agora tem "novos elementos". Estaria impedido de se manifestar sobre eles, porém, porque eles integram o processo que tramita em sigilo na Corte de Nova York. A ação foi proposta pelo Citibank, que cobra do Opportunity mais de US$ 300 milhões por práticas irregulares e quebra de suas obrigações em relação ao banco norte-americano.
"A linguagem da Corte tem de ser mais forte"
"O PT", conta Dantas, "abordou Carlos Rodenburg (ex-diretor do banco) dizendo que eles tinham dificuldades. Na época, pelo que me lembro, Carlos me reportou que Delúbio Soares teria dito a ele que o partido era uma coisa separada do governo. Que, na verdade, existia uma necessidade financeira do partido, de uns US$ 50 milhões, decorrente de despesas e coisas que o valham, e que isso não tinha nada a ver com o governo. Ele entendeu, não sei se o sr. Delúbio Soares disse ou não, que era possível que nós pudéssemos 'ser úteis' a essas dificuldades, que eles poderiam tentar diminuir as hostilidades que vínhamos sofrendo do governo".
"Ou seja, se pagasse ao PT, o Opportunity deixaria de ter dificuldades junto ao governo", conclui a repórter.
"Esse resumo que você está fazendo, e que a Veja tentou fazer, não aconteceu. Ele [Delúbio] nunca disse que, se porventura nós pudéssemos contribuir e ajudar nas dificuldades [do PT], que de forma automática cessariam as hostilidades", rebate Dantas.
Em trecho mais à frente, a repórter indaga: "O sr. foi extorquido pelo PT ou representantes do governo?". Dantas responde: "Não".
"Mas isso não contradiz sua defesa no processo em Nova York?", replica Janaina Leite.
"A linguagem da Corte tem de ser uma linguagem mais forte, mais firme".
"Perdoe-me, mas ou o sr. foi extorquido ou não foi?"
"Ninguém chegou para mim e disse que, se fosse feito um pagamento de tanto, acabariam todos os problemas. Isso não aconteceu: seria chantagem. O que aconteceu é que foi 'sugerida' a contribuição e o pagamento não foi feito, exatamente como está nos documentos. Tínhamos contratos que foram descumpridos, colocaram pressão contra nós e fomos discriminados. Fato é que fomos prejudicados".