Com a saída de Fernando Haddad do Ministério da Fazenda esperada para os próximos dias, Dario Durigan desponta como o nome mais provável para assumir o comando da pasta. O próprio ministro já sinalizou que seu atual secretário-executivo é um nome natural para a sucessão, embora tenha ressaltado que a decisão final cabe ao presidente Lula. Nos bastidores, a eventual troca é tratada como a opção de continuidade da política econômica do terceiro mandato de Lula.
A movimentação ocorre no momento em que o PT e o Palácio do Planalto trabalham para lançar Haddad ao governo de São Paulo. O ministro resistiu por meses à ideia de disputar a eleição, mas acabou sendo pressionado por Lula e pelo partido a enfrentar o governador Tarcísio de Freitas, em uma disputa vista como estratégica para garantir ao presidente um palanque forte no maior colégio eleitoral do país. Pelas regras eleitorais, ministros que pretendam concorrer em outubro precisam observar o prazo de desincompatibilização, que vence em 4 de abril.
O número 2 da Fazenda
Se a confirmação vier, Durigan chegará ao cargo como o "copiloto" de Haddad. Ele é secretário-executivo da Fazenda desde junho de 2023, quando substituiu Gabriel Galípolo, então indicado para a diretoria de Política Monetária do Banco Central. Na prática, ocupa o posto de número 2 da pasta e já vinha sendo preparado para assumir mais protagonismo, tanto na gestão interna quanto na interlocução com outras áreas do governo e com o mercado.
Dario Durigan é chamado nos bastidores de "CEO" da Fazenda porque, como secretário-executivo, exerce na prática o papel de gestor da engrenagem interna do ministério. É ele quem organiza fluxos, distribui tarefas, cobra entregas, centraliza informações e ajuda a transformar decisões políticas em execução administrativa. O apelido resume a imagem de Durigan como o operador que faz a máquina do ministério funcionar no dia a dia, mesmo sem ser o titular do cargo.
Formação fora do figurino clássico
O secretário-executivo nasceu em Bebedouro (SP), a 250 km da capital paulista, e tem 41 anos. Sua formação acadêmica foge ao perfil tradicional de ministro da Fazenda. Ele é advogado, formado em Direito pela USP, com mestrado pela UnB. Sua trajetória está mais ligada a políticas públicas, articulação institucional e desenho jurídico de políticas econômicas do que à economia acadêmica ou ao mercado financeiro tradicional. Ainda assim, esse perfil híbrido ajuda a explicar por que ganhou espaço dentro da equipe de Haddad: é visto como operador técnico, gestor e negociador, mais do que como formulador econômico de perfil clássico.
Nesse ponto, ele se aproxima de outros ministros da Fazenda que não vinham da formação econômica tradicional. Fernando Henrique Cardoso era sociólogo; Antonio Palocci, médico. Haddad, por sua vez, é advogado e doutor em filosofia, embora tenha também mestrado em economia.
Trajetória no setor público e relação com Haddad
Antes da Fazenda, Durigan acumulou passagens por postos importantes da burocracia federal e da política paulista. Trabalhou na Casa Civil da Presidência entre 2011 e 2015, no governo Dilma Rousseff, em temas jurídicos e estratégicos. Depois, foi assessor especial de Haddad na Prefeitura de São Paulo, entre 2015 e 2016, em funções ligadas à coordenação entre secretarias e à interlocução com a Câmara Municipal. Também passou pela Advocacia-Geral da União e, fora do governo, chefiou a área de políticas públicas do WhatsApp no Brasil entre 2020 e 2023.
Essa trajetória ajuda a desenhar seu perfil político. Durigan é menos eleitoral e menos partidário do que Haddad, mas é profundamente integrado à rede de confiança do ministro e do Planalto. Sua passagem pela prefeitura paulistana consolidou a relação com Haddad; a ida à Fazenda transformou essa confiança em poder de gestão.
O que ele pensa
No conteúdo das falas públicas, Durigan aparece como defensor de uma linha de continuidade com viés fiscalista moderado. Em março deste ano, afirmou que a situação fiscal do país "melhorou muito" nos últimos três anos e defendeu uma estratégia de "gradualismo" para garantir estabilidade econômica. Na mesma fala, vinculou essa estratégia à revisão de benefícios fiscais, à preservação da trajetória de crescimento e à implementação da reforma tributária.
Também há um traço moralizante em suas posições mais recentes. No início de março, Durigan defendeu que a reforma administrativa "deve começar no andar de cima", com regulamentação nacional dos supersalários e limitação de penduricalhos.
Na agenda tributária, o secretário-executivo tem sido um porta-voz fiel da linha Haddad. Em outubro de 2025, disse que a gestão da Fazenda queria deixar como legado três pilares: "soberania, combate ao crime organizado e justiça tributária". Nessa formulação, justiça tributária significa tributar melhor a renda e o patrimônio, aliviar o peso sobre salários e sustentar medidas como a tributação de offshores, fundos exclusivos, apostas on-line e a revisão de incentivos fiscais.
Nome de continuidade
Esse perfil tende a ser bem recebido por parte do mercado justamente por sinalizar previsibilidade. Como Durigan já participa diretamente da implementação do arcabouço fiscal e da reforma tributária, sua eventual nomeação é lida como continuidade, não como ruptura. Ao mesmo tempo, esse pode ser seu principal desafio: se assumir, herdará uma pasta poderosa em ano eleitoral, mas sem o mesmo capital político de Haddad para arbitrar conflitos, negociar impasses com o Congresso e resistir a pressões por gasto.
É por isso que, em Brasília, ele costuma ser descrito como o "CEO" do ministério: alguém que conhece a máquina, domina o fluxo decisório e fala a linguagem técnica sem romper com a lógica política do governo.