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Filiação de Moro causa crise e debandada no PL do Paraná: "Traidor"

Chegada do senador ao partido detonou a desfiliação do deputado Giacobo, presidente estadual da sigla, e rebelião de 48 dos 53 prefeitos da legenda no Estado.

27/3/2026
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A filiação do senador Sergio Moro ao PL, sacramentada nesta semana com o aval de Flávio Bolsonaro e de Valdemar Costa Neto, abriu uma crise sem precedentes no partido no Paraná. O movimento provocou a desfiliação do presidente estadual da legenda, o deputado Fernando Giacobo, após 24 anos de atuação na sigla, e desencadeou uma debandada de prefeitos alinhados ao grupo do governador Ratinho Júnior (PSD). Ao anunciar o rompimento, Giacobo resumiu o tamanho da fissura: "Não fui eu que quebrei acordo nenhum. Não fui eu que filiei o Moro para ser candidato a governador, que não é o candidato do Ratinho."

O deputado liderou, nessa quinta-feira (26), um encontro em desagravo ao governador Ratinho Júnior (PSD), com a presença de 48 dos 53 prefeitos da sigla no Estado. A expectativa de Giacobo é que quase todos eles deixem o PL em apoio ao governador e repúdio à chegada de Moro, que será o candidado do partido ao governo estadual.

Giacobo deixou a presidência do PL no Paraná e se desfiliou do partido após 24 anos, em protesto contra a filiação de Sergio Moro, a quem chamou de "traidor".Zeca Ribeiro/Agência Câmara e Jefferson Rudy/Agência Senado

"Biografia na lata de lixo"

Em seu discurso aos aliados, Giacobo disse que não poderia "jogar [sua] biografia na lata do lixo" e recorreu a uma frase que atribuiu a Flávio Bolsonaro para enquadrar Moro como um aliado inaceitável: "A gente perdoa a traição, mas não esquece o traidor." A declaração concentrou o sentido político do rompimento: Giacobo procurou mostrar que sua saída não significava afastamento do bolsonarismo, mas rejeição ao retorno de um antigo desafeto da família Bolsonaro ao centro do projeto eleitoral do partido.

A crise explodiu porque a direção nacional do PL decidiu apostar em Moro para disputar o governo do Paraná justamente quando a ala local trabalhava em outro arranjo: apoiar o nome escolhido por Ratinho Júnior para o Palácio Iguaçu e, em troca, garantir espaço para o partido na chapa, com o deputado Filipe Barros ao Senado. Segundo Giacobo, foi esse acordo que a cúpula nacional atropelou.

Filipe Barros apoiou a entrada de Moro no PL. Além de se manter candidato ao Senado, o deputado assumirá a presidência estadual do partido.

Moro se filiou ao partido na terça-feira (24), um dia depois de Ratinho Júnior anunciar a retirada de sua pré-candidatura à Presidência da República. Com isso, o governador passou a concentrar esforços na sucessão estadual, tornando ainda mais sensível a disputa pelo comando político da direita no Paraná. Nesse ambiente, a entrada de Moro deixa de ser apenas uma filiação partidária e passa a funcionar como gatilho de uma guerra interna.

Giacobo transforma divergência em rompimento político

Em postagem divulgada após o ato em Curitiba, Giacobo afirmou ter oficializado sua saída "após 24 anos de história, trabalho e construção" e disse que a decisão foi tomada para "seguir ao lado dos municípios e apoiar o governador Ratinho Junior". Ao mesmo tempo, procurou se blindar de qualquer leitura de ruptura com o ex-presidente. "Sigo sendo o mesmo: de direita, apoiando o nosso sempre presidente Bolsonaro", ressaltou.

Antes da chegada do senador, Giacobo chegou a colocar o próprio nome à disposição para disputar o governo, com apoio de prefeitos e de setores do partido no interior. Também tentou se viabilizar por meio de uma pesquisa contratada pelo diretório nacional, na qual aparecia associado ao apoio de Flávio Bolsonaro. A divulgação do levantamento, porém, acabou barrada por liminar do TRE-PR.

O deputado também explicou por que considera impossível posar ao lado de Moro. "Como que eu vou concordar em receber no nosso partido (...) um cidadão que, quando saiu do Ministério da Justiça, dizia que iria derrubar o presidente da República e ia pôr ele na cadeia porque ele era corrupto?", afirmou. Em seguida, reforçou: "Eu não tenho como ir na filiação de um cidadão e tirar foto com ele, porque eu tenho coerência e tenho lado."

O presidente da Associação dos Municípios do Paraná, Marcel Micheletto, explicitou o lado escolhido por esse grupo. "Ninguém aqui vai soltar a mão do maior governador da história do Paraná", afirmou, em defesa de Ratinho Júnior.

De "traidor" a aliado eleitoral

A crise no Paraná também escancara uma das reviravoltas mais delicadas do campo bolsonarista. A relação de Moro com a família Bolsonaro foi marcada por aproximações e rompimentos sucessivos. O ex-juiz entrou no governo em 2019 como símbolo da agenda anticorrupção, virou ministro forte, rompeu com Bolsonaro em 2020 ao acusá-lo de tentar interferir na Polícia Federal e, a partir daí, passou a ser tratado pelo então presidente e seus filhos como "Judas", "traidor", "traíra" e "mentiroso".

Depois vieram a trégua no segundo turno de 2022, quando Moro apoiou Bolsonaro contra Lula, a tentativa do próprio PL de cassar o mandato do senador em 2024 e, por fim, a reaproximação costurada agora por Flávio Bolsonaro. No ato de filiação, Flávio resumiu o cálculo político da aliança: "Precisamos do Paraná nesse projeto nacional." Moro respondeu no mesmo tom: "O Paraná não vai faltar ao seu projeto presidencial."

O senador lidera, até agora, as pesquisas para o governo do Estado, enquanto Ratinho ainda não definiu quem lançará à própria sucessão. Para o PL nacional, Moro oferece um palanque forte em um estado estratégico para o projeto presidencial do grupo Bolsonaro. Para Moro, o partido abre uma rota competitiva depois do bloqueio enfrentado na federação União Progressista, onde o União Brasil o apoiava, mas o PP resistia à candidatura.

O pano de fundo da crise é a decisão de Ratinho Júnior de desistir da corrida presidencial e permanecer no governo até o fim do mandato. Ao fazer isso, ele concentrou forças na sucessão estadual e transformou a eleição do Paraná em uma disputa direta entre seu grupo e a candidatura de Moro. Com o governador em campo, a aposta do PL no senador deixou de ser apenas uma estratégia nacional e passou a ser vista, no Estado, como rompimento com uma aliança que vinha sendo construída.

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