O pastor e empresário Márcio Poncio, preso nesta quinta-feira (2) pela Polícia Federal, lidera uma família conhecida pela mistura de religião, luxo, celebridade digital, música, política e polêmicas familiares. A prisão ocorreu na 5ª fase da Operação Unha e Carne, que apura indícios de lavagem de dinheiro ligada ao jogo do bicho no Rio e possíveis ramificações do esquema nos poderes Executivo e Legislativo do estado.
Poncio se apresenta nas redes como "servo de Deus", integrante da Igreja da Nuvem e patriarca da família Poncio. Também construiu trajetória empresarial no setor do tabaco, atividade que lhe rendeu o apelido de "pastor do cigarro". Segundo relatos públicos do próprio pastor, ele começou a carreira ainda jovem na indústria do tabaco, passou por diferentes funções e depois abriu a própria empresa.
A fama da família ultrapassou o meio religioso e empresarial. Márcio e a mulher, Simone Poncio, também pastora, são pais da deputada estadual Sarah Poncio (Solidariedade-RJ) e de Saulo Poncio, cantor que integrou o duo UM44K. O clã passou a atrair milhões de seguidores ao transformar a rotina privada em conteúdo, com festas, viagens, momentos de fé, reconciliações, crises conjugais e bastidores domésticos. O pastor é o único integrante da família alvo da operação da PF.
Reality familiar
A projeção nacional dos Poncio cresceu especialmente a partir de 2018, quando um episódio familiar envolvendo traição, casamento, gravidez e teste de DNA viralizou nas redes e levou o clã ao noticiário de celebridades. O episódio gerou à família o apelido de "Kardashians brasileiros". Desde então, o sobrenome passou a circular com frequência em páginas de fofoca e perfis de entretenimento, numa combinação de reality informal, exposição religiosa e vida de alto padrão.
A ostentação também virou marca do clã. A família já exibiu mansão, viagens, festas, carros, eventos e uma rotina de luxo nas redes sociais. A imagem pública do grupo se alimenta do contraste entre fé, família, fortuna e controvérsias.
Segundo reportagem da Casa Vogue, em 2020, a construção de 2.904 m² ocupa um terreno de 6.686 m² na Barra da Tijuca. "Um dos motivos para as dimensões colossais é o fato de o patriarca desejar reunir a família inteira, um grupo de 10 pessoas, no mesmo local. A mansão, na verdade, é composta por três casas distintas, com suas próprias entradas, mas interligadas entre si."
Redes e política
A força digital ajuda a explicar a visibilidade política dos Poncio. Márcio reúne mais de meio milhão de seguidores no Instagram. Sarah, que chegou à Alerj como suplente, tem 3,3 milhões de seguidores na plataforma e associa sua imagem a pautas conservadoras, como família, religião e defesa da vida. Saulo acumula 2 milhões de seguidores na mesma rede, impulsionado pela carreira musical e por relacionamentos acompanhados pelo público.
A família também se aproximou da política e de pautas do bolsonarismo. Sarah declarou voto em Jair Bolsonaro em 2022 e se elegeu suplente de deputada estadual no Rio. Márcio disputou uma vaga de deputado federal pelo extinto Pros, incorporado posteriormente pelo Solidariedade, no mesmo ano, mas não se elegeu. Recebeu 33.364 votos. Na ocasião, declarou à Justiça eleitoral um patrimônio modesto em comparação ao padrão de vida exibido pelas redes sociais, pouco mais de R$ 1 milhão.
Nas redes, o pastor já apareceu em registro com Bolsonaro e defendeu a anistia a condenados pelos atos de 8 de janeiro, bandeira central de aliados do ex-presidente.
A prisão de Márcio Poncio recoloca o clã sob holofotes em um contexto que mistura influência digital, política e investigação criminal. Na mesma fase da Operação Unha e Carne, também aparece entre os alvos o ex-deputado Marco Antônio Cabral, filho do ex-governador Sérgio Cabral Filho, e o ex-presidente da Alerj Rodrigo Bacellar (União), preso desde março. Bacellar é acusado de vazar informações da Operação Zargun, que mirava TH Joias, apontado pela investigação como ligado ao Comando Vermelho.