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Lei Áurea: Congresso discutiu indenizar donos, não escravizados

A lei que extinguiu a escravidão coube em dois artigos e não previu terra, escola, trabalho ou indenização aos libertos. No Parlamento do Império, a reparação mais cobrada era para os antigos senhores.

11/5/2026
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A Lei Áurea aboliu a escravidão em duas frases. A primeira libertou. A segunda revogou. Nenhuma delas disse onde os libertos morariam, como trabalhariam, como estudariam ou de que forma seriam reparados depois de séculos de cativeiro.

Na véspera dos 138 anos da lei, a pergunta que permanece não é apenas como o Congresso acabou com a escravidão, mas por que o país declarou livres os escravizados sem aprovar o dia seguinte da liberdade.

O texto oficial da Lei nº 3.353 é seco. O artigo 1º declara extinta a escravidão no Brasil. O artigo 2º revoga as disposições em contrário. Não há referência a terra, escola, moradia, renda, trabalho livre, cidadania ou reparação.

Reprodução do manuscrito original da Lei Áurea.Reprodução

A lei também não indenizou os proprietários, ponto central de ruptura com a pressão escravista. Mas o silêncio em relação aos libertos produziu outra ausência histórica: o Estado não compensou os senhores nem organizou uma política nacional de inclusão para os ex-escravizados.

Esse vazio ajuda a explicar por que o 13 de maio é uma data incômoda. Para parte central do movimento negro, a abolição foi incompleta: extinguiu juridicamente o cativeiro, mas não reparou suas vítimas nem as integrou à vida social, econômica e política do país.

Desde 1971, quando o Grupo Palmares, de Porto Alegre, organizou a primeira manifestação alusiva a Zumbi dos Palmares em 20 de novembro, a memória negra passou a deslocar o eixo simbólico da princesa Isabel para a resistência quilombola. O Congresso incorporou essa mudança em 2011, ao instituir o Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra. Em 2024, o 20 de novembro tornou-se feriado nacional.

Quem seria indenizado

A indenização atravessou os debates finais da abolição. Mas os registros da Câmara e do Senado mostram que a pressão mais organizada não era por reparação aos escravizados. Era por compensação aos proprietários.

A lógica dos senhores partia de uma premissa jurídica hoje inaceitável: se o Estado tratava o escravizado como propriedade, libertá-lo sem pagamento equivaleria a eliminar patrimônio privado. Foi em torno dessa ideia que se organizaram muitas resistências à abolição imediata.

Senhora em uma liteira e dois homens escravizados na Bahia em 1880.Instituto Moreira Salles

No Senado, o Barão de Cotegipe, uma das principais vozes escravistas, sustentou que a legislação imperial reconhecia o escravizado como propriedade. Perguntou, então, como esse direito poderia desaparecer "de um traço de pena". A fala está nos Anais do Senado, na sessão de 12 de maio de 1888.

Paulino de Souza, senador pelo Rio de Janeiro, foi ainda mais direto. Para ele, a abolição destruía uma propriedade legal sem "prévia indenização". Na mesma intervenção, classificou a proposta como "anti-econômica" porque, segundo afirmou, desorganizaria o trabalho. A declaração foi dada na sessão de 13 de maio de 1888, de acordo com os Anais do Senado.

Na Câmara, Andrade Figueira também criticou a proposta por libertar os escravizados sem indenizar os senhores. A página histórica da Câmara sobre a Lei Áurea resume sua intervenção como crítica à tramitação, à insegurança social e ao prejuízo econômico decorrente da libertação sem compensação aos proprietários.

A assimetria é reveladora. A elite parlamentar discutiu com vigor a perda dos senhores. Debateu muito menos, e aprovou menos ainda, a reparação das vítimas do cativeiro.

A liberdade que ainda pagava o senhor

Antes da Lei Áurea, as leis graduais já mostravam como a liberdade era condicionada aos interesses dos proprietários.

A Lei do Ventre Livre, de 1871, declarou livres os filhos de mulheres escravizadas nascidos a partir de sua promulgação. Mas o senhor podia receber indenização do Estado ou usar os serviços dos chamados ingênuos até os 21 anos. A criança nascia juridicamente livre, mas sua liberdade continuava administrada dentro da casa senhorial.

Missa Campal de Ação de Graças em homenagem à abolição da escravatura realizada no dia 17 de maio de 1888, no Campo de São Cristóvão, no Rio. Princesa Isabel, conde D' Eu (ao fundo) e Machado de Assis (o segundo de baixo para cima, no canto direito).Antônio Luiz Ferreira/Instituto Moreira Salles

A Lei dos Sexagenários, de 1885, foi ainda mais explícita. Libertava escravizados com 60 anos ou mais, mas os obrigava a prestar serviços aos ex-senhores por até três anos "a título de indemnização pela sua alforria". A liberdade do idoso escravizado vinha acompanhada de uma dívida de trabalho ao antigo dono.

Esse mecanismo ajuda a entender a dupla natureza da Lei Áurea. Ela foi ruptura e ausência. Ruptura porque recusou a indenização aos proprietários. Ausência porque não transformou essa recusa em reparação aos libertos.

Os projetos que pensaram o dia seguinte

A ideia de organizar o pós-abolição chegou ao Parlamento, mas não venceu.

Em 1887, projetos no Senado previam medidas de transição social. Uma proposta de Dantas falava no fim da escravidão em 31 de dezembro de 1889 e no assentamento de ex-escravizados em glebas às margens de rios e ferrovias. Escragnolle Taunay propôs abolição no Natal de 1889, trabalho assalariado temporário e distribuição dos libertos pelo Império.

As propostas foram engavetadas pelo gabinete do Barão de Cotegipe. Não chegaram à Lei Áurea.

A consequência foi uma liberdade sem patrimônio, sem escola e sem política pública nacional de integração. O Congresso extinguiu juridicamente a propriedade de pessoas, mas não criou instrumentos para que os libertos ingressassem na vida livre em condições mínimas de igualdade.

O vazio do texto legal não é detalhe. É o centro da abolição brasileira.

Princesa Isabel é aplaudida por uma multidão no balcão do Paço da Cidade após sancionar a Lei Áurea.Reprodução/Marc Ferrez

A bancada escravista

A tramitação final foi rápida, mas não unânime. De acordo com registros do Senado, cinco senadores e nove deputados votaram contra a Lei Áurea.

No Senado, o Barão de Cotegipe liderou a resistência. Advertiu que o fim imediato do cativeiro provocaria uma "crise medonha" e uma "perturbação enorme" no país. Paulino de Souza, ligado ao Vale do Paraíba cafeeiro, também se opôs à abolição imediata sem indenização. Chamou o trabalho escravizado de "único trabalho organizado" em quase todo o país e se referiu à região do Paraíba como "oficina da riqueza nacional".

Na Câmara, os nove votos contrários ao artigo 1º foram de Barão de Araçagy, Bulhões de Carvalho, Castrioto, Pedro Luiz, Bezamat, Alfredo Chaves, Lacerda Werneck, Andrade Figueira e Cunha Leitão.

A linguagem do medo econômico já aparecia havia décadas. Em 1871, durante a discussão da Lei do Ventre Livre, o Visconde de Itaboraí advertiu que a medida poderia produzir "agitação", "insubordinação" e "desorganização do trabalho".

No mesmo debate, Teodoro da Silva, ministro da Agricultura, descreveu uma eventual abolição abrupta como risco de "completa deslocação" do trabalho agrícola. Previu também "ruína dos proprietários" e "empobrecimento do Estado".

Na Câmara, Lourenço de Albuquerque, deputado por Alagoas, afirmou que não se movia por "espírito reacionário", mas tratou a abolição como passo grave e manifestou temor de "miséria pública e particular".

Os abolicionistas no Parlamento

Do outro lado, parlamentares abolicionistas pressionaram por décadas, em ritmos e graus diferentes.

José Bonifácio levou a questão à Constituinte de 1823. Clemente Pereira abriu uma frente parlamentar contra o tráfico. Silveira da Motta e o Visconde de Jequitinhonha apresentaram propostas que limitaram abusos ou anteciparam soluções depois incorporadas à Lei do Ventre Livre.

Na reta final, Joaquim Nabuco tornou-se o nome mais conhecido da causa na Câmara. Em 1888, atuou para acelerar a tramitação da proposta do governo. Depois da aprovação, afirmou que a Câmara havia votado o projeto de extinção da escravidão e que a responsabilidade passava ao Senado. O trecho está no documento da Câmara referente à sessão de 10 de maio de 1888.

Rui Barbosa teve papel importante como relator do Projeto Dantas, de 1884, que acabou derrotado. Manoel Pinto de Sousa Dantas, João Alfredo, Rodolfo Dantas, Escragnolle Taunay e Ignácio Martins também aparecem entre os nomes associados a projetos ou iniciativas que pressionaram pelo fim do cativeiro.

A abolição, porém, não foi presente de gabinete. Resultou de pressão social, fugas, clubes abolicionistas, imprensa, mobilização popular e disputa política. O Parlamento foi palco decisivo, mas não o único motor.

Queima dos papeis da escravidão

Dois anos depois da Lei Áurea, antigos senhores ainda tentavam transformar a perda da propriedade sobre pessoas escravizadas em dívida pública. Rui Barbosa, na ocasião ministro da Fazenda do Governo Provisório da República entre 15 de novembro de 1889 e 20 de janeiro de 1891, reagiu a essa pressão.

Em novembro de 1890, Rui negou apoio à criação de um banco destinado a indenizar antigos proprietários de escravizados ou seus herdeiros. No despacho, afirmou que, se houvesse justiça a fazer, seria "mais justo" encontrar meio de indenizar os ex-escravizados, sem onerar o Tesouro.

No mês seguinte, tomou a decisão que ficaria conhecida como a "queima dos arquivos da escravidão". Em 14 de dezembro de 1890, determinou a arrecadação e destruição de livros e documentos relativos à escravidão existentes em repartições fazendárias. A medida buscava impedir que antigos proprietários usassem registros fiscais para cobrar indenização do Estado republicano.

O episódio, porém, é ambíguo. Ao mesmo tempo em que bloqueou a pretensão indenizatória dos senhores, eliminou parte da memória administrativa da escravidão, dificultando a reconstrução de trajetórias de pessoas escravizadas. Também exige precisão: a circular mais conhecida sobre a destruição dos registros, de 13 de maio de 1891, não foi assinada por Rui, que já havia deixado o ministério, mas deu sequência ao despacho de dezembro de 1890.

Quase três décadas depois, em 1919, Rui voltou ao tema na conferência "A questão social e política no Brasil". Criticou a abolição sem medidas de integração dos libertos e afirmou que, ao libertar os escravizados sem garantir condições de vida, o país acabou por "alforriar os senhores".

Dois artigos, uma dívida

A trajetória de Rui nesses três momentos, ou seja, a recusa à indenização dos antigos donos, a destruição dos registros e a crítica tardia ao abandono dos libertos, resume um limite do 13 de maio. A Lei Áurea acabou com a propriedade legal de pessoas. Isso não foi pouco. O Brasil foi o último país das Américas a abolir a escravidão, e o fim jurídico do cativeiro representou uma ruptura indispensável.

Mas a lei libertou sem incluir. Não organizou o trabalho livre. Não distribuiu terra. Não abriu escola. Não garantiu moradia. Não reparou os libertos.

O mesmo texto que recusou indenização aos senhores calou-se sobre a reparação dos escravizados.

Esse é o ponto que transforma o 13 de maio numa data incômoda. Para o movimento negro, a crítica não está no fim da escravidão, mas na forma como ele se deu: de cima para baixo, sem política de inclusão e sem reconhecimento material da dívida histórica.

A liberdade chegou. O chão, não. A Lei Áurea fechou o ciclo jurídico do cativeiro. A desigualdade que ele produziu atravessou a República.

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