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Aberta a temporada de caça: Flávio Bolsonaro no centro do alvo

Com o fim da desincompatibilização, a eleição de 2026 ganha ritmo. Flávio Bolsonaro sai da calmaria e vira alvo. A disputa tende à polarização com Lula, com ataques e reviravoltas no horizonte.

5/4/2026
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Com o encerramento do prazo de desincompatibilização e, em muitos casos, das renúncias estratégicas de ocupantes de cargos públicos, a eleição de 2026 deixa o terreno das especulações e ingressa, finalmente, na arena real. Até aqui, o que se via era aquecimento. Agora, é jogo valendo.

A experiência brasileira mostra que esse marco institucional funciona como um verdadeiro "tiro de largada". Enquanto agentes públicos ainda ocupam seus cargos, o ambiente é de contenção, cálculo e, muitas vezes, silêncio. A partir do momento em que se afastam, a política volta ao seu estado natural: movimento, confronto e narrativa.

No plano presidencial, isso se torna ainda mais evidente.

Até aqui, o nome de Flávio Bolsonaro vinha navegando em mar relativamente calmo. Percorreu o país, testou discursos, fez movimentos inclusive no exterior, tudo sob uma atmosfera em que, embora Luiz Inácio Lula da Silva seja o candidato natural à reeleição, não havia propriamente uma oposição consolidada em campo com força equivalente.

E ele estava, em certa medida, sozinho porque havia um fantasma rondando os bastidores: Tarcísio de Freitas. Seu eventual ingresso na disputa era visto, sobretudo por setores do governo, como a hipótese mais competitiva. Não por acaso, o cenário acabou por manter Flávio em posição relativamente preservada, sem enfrentamento direto mais contundente, como se o tabuleiro ainda estivesse sendo montado.

Mas esse tempo acabou.

Com o calendário avançando e os atores devidamente posicionados fora de seus cargos, abre-se o período em que a disputa ganha densidade e, convenhamos, também temperatura. É quando pesquisas deixam de ser fotografia para se tornarem filme. Popularidade e rejeição passam a oscilar com maior intensidade. O eleitor começa a comparar, e os adversários, a atacar.

Em termos bem diretos, está aberta a temporada de exposição e, inevitavelmente, de desgaste.

E a data não deixa de ter um simbolismo curioso. Em pleno Páscoa, tempo litúrgico de renascimento e redenção, a política brasileira parece seguir outro calendário, o da paixão, no sentido mais terreno do termo, e, não raro, o do sacrifício eleitoral. Se há ressurreição nas urnas, ela costuma vir depois de um bom período de provação.

Flávio Bolsonaro sai da calmaria e vira alvo.Gerada por inteligência artificial

A velha lição da "cristianização"

A história eleitoral brasileira oferece um conceito útil para entender o momento, a chamada "cristianização". O termo remonta à candidatura de Cristiano Machado, lançada pelo PSD em 1950. Embora formalmente candidato, ele foi, na prática, abandonado por seu próprio partido, que apoiou Getúlio Vargas. Tornou-se, assim, um postulante sem sustentação real, "cristianizado", na linguagem política.

Desde então, o verbo ganhou vida própria. Cristianizar um candidato é lançá-lo à arena sem defesa suficiente, permitindo, ou até estimulando, que apanhe antes de consolidar musculatura eleitoral.

Pois bem. Flávio Bolsonaro corria o risco de ser cristianizado. Mas, ao contrário, passou por um período de preservação, o que, em política, não deixa de ser um ativo. Evitou-se que fosse testado precocemente em um ambiente hostil, o que poderia ter comprometido sua viabilidade antes da hora.

Mas, como ensina o calendário e a experiência, esse tipo de proteção tem prazo de validade.

Do treino ao combate

A partir de agora, o candidato terá de se apresentar ao grande público de forma mais direta e contínua. Não apenas como herdeiro político de um campo, mas como protagonista de um projeto próprio. E isso implica enfrentar o escrutínio em sua forma mais crua, com críticas, contrapontos, investigações narrativas e, claro, os inevitáveis petardos eleitorais.

Se até aqui havia um certo pacto tácito de não agressão frontal, ou, no mínimo, de seletividade nos ataques, o cenário tende a mudar rapidamente. A lógica da disputa presidencial brasileira não admite longos períodos de calmaria quando os nomes estão definidos.

E há, ainda, o colorido próprio do nosso folclore eleitoral. Outros nomes orbitam o cenário, como Ronaldo Caiado, Romeu Zema, Aldo Rebelo, Rui Costa Pimenta, Padre Kelmon e Cabo Daciolo, alguns deles com propostas que, por vezes, parecem mais talhadas para a Artemis II do que para o Palácio do Planalto. Ideias que, convenhamos, orbitam mais a estratosfera do que o chão duro da realidade política.

Mas, com todo respeito ao anedotário, que também faz parte da democracia, o desenho que se antevê é outro.

Polarização e voto útil

A tendência mais plausível, neste momento, é de uma disputa fortemente polarizada entre Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro. Se esse cenário se consolidar, não será surpresa que o eleitorado comece, desde já, a operar em lógica de voto útil.

Ou seja, diante da percepção de que são esses os dois nomes com reais chances de chegar ao segundo turno, parte do eleitor pode antecipar sua escolha, buscando resolver a eleição já na primeira rodada. Não seria a primeira vez que o Brasil ensaia, ainda que raramente concretize, esse tipo de movimento.

Tudo isso, porém, depende dos próximos capítulos. Porque, em política, como no teatro, o primeiro ato raramente define o desfecho. E, ao que tudo indica, ainda teremos muitos plot twists pelo caminho.

O que esperar

Os números divulgados até aqui, de intenção de voto, aprovação e rejeição, devem ser lidos com cautela. Eles refletem um ambiente ainda incompleto, com atores parcialmente em campo. A partir deste momento, tendem a sofrer variações mais bruscas, à medida que o confronto se explicita.

A política, afinal, não gosta de vácuos. E, uma vez preenchidos, cobra seu preço.

Em resumo, o que se tem diante dos olhos é a transição clássica do ensaio ao espetáculo, do cálculo ao embate. Ou, se preferirmos uma imagem mais direta, do aquecimento à luta.

E, como sempre ocorre nesses casos, ainda mais em tempos pascais, a pergunta que fica é simples, quase bíblica, quem será provado e quem resistirá?

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