Fiel escudeiro do governo Lula no Congresso, o presidente do Senado,
Renan Calheiros (PMDB-AL), critica a política econômica do ministro Antonio Palocci (Fazenda) e defende uma candidatura própria do PMDB ao Palácio do Planalto em 2006. Acusado pela ala oposicionista do partido de defender o governo com interesse de ser o vice de Lula nas próximas eleições, Renan diz que pretende disputar o governo de Alagoas no próximo ano.
Em entrevista exclusiva a O Estado de S. Paulo, o senador aponta o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Nelson Jobim, e o governador de Pernambuco, Jarbas Vasconcelos, como nomes mais fortes do partido para a sucessão presidencial.
"É muito difícil o PMDB se aliar a qualquer partido nesta eleição, inclusive o PT. A governabilidade nunca se entrelaçou com nosso compromisso eleitoral para 2006. Isto foi dito com todas as letras ao presidente Lula e repetido por ele ao partido. Sempre deixamos claro o compromisso com a candidatura própria, que hoje é fator de coesão interna", diz.
"Acho que Jarbas e Jobim têm os melhores perfis para disputar a Presidência. Jarbas governa um importante Estado do Nordeste, tem o que mostrar do ponto de vista da gestão, não tem rabo de palha, unifica o partido e se relaciona bem com prováveis aliados. Jobim, neste cenário revolto de crise, pode emprestar seu talento para uma candidatura alternativa, com grandes chances de vitória", completa.
Renan defende o adiamento das prévias para a escolha do partido, marcadas para abril, para que os governadores possam participar da disputa. "Sou a favor de adiar as prévias e por um motivo simples: se ocorrerem antes de abril, prazo para desincompatibilização (dos candidatos com cargos no governo e dos magistrados), estaremos alijando os governadores, e isto não é justo".
Na entrevista, o senador critica o presidente do próprio partido, deputado Michel Temer (SP), defensor do rompimento do PMDB com o governo. Indiretamente, Renan acusa Temer de confundir, "de forma proposital", governabilidade com eleição. "Com o tamanho do desafio que temos em 2006, o presidente do partido deveria trabalhar mais com a cabeça e menos com o fígado."
Quanto ao governo Lula, o presidente do Senado centra suas críticas na política econômica. Diz que o país vive uma situação de opressão tributária e que a política monetária desfez os ganhos da política fiscal. "Está na hora de rever isso. Está claro que o Banco Central errou a dosagem. Mas ainda há tempo para reverter isto com mais ousadia", defende.
Ousadia, aliás, que falta a Palocci, diz o peemedebista. "Lula comparou o Palocci ao Ronaldinho, mas não acho que ele seja o Ronaldinho da Esplanada. Está mais para um meio de campo eficiente, duro, um marcador implacável. Ronaldinho é audacioso, arrojado. Para se tornar goleador tem de ter mais jogo de cintura, ser mais versátil, passar mais a bola e ser menos fominha. Basta ver o placar do investimento. Até agora o governo executou apenas 16,7% do previsto no orçamento."