A filiação de Sergio Moro ao PL nesta terça-feira (24) encerra, ao menos por enquanto, uma das trajetórias mais sinuosas da direita brasileira nos últimos anos. Ex-juiz da Operação Lava Jato, Moro entrou no governo Jair Bolsonaro como símbolo da agenda anticorrupção. Depois, rompeu com o então presidente ao acusá-lo de tentar interferir na Polícia Federal. Em seguida, foi alvo de ataques do grupo bolsonarista, que o chamou de "Judas", "traíra" e "mentiroso". Também passou a criticar publicamente o núcleo político do ex-chefe. Agora, desembarca no Partido Liberal para disputar o governo do Paraná.
Entre o convite para assumir o Ministério da Justiça, em novembro de 2018, e a entrada no PL, em março de 2026, a relação entre Moro e os Bolsonaro atravessou quase todas as etapas possíveis: aproximação, aliança de governo, desgaste interno, ruptura institucional, troca de acusações, trégua eleitoral e, por fim, reconciliação pragmática.
Nesse período, houve gestos de apoio público, como quando Bolsonaro chamou Moro de "patrimônio nacional", mas também confrontos duros. Ao deixar o governo, em abril de 2020, o ex-ministro acusou Bolsonaro de tentar interferir politicamente na Polícia Federal. O então presidente reagiu dizendo que Moro agia movido pelo próprio ego, e não pelo interesse do país.
O reencontro agora tem menos relação com afinidade pessoal e mais com conveniência política. Para o PL, Moro oferece um nome competitivo no Paraná e um palanque relevante para a candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro. Para Moro, a filiação abre uma saída partidária viável depois do veto do PP à sua candidatura ao governo do estado pelo União Brasil, partidos que formam a federação União Progressita.
"Eu conto muito, Moro, com a sua força, com o seu palanque lá no Paraná. Espero que a gente possa levar esse projeto de prosperidade também para o Estado do Paraná", disse Flávio no ato de filiação do senador em Brasília. Moro prometeu espaço para o colega de partido: "O Paraná não vai faltar ao seu projeto presidencial. Vamos trabalhar para que Vossa Excelência tenha vitória, uma grande vitória no nosso Estado, que será uma vitória para o nosso país".
Entre idas e vindas, veja a relação entre Moro e Bolsonaro:
30 de março de 2017: o dia em que Moro não reconheceu Bolsonaro
Um dos primeiros episódios públicos envolvendo os dois aconteceu em 30 de março de 2017, no aeroporto de Brasília. Jair Bolsonaro, então deputado, tentou cumprimentar o juiz Sergio Moro, bateu continência, e a cena viralizou porque Moro pareceu não reconhecê-lo e seguiu adiante. Dias depois, Bolsonaro disse que queria crer que o juiz "não o reconheceu", e, semanas mais tarde, Moro telefonou para se explicar, afirmando que de fato não o havia reconhecido. O episódio virou uma espécie de prólogo simbólico da relação entre os dois.
1º de novembro de 2018: juiz aceita convite de Bolsonaro parar virar ministro
Após vencer a eleição, Bolsonaro convidou Moro para chefiar o Ministério da Justiça. Em 1º de novembro de 2018, o então juiz aceitou o convite e anunciou publicamente que entraria no governo. Era o auge da convergência: Bolsonaro ganhava um nome de grande popularidade na pauta anticorrupção, e Moro dava o passo que o tirava definitivamente da magistratura e o levava à política. Para entrar na política, ele renunciou à magistratura.
1º de janeiro de 2019: Moro vira superministro e símbolo do governo
Na largada do governo, Bolsonaro tratou Moro como peça central da gestão, falando em "carta branca" para o combate ao crime e à corrupção. Em agosto de 2019, chegou a chamá-lo de "patrimônio nacional", numa tentativa de sinalizar prestígio e conter ruídos sobre a relação entre os dois. Esse foi o período em que Moro ainda aparecia como um dos ministros mais fortes e mais bem avaliados do governo.
Abril de 2019: rusgas começam a desgastar a relação
O desgaste começou cedo. Moro se queixava da falta de empenho do governo com seu pacote anticrime e enfrentou atritos em torno do Coaf e do grau de autonomia do Ministério da Justiça. No mesmo período, Bolsonaro passou a demonstrar incômodo com o protagonismo político do ministro e com a Polícia Federal. Em agosto de 2019, no contexto da troca do comando da PF no Rio, o presidente explicitou a disputa por controle. "Eu dou liberdade para os ministros todos. Mas quem manda sou eu", declarou.
Janeiro de 2020: disputa pela Polícia Federal implode a relação
A relação entrou em fase crítica entre o fim de 2019 e o primeiro quadrimestre de 2020. Em depoimento posterior à PF, Moro relatou ter sofrido nesse período pressões de Bolsonaro sobre a superintendência da PF no Rio, tentativas de troca no comando da corporação e insistência do presidente para ter nomes de sua confiança em postos-chave. O embate deixou de ser apenas político e passou a girar em torno da autonomia institucional da Polícia Federal. A intenção do então presidente, segundo Moro, era blindar familiares e aliados de investigações da PF.
Maio de 2020: Moro deixa o governo atirando
A ruptura veio em 24 de abril de 2020, quando Moro deixou o Ministério da Justiça. Ao sair, acusou Bolsonaro de tentar interferir politicamente na Polícia Federal, tendo como estopim a exoneração do diretor-geral Maurício Valeixo, indicado por ele. Moro disse que precisava "preservar a biografia" e reclamou da falta de apoio presidencial à agenda anticorrupção. Bolsonaro reagiu dizendo que o ex-ministro tinha interesses próprios e insinuando que ele queria uma vaga no Supremo. Foi o momento em que a divergência interna virou confronto aberto.
7. Maio de 2020: "Judas", inquérito e guerra pública
A saída de Moro levou à abertura de um inquérito no STF e à divulgação da famosa reunião ministerial em que Bolsonaro dizia que mudaria quem fosse necessário para proteger sua família e seus aliados. No dia em que Moro depôs à PF, Bolsonaro o chamou de "Judas" e disse que ele tinha compromisso com o próprio ego, não com o Brasil. A partir daí, Moro virou alvo constante do bolsonarismo, e a militância que antes o exaltava passou a tratá-lo como "traidor", "mentiroso" e "traíra".
Novembro de 2021: Moro entra na corrida presidencial e amplia a briga
No fim de 2021, Moro lançou sua pré-candidatura à Presidência. O gesto consolidava sua tentativa de ocupar um espaço de terceira via, em oposição tanto a Lula quanto ao bolsonarismo. Bolsonaro passou então a atacá-lo de forma mais explícita. Em dezembro daquele ano, chamou o ex-ministro de "idiota" e debochou de sua atuação no governo, afirmando que ele "nunca abriu a boca" nas reuniões ministeriais.
Janeiro de 2022: ataques a Valdemar e Bolsonaro
Já fora do governo e ainda como pré-candidato ao Planalto, Moro elevou o tom contra o bolsonarismo. Entre as declarações mais marcantes daquele período, disse que "quem manda no Bolsonaro é Valdemar Costa Neto", numa crítica à influência do presidente do PL sobre o então chefe do Executivo. A frase cristalizou a fase em que Moro tentava se descolar completamente de Bolsonaro e se apresentar como antagonista do arranjo bolsonarista.
Outubro de 2022: "Apaga-se o passado"
A trégua veio no segundo turno das eleições presidenciais de 2022. Já eleito senador pelo Paraná, Moro declarou apoio a Bolsonaro contra Lula. O gesto produziu a primeira reconciliação pública entre os dois. Em 4 de outubro de 2022, Bolsonaro respondeu dizendo: "Apaga-se o passado". Em outro afago, declarou que Moro havia mostrado ao país "o que era corrupção". Também disse que estava "superado tudo" e que poderia haver um "novo relacionamento" dali em diante.
2023 e 2024: nem a oposição a Lula esquenta a relação
Depois da derrota de Bolsonaro, a relação deixou de ser de confronto diário, mas não virou aliança automática. Moro se consolidou como uma das vozes de oposição ao governo Lula no Senado e, em alguns momentos, convergiu com o bolsonarismo em temas centrais. Ao mesmo tempo, persistiam tensões com setores do PL e do entorno do ex-presidente. A relação entrou numa fase mais pragmática do que afetiva: menos guerra pública, mais cálculo político.
Maio de 2024: PL se alia ao PT para tirar o mandato do senador
Em maio de 2024, o TSE rejeitou por unanimidade os pedidos do PL e do PT para cassar o mandato de Sergio Moro no Senado. Os dois partidos acusavam Moro de obter vantagem indevida com gastos elevados no período em que ainda era pré-candidato à Presidência pelo Podemos. O presidente do PL, Valdemar Costa Neto, admitiu que sofreu pressão interna para retirar a ação, mas decidiu levá-la até o fim.
Setembro de 2025: Moro sai em defesa de Bolsonaro no julgamento do golpe
Quando o STF condenou Bolsonaro a 27 anos e 3 meses por tentativa de golpe, Moro criticou publicamente o resultado, dizendo que as penas eram "excessivas" e que o caso não deveria ter sido julgado na própria Corte. Foi um gesto politicamente relevante porque mostrava Moro não apenas em convivência civil com Bolsonaro, mas já em posição de defesa pública do ex-presidente num caso central para o bolsonarismo.
18 de março de 2026: Flávio Bolsonaro patrocina a reaproximação final
A nova virada veio com a articulação para 2026. Com Ratinho Junior cogitado para a disputa presidencial, o clã Bolsonaro decidiu apostar em Moro para o governo do Paraná como forma de garantir um palanque competitivo para Flávio Bolsonaro, pré-candidato do PL ao Planalto. O apoio foi costurado com participação direta de Flávio e venceu resistências internas no partido. Nessa segunda-feira (23), Ratinho anunciou a retirada de sua pré-candidatura para focar na eleição paranaense. Segundo aliados, um dos seus principais objetivos é impedir a vitória de Moro, que atualmente lidera as pesquisas para governador. Embora tenham sido eleitos em mesma chapa em 2022, os dois romperam mais recentemente.
24 de março de 2026: filiação ao PL fecha ciclo de reaproximação com Bolsonaro
A filiação de Moro ao PL nesta terça-feira fecha esse ciclo de reaproximação. O ex-juiz que virou "superministro", depois "Judas", depois adversário presidencial e depois apoiador tático no segundo turno, agora passa a integrar o partido de Bolsonaro para disputar o governo do Paraná. Mais do que uma reconciliação sentimental, trata-se de uma recomposição pragmática: o PL ganha um palanque forte no Estado, e Moro ganha uma legenda competitiva para 2026.