Entrar
Cadastro
Entrar
Publicidade
Publicidade
Receba notícias do Congresso em Foco:
Congresso em Foco
25/2/2007 | Atualizado às 19:25
Escolhido para representar o Brasil e mais oito países da América Latina no Fundo Monetário Internacional (FMI), o economista Paulo Nogueira Batista Jr., 51 anos, é conhecido pelas duras críticas à política de juros altos do Banco Central. Sua indicação pode representar o desejo de pelo menos uma parte do governo de ver no segundo mandato de Lula uma política econômica menos ortodoxa do que a praticada até aqui.
Professor e pesquisador da Fundação Getúlio Vargas em São Paulo desde 1989, há anos Paulo Nogueira é colunista da Folha de S. Paulo. Em seus textos e entrevistas, sempre defendeu que o país não está distante do crescimento, mas que, para isso, precisa mudar a estratégia do Banco Central. Nos seus artigos, ele aponta os motivos para a estagnação do primeiro mandato de Lula, mas demonstra ter esperança em mudanças no segundo mandato.
“Os numerosos porta-vozes da ortodoxia continuam batendo na mesma tecla. Clamam por mais ajustamento das contas públicas, em especial por cortes de gastos correntes não-financeiros. Querem que o governo se engaje em novas rodadas de reformas espinhosas, que pressupõem pesadas negociações no Congresso. Tudo indica, entretanto, que o presidente Lula já não dá mais tanta atenção a essas sugestões. Ele parece ter compreendido que não haverá retomada do desenvolvimento sem uma ação deliberada e sistemática do Estado no sentido de promover a expansão da economia”, argumentou em texto publicado pela Folha no último dia 7 de janeiro.
O antigo diretor-executivo do Brasil no FMI, Eduardo Loyo, pediu para deixar o cargo alegando motivos pessoais. Ele era defensor da política econômica ortodoxa, que caracterizou o primeiro mandato de Lula é a marca registrada da atual diretoria do BC, a começar pelo seu presidente, Henrique Meirelles. Ex-vice-presidente do Bank Boston e deputado federal eleito pelo PSDB de Goiás em 2002, Meirelles renunciou ao mandato para assumir a presidência do Banco Central. Desde então, tem operado com carta branca as políticas monetária e cambial, quase sempre numa linha bem mais conservadora que a pregada pela maioria dos petistas e até mesmo por vários empresários.
Mês passado, por exemplo, o BC jogou um balde de água fria nas esperanças de um iminente surto de desenvolvimento econômico ao reduzir em apenas 0,25 ponto percentual a taxa de juros dias após o anúncio do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Defendido pelos consultores e pelo sistema financeiro, o comportamento do BC incomoda a um número cada vez maior de políticos (de diversos partidos), empresários da indústria e do comércio e outros críticos, que o co-responsabilizam pela baixa média de crescimento alcançada pelo Brasil nos últimos anos. Ela tem sido inferior tanto à média mundial quanto à da América Latina, ficando ainda a milhas de distância das taxas obtidas por nações emergentes como a China e a Índia.
Críticas às estratégias do governo
No citado episódio pós-PAC, Paulo Nogueira Batista Júnior não ficou nem um pouco surpreso com a atitude do BC. “Quem garante que o comando do banco, xiita como é, não frustrará a expectativa do mercado de um declínio gradual dos juros?”, perguntou.
Mas sua insatisfação com a política econômica adotada pelo governo não é recente. Em 27 de janeiro de 2005, o economista escreveu um artigo chamado “O Brasil precisa crescer mais”, no qual não poupou palavras para demonstrar sua indignação com a política econômica conservadora em curso.
“Temos que carregar nas costas a ortodoxia de galinheiro que reina em Brasília. A vontade de investir e gerar empregos esbarra sempre na mentalidade de anticrescimento que predomina na área econômica do governo, especialmente no Banco Central. A combinação de juros altos e câmbio valorizado já está fazendo estragos e irá prejudicar a expansão da economia, especialmente se se confirmarem as previsões de uma deterioração do cenário mundial”, escreveu.
Em entrevista concedida em agosto do ano passado à Folha, ele defendeu que o uso de reservas para quitar dívidas antecipadamente com o FMI aumentava a vulnerabilidade e a dívida interna do país. "É uma situação esdrúxula. Trocamos dívida externa relativamente barata por dívida interna, que é caríssima. Parece que alguém quer fazer gol contra", afirmou.
Desenvolvimento ''light''
Na opinião de Paulo Nogueira Batista Jr., no primeiro mandato de Lula, prevaleceu uma “concepção liberal-conservadora de um Estado basicamente passivo, cuja função seria ajustar as contas públicas, combater a inflação e realizar reformas microeconômicas”.
A idéia era reduzir os gastos e aumentar os juros para produzir um superávit primário e assim esperar pelo crescimento. Mas como a estratégia não deu certo, o economista acredita que o governo terá um papel mais ativo a partir deste ano.
“O PAC reflete uma nova concepção, em que o Estado volta a ter um papel mais ativo na promoção do desenvolvimento, como investidor em áreas estratégicas e indutor de investimentos privados”, destaca Nogueira. “A mudança em curso pode ser excessivamente cautelosa ou lenta, mas ela é significativa”, acrescenta.
Para o economista, o governo está migrando, mesmo que aos poucos, para o desenvolvimentalismo. “Talvez um desenvolvimentalismo light”, ressalta.
Sem contradição
Apesar do perfil crítico, Paulo Nogueira Batista Jr. não vê contradição em sua indicação: “O papel dessa pessoa que lá está não é defender o FMI, é defender os interesses do Brasil e do conjunto de nove países que ele representa, junto ao FMI. As atenções, as ênfases, estão voltadas para uma postura mais ativa na promoção do desenvolvimento”, disse o economista logo após o anúncio do ministro da Fazenda, Guido Mantega, de quem foi colega de magistério na Fundação Getúlio Vargas.
Mantega, não se pode esquecer, foi o grande vitorioso com a nomeação do economista. Ganha pontos na sua batalha por mais ousadia do BC na condução das políticas cambial e monetária.
Em seu mais recente livro, O Brasil e a economia internacional: recuperação e defesa da autonomia nacional, Batista Jr. apresenta uma análise das relações econômicas externas do Brasil nos últimos 10 anos. De acordo com o próprio autor, o objetivo principal da publicação é "contribuir um pouco para que o Brasil supere definitivamente os descaminhos e problemas herdados da década de 1990 e retome o seu desenvolvimento como nação independente". Entre os tópicos do livro, ele apresenta “meios para reduzir a dependência do Brasil em relação a capitais estrangeiros e outras variáveis externas”.
Caso tenha o nome aceito pelo FMI, Paulo Nogueira Batista Jr. assumirá o cargo de diretor-executivo do Brasil no Fundo Monetário Internacional em abril. Ele também representará Colômbia, Equador, Guiana, Haiti, Panamá, República Dominicana, Suriname e Trinidad e Tobago. O currículo do economista traz uma informação que lhe garante o título de herege nos círculos financeiros. Na condição de negociador da dívida externa brasileira, foi um dos responsáveis pela decretação da moratória brasileira nos anos 1980.
Temas
Regularização Fundiária
Câmara aprova prorrogação do prazo para regularizar imóveis rurais
MEMÓRIAS DA DITADURA
46 anos da Lei da Anistia: sessão do Congresso teve vaias e socos