A deputada Fernanda Melchionna (PSOL-RS) criticou nesta quarta-feira (12) parlamentares da oposição durante audiência da Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional da Câmara e acusou colegas de relativizarem medidas adotadas pelos Estados Unidos contra o Brasil.
A fala foi dirigida principalmente ao deputado Marcel van Hattem (Novo-RS).
Para Melchionna, parte das intervenções feitas na comissão buscou justificar tarifas, pressões econômicas e outras ações do governo norte-americano, em vez de questionar os impactos dessas medidas sobre o país.
Melchionna abriu sua intervenção questionando o tom adotado por parlamentares que haviam falado antes dela.
A deputada disse ter se surpreendido com a defesa de posições dos Estados Unidos dentro de uma comissão da Câmara brasileira.
"Eu, quando entrei aqui na comissão, fiquei em dúvida se eu estava entrando numa comissão da Câmara dos Deputados do Brasil ou na Câmara dos Deputados dos Estados Unidos."
Segundo a parlamentar, a posição é ainda mais contraditória diante das recentes manifestações do governo norte-americano sobre sua influência no continente e das medidas comerciais que atingem produtos brasileiros.
Ela também criticou o argumento de que ações dos Estados Unidos poderiam ser justificadas por decisões internas do Brasil, como cobranças relacionadas a brasileiros investigados ou condenados pela Justiça.
Tarifas, Pix e terras raras
Ao direcionar as críticas à Van Hattem, Melchionna afirmou que o deputado se apresenta como defensor de empresas do Rio Grande do Sul, mas não demonstrou a mesma reação diante de medidas norte-americanas que, segundo ela, prejudicam interesses econômicos brasileiros.
"Fala que é a favor das empresas gaúchas, mas não questionou nada a vergonha estadunidense que é taxar as empresas brasileiras diante do Pix."
Melchionna apresentou o sistema brasileiro de pagamentos como exemplo de autonomia tecnológica do país por reduzir a dependência de bandeiras internacionais de cartões.
A deputada também citou o interesse estrangeiro nas reservas brasileiras de terras raras e relacionou o tema à disputa econômica entre Estados Unidos e China.
Para ela, a comissão deveria tratar essas questões a partir dos interesses estratégicos brasileiros.
Interferência dos Estados Unidos
A parlamentar afirmou ainda que o debate realizado na comissão estaria contribuindo para construir uma justificativa política para ações dos Estados Unidos contra o Brasil.
"Me choca ver que isso não está sendo questionado aqui na audiência e, na verdade, esteja se organizando uma narrativa para justificar uma interferência estadunidense aqui no Brasil."
Melchionna relacionou essa avaliação à atuação de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos. Segundo ela, o ex-deputado atuou para que medidas fossem adotadas contra o país e deixou registros públicos dessa articulação.
"O Eduardo Bolsonaro atuou para taxar o Brasil. Ele se televisionou, ele produziu provas contra si."
A deputada também afirmou enxergar risco de interferência no processo eleitoral brasileiro e disse que pretendia questionar o ministro ouvido pela comissão sobre o tema. Ela citou ainda eleições recentes em outros países da América Latina como sinal de preocupação.
Embate em torno de Milei
Outro ponto da fala foi a defesa do presidente argentino Javier Milei feita durante a audiência. Melchionna afirmou que o argentino já fez ataques ao presidente Lula e considerou contraditório que parlamentares brasileiros saíssem em sua defesa.
A deputada disse considerar digna a decisão de Lula de não responder diretamente às declarações de Milei, embora tenha afirmado que teria adotado outra postura.
Ao mencionar a polêmica envolvendo a declaração do ministro da Fazenda sobre o presidente argentino, Melchionna ironizou.
"Eu não gostei da fala do ministro da Fazenda porque eu tenho muito respeito aos palhaços. Os palhaços não merecem essa comparação com o presidente Milei."
A crítica foi usada pela parlamentar para reforçar o argumento de que deputados estariam reagindo com maior intensidade a ataques contra Milei do que às pressões externas sofridas pelo Brasil.
Crime organizado
Na parte final da intervenção, Melchionna reagiu ainda às menções ao PCC e ao Comando Vermelho.
A deputada classificou as facções como organizações criminosas "perigosíssimas", mas afirmou que setores da direita contribuíram para reduzir dispositivos do projeto Antifação que ampliavam a atuação da Polícia Federal.
"O projeto Antifação do governo Lula ampliava a atribuição da Polícia Federal para poder pegar essas organizações que estão entrelaçadas em todos os estados brasileiros."
Ela também citou investigações da Polícia Federal sobre fintechs utilizadas em esquemas de lavagem de dinheiro para defender maior participação do órgão no enfrentamento às facções.
Ao final, Melchionna voltou a provocar Van Hattem, questionando de forma irônica se o deputado seria "candidato ao Senado dos Estados Unidos, do Brasil".