Passados dez anos do julgamento que afastou definitivamente Dilma Rousseff da Presidência, ao menos quatro dos 61 senadores que votaram pela cassação fizeram algum tipo de autocrítica ou revisão pública da decisão. Renan Calheiros (MDB-AL) e Tasso Jereissati (PSDB-CE) classificaram o impeachment como erro. Aloysio Nunes Ferreira (SP) afirmou que teria sido melhor deixar Dilma concluir o mandato, enquanto Cristovam Buarque (DF) reconheceu ter "errado como político".
O processo começou a avançar no Congresso em 17 de abril de 2016, quando a Câmara autorizou a abertura do impeachment. Em 12 de maio, o Senado instaurou o processo e afastou Dilma temporariamente da Presidência. O julgamento terminou em 31 de agosto, quando os senadores cassaram o mandato por 61 votos a 20.
As revisões têm graus diferentes. Alguns questionaram a decisão; outros, sobretudo suas consequências políticas. Há ainda quem tenha mudado de campo político sem rever o voto, como Simone Tebet. Em 31 de agosto de 2016, o Senado cassou Dilma por 61 votos a 20.
Renan: "Problemas se agravaram"
Presidente do Senado na época do julgamento, Renan Calheiros fez uma das autocríticas mais explícitas. Menos de um ano depois da cassação, em entrevista publicada em junho de 2017, foi questionado se o impeachment havia sido um erro. "É claro que foi um erro", respondeu à jornalista Tereza Cruvinel, do Brasil247.
Segundo Renan, a expectativa de que a saída de Dilma ajudaria a resolver os problemas do país não se confirmou e, ao contrário, "todos os problemas se agravaram". No próprio 31 de agosto de 2016, Renan votou pela cassação, mas rejeitou a segunda punição, que poderia deixar Dilma inabilitada por oito anos para exercer função pública. "Além da queda, coice", afirmou. A inabilitação recebeu 42 votos favoráveis, quando eram necessários 54, e foi rejeitada.
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Tasso: erro e desarrumação
Tasso Jereissati, outro integrante da maioria que afastou Dilma, também passou a classificar o impeachment como erro. Questionado pelo Valor Econômico se mantinha essa avaliação, respondeu: "Sim".
Tasso associou o processo a uma "desarrumação" política no país e afirmou que os partidos perderam prestígio, força e unidade no período seguinte.
Aloysio: PSDB andou em "má companhia"
Senador por São Paulo e candidato a vice-presidente na chapa de Aécio Neves em 2014, Aloysio Nunes Ferreira fez uma revisão sobretudo política do impeachment.
Em entrevista de 2023, questionado pelo site HojePR se teria sido melhor deixar Dilma concluir o mandato para enfrentar novamente o PT nas urnas, respondeu: "Teria sido melhor, sem dúvida nenhuma".
Aloysio afirmou ainda que, durante o impeachment, o PSDB andou "na má companhia da extrema-direita" e relacionou o episódio ao início da "agonia" do partido. "À época eu cheguei a dizer: 'É melhor deixar sangrar e ganhar a eleição. Fui mal interpretado", lembrou.
Ele não disse que a cassação fosse juridicamente inválida, mas passou a avaliar que outro caminho teria produzido consequências melhores. Em 2022, declarou apoio a Lula. No ano seguinte, deixou o PSDB, partido que ajudara a fundar. Ligado ao vice-presidente Geraldo Alckmin, assumiu o escritório da Apex na Bélgica e se filiou neste ano ao PSB.
Cristovam diz que cometeu erro político
Cristovam Buarque, então senador pelo PPS do Distrito Federal, afirmou em abril deste ano à Folha de S.Paulo: "Votei como economista e confesso que errei como político".
Ex-governador do Distrito Federal pelo PT e ex-ministro da Educação no primeiro governo Lula, Cristovam rejeitou, porém, falar em arrependimento. Disse não se arrepender daquilo que considerava correto naquele momento, embora reconheça consequências políticas negativas do processo.
Tebet mudou de campo, não de opinião
Simone Tebet mostra como o mapa político de 2016 mudou sem que necessariamente houvesse revisão do voto. Senadora pelo MDB de Mato Grosso do Sul à época, votou pela cassação. Em 2022, disputou a Presidência, ficou em terceiro lugar e apoiou Lula contra Jair Bolsonaro no segundo turno. Depois, tornou-se ministra do Planejamento e deixou o governo neste ano para concorrer ao Senado por São Paulo pelo PSB.
A aproximação com Lula não mudou sua avaliação sobre o impeachment. Em entrevista à revista Veja, em 2024, Tebet afirmou que o afastamento de Dilma não havia sido um erro.
"Ali nós tínhamos todos os elementos constitucionais", disse. Acrescentou que também não considerava errado quem votou contra e afirmou: "Acho que a presidente Dilma é uma pessoa honesta."
As autocríticas permanecem exceção entre os 61 votos pela cassação. Uma década depois, parte dos personagens mudou de partido, de campo político ou de avaliação sobre as consequências do impeachment, mas poucos chegaram a dizer publicamente que a decisão foi um erro.