O ministro Alexandre de Moraes afirmou que o assassinato da vereadora Marielle Franco envolveu motivações políticas, racismo e misoginia. A declaração foi feita nesta quarta-feira (25), durante a leitura de seu voto pela condenação de todos os réus como relator no julgamento da ação penal 2434, na 1ª Turma do STF.
Ao analisar o contexto do crime, o ministro destacou o simbolismo da escolha do alvo. Segundo ele, Marielle era "uma mulher preta, pobre, que estava, diremos no popular, peitando os interesses de milicianos". Para Moraes, os mandantes imaginaram que o assassinato não teria tão grande repercussão.
"Juntou-se a questão política com a misoginia, com o racismo, com a discriminação. Marielle Franco era uma mulher preta, pobre, que estava enfrentando os interesses de milicianos. Que recado mais forte poderia ser dado? E, na cabeça preconceituosa dos mandantes e executores, era: 'Quem iria ligar para isso?'. Essa é a cabeça de 50, 100 anos atrás. 'Vamos eliminá-la, e isso não terá grande repercussão'. Na própria delação, Ronnie Lessa fala sobre a preocupação posterior dos mandantes com a repercussão, porque eles não esperavam".
O relator mencionou trechos da delação de Ronnie Lessa, executor do crime. Segundo Moraes, o colaborador relatou a preocupação posterior dos mandantes com a dimensão da reação pública.
"Eles não esperavam tamanha repercussão. E a partir disso, uma série de queimas de arquivos, não foi só o Macalé que foi morto, isso gerou um efeito dominó, porque a repercussão foi muito grande", disse o ministro.
Pedra no caminho
Ao tratar da motivação, o relator destacou que Marielle teria sido vista como obstáculo aos interesses da organização criminosa. "A Marielle foi colocada como uma pedra no caminho." Segundo o voto, a vereadora pretendia enfrentar loteamentos ilegais e atuação de milícias em Jacarepaguá e arredores.
"A motivação do crime é o afastamento de uma oposição política e a manutenção dos negócios da organização criminosa."
"Quando diz que ela é uma pedra no caminho, tem que sair fora. Obviamente, na linguagem miliciana, na linguagem da bandidagem, ela está decretada significa que a morte dela estava encomendada e seria realizada como foi e ele próprio explica isso, ela está decretada, é o decreto de morte dela", afirmou o relator.
Violência política de gênero
O ministro acrescentou que o caso deve ser entendido como violência política de gênero. Além disso, Moraes destacou que o assassinato de Marielle ocorreu em decorrência de homens brancos milicianos quererem silenciar uma mulher preta que foi de encontro aos interesses deles.
"O assassinato de Marielle Franco precisa ser compreendido não apenas como um atentado contra uma parlamentar ou um crime por fins financeiros, mas também como um episódio de violência política de gênero destinada a interromper a atuação de uma mulher, uma mulher pobre, uma mulher preta, que ousou ir de encontro aos interesses de milicianos homens, brancos e ricos."
Moraes tambéu destacou que o assassinato tinha como motivação não neutralizar apenas a atuação de Marielle, mas todo o Psol na Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro.