Quando Ronaldo marcou duas vezes contra a Alemanha e deu ao Brasil o pentacampeonato mundial, em 30 de junho de 2002, muita coisa ainda parecia distante. Hugo Motta, hoje presidente da Câmara, não tinha completado 13 anos. Davi Alcolumbre, atual presidente do Senado, tinha acabado de fazer 25, era vereador em Macapá pelo PDT e disputaria naquele ano sua primeira eleição para deputado federal. Venceu.
Vinte e quatro anos depois, o Brasil segue à espera do hexa. A seleção brasileira enfrenta a Noruega pelas oitavas de final neste domingo (5) nos Estados Unidos. O jejum já iguala o intervalo entre os títulos de 1970 e 1994. Em Brasília, porém, 37 parlamentares em exercício hoje já tinham mandato federal quando Cafu levantou a taça em Yokohama, mostra levantamento do Congresso em Foco.
A escalação que resistiu
A lista reúne 24 deputados que já eram deputados em 2002 e seguem na Câmara; 11 deputados daquela época que hoje estão no Senado; um senador que continua senador; e um senador de 2002 que agora é deputado federal.
A comparação dá uma medida curiosa do tempo. Em 2002, Fernando Henrique Cardoso (PSDB) estava no fim do segundo mandato, Lula (PT) tentava chegar ao Planalto após perder três eleições presidenciais consecutivas, José Serra (PSDB) era o candidato do governo, Ciro Gomes (PPS) crescia nas pesquisas e o país discutia dólar, risco Brasil e acordo com o FMI.
No Congresso, Aécio Neves (PSDB) presidia a Câmara, Ramez Tebet (PMDB) comandava o Senado e nomes como José Dirceu, Michel Temer, Renan Calheiros, Inocêncio Oliveira e José Sarney estavam no centro das articulações políticas em Brasília.
Quem estava no Congresso no penta e segue hoje
Deputados em 2002 que continuam deputados
Aécio Neves (MG), Alberto Fraga (DF), Arlindo Chinaglia (SP), Átila Lins (AM), Celso Russomanno (SP), Claudio Cajado (BA), Damião Feliciano (PB), Dilceu Sperafico (PR), Elcione Barbalho (PA), Eunício Oliveira (CE), Inácio Arruda (CE), Jandira Feghali (RJ), José Priante (PA), José Rocha (BA), Laura Carneiro (RJ), Lincoln Portela (MG), Luciano Bivar (PE), Luiz Carlos Hauly (PR), Luiza Erundina (SP), Osmar Terra (RS), Paulo Magalhães (BA), Pompeo de Mattos (RS), Raimundo Santos (PA) e Ricardo Barros (PR).
Deputados em 2002 que hoje são senadores
Chico Rodrigues (RR), Ciro Nogueira (PI), Confúcio Moura (RO), Flávio Arns (PR), Jaques Wagner (BA), Luis Carlos Heinze (RS), Magno Malta (ES), Marcelo Castro (PI), Marcio Bittar (AC), Paulo Paim (RS) e Wellington Fagundes (MT).
Senador em 2002 que continua senador
Renan Calheiros (AL).
Senador em 2002 que hoje é deputado
Wellington Roberto (PB).
Bolsonaro também estava lá
Jair Bolsonaro também fazia parte daquele Congresso. Era deputado federal pelo Rio de Janeiro, ainda longe do Planalto, e buscava mais uma reeleição para a Câmara. Condenado no caso da trama golpista, o ex-presidente ajuda a mostrar a distância entre aquele Brasil de 2002 e o atual.
Naquele ano, o sobrenome Bolsonaro começava a avançar na política fluminense com outros dois nomes. Flávio Bolsonaro, então com 21 anos, seria eleito deputado estadual no Rio em outubro. Hoje senador pelo PL, é pré-candidato à Presidência. Na época com 19 anos, Carlos Bolsonaro estava em seu segundo ano como vereador na capital fluminense.
Romário, do corte ao comentário
Outro personagem liga diretamente aquele penta ao Congresso atual. Romário (RJ), craque do tetra de 1994, ficou fora da Copa de 2002 por decisão de Luiz Felipe Scolari. Sua exclusão da lista final dividiu o país. Vinte e quatro anos depois, o Baixinho é senador pelo PL do Rio e voltou ao ambiente de Copa, agora como comentarista esportivo.
A participação de Romário na cobertura do Mundial gerou polêmica porque ele não se licenciou do Senado para atuar como comentarista durante a competição.Nesta semana, disse que abriu mão do salário pelo período e que está trabalhando via internet.
A geração que mal viu o penta
A Câmara de hoje também tem uma geração para a qual o penta é mais memória familiar do que lembrança própria. Nenhum deputado federal em exercício nasceu depois da final de 2002, mas 26 tinham até dez anos naquele domingo de manhã. Entre eles estão Erika Hilton (SP), Tabata Amaral (SP), Dandara (MG), Maria Arraes (PE), Camila Jara (MS), Pedro Campos (PE), Kim Kataguiri (SP), Luisa Canziani (PR), Nikolas Ferreira (MG), André Fernandes (CE), Amanda Gentil (AM), Lula da Fonte (PE), Amom Mandel (AM) e Ícaro de Valmir (SE). Os dois últimos, que são os mais jovens do Congresso, davam os seus primeiros passos: tinham apenas um ano de vida.
Desde o penta, a seleção trocou técnicos, craques e promessas. O país passou por cinco presidentes, impeachment, mensalão, Lava Jato, pandemia, 8 de Janeiro e eleições cada vez mais polarizadas. Ainda assim, parte da política brasileira daquele período continua no Congresso.
Na política, como no futebol, permanência também é estatística. Desde o último gol brasileiro em uma final de Copa, o Congresso mudou de tamanho, perfil e geração. A taça não veio mais. Em Brasília, porém, há quem tenha atravessado o jejum inteiro em campo e ainda busque disputar a próxima rodada.