A Polícia Federal investiga se parte dos recursos de uma emenda do deputado Mário Frias (PL-SP) destinada ao Instituto Conhecer Brasil (ICB) acabou chegando à Go Up Entertainment, produtora de Dark Horse, filme sobre Jair Bolsonaro que tem o parlamentar como produtor-executivo. A suspeita surgiu a partir de uma sequência de transferências entre empresas relacionadas.
O ICB pagou R$ 700 mil a duas empresas em um projeto financiado pela emenda de Frias. Posteriormente, a NTT Brasil, ligada ao mesmo grupo empresarial, transferiu R$ 750 mil para a Go Up. A PF considera relevantes a proximidade dos valores, os vínculos entre as empresas e a sequência das operações, mas não afirma que o dinheiro enviado à produtora seja o mesmo proveniente da emenda.
As informações constam da decisão do ministro Flávio Dino, do STF, que autorizou buscas contra 53 pessoas físicas e jurídicas. Entre os alvos estão Frias, a empresária Karina Gama, o ICB, a Academia Nacional de Cultura (ANC) e a própria Go Up Entertainment.
Leia a íntegra da decisão de Flávio Dino.
Dos R$ 700 mil pagos pelo ICB, R$ 400 mil foram para a Dinâmica Editora e R$ 300 mil para o Instituto Super Poder Educacional. A NTT Brasil, administrada por Heric Dias e ligada ao mesmo núcleo empresarial, fez depois uma única transferência de R$ 750 mil à Go Up. Para a PF, a movimentação pode indicar a "possível ocorrência de restituição de valores similares" ao núcleo investigado.
Proibido de deixar o país
Na mesma decisão, Dino proibiu Mário Frias e outros 28 investigados de deixar o país sem autorização do STF e determinou a entrega dos passaportes à Polícia Federal.
O ministro também vetou qualquer comunicação, direta ou indireta, entre os investigados, sob o argumento de evitar combinação de versões, ocultação ou destruição de provas e interferência nas diligências em andamento.
Repasse coincide com filmagens
A Go Up tem Karina Gama como sócia. Ela também preside o ICB. Segundo informações reunidas no processo, Dark Horse foi filmado em São Paulo entre 20 de outubro e 7 de dezembro de 2025.
A análise financeira da PF abrange o período de 10 de novembro a 30 de dezembro daquele ano, que coincide parcialmente com as filmagens. Nesse intervalo, a Go Up teve movimentação bruta de R$ 19,03 milhões, sendo R$ 8,95 milhões em créditos e R$ 10,08 milhões em débitos. Entre os principais remetentes aparecem a NTT Brasil, com R$ 750 mil, e o próprio Frias.
A Go Up fez ainda pagamentos de R$ 906,8 mil ao Hotel Unique, R$ 653,2 mil à Foodflix Alimentação e valores a duas empresas de produção audiovisual. A PF destacou a coincidência temporal e a natureza das despesas, mas a decisão não afirma que esses pagamentos tenham sido feitos com recursos das emendas ou destinados ao filme.
No mesmo período, Mário Frias transferiu R$ 645,4 mil diretamente para a Go Up. A PF destacou que os rendimentos mensais do deputado eram de cerca de R$ 44 mil e apontou a necessidade de esclarecer o lastro financeiro dos repasses feitos em menos de 60 dias. Somados, os valores enviados por Frias e pela NTT à produtora chegam a quase R$ 1,4 milhão.
Contratações sob suspeita
Os R$ 700 mil pagos às duas empresas saíram do projeto Jovem Empreendedor, executado pelo ICB com R$ 1 milhão da emenda de Frias. A Controladoria-Geral da União (CGU) encontrou indícios de irregularidades nas contratações.
No caso da Dinâmica, três orçamentos de R$ 400 mil usados para justificar a compra de kits de livros tinham estrutura praticamente idêntica. Os metadados mostraram que os arquivos foram criados no mesmo dia, pela mesma usuária, em um intervalo de apenas 13 minutos.
A auditoria apontou "fortes" indícios de montagem da pesquisa de preços e possível direcionamento para a Dinâmica. A nota fiscal é de fevereiro de 2025, mas os materiais só foram entregues em junho de 2026, 465 dias depois e já fora da vigência do termo. O contrato com a empresa só foi assinado em julho de 2026, após pedido da CGU.
Heric Dias, administrador da NTT Brasil, mantém vínculos empresariais com o grupo da Dinâmica e é irmão de Pamella Dias, sócia do Instituto Super Poder Educacional. É essa rede de relações, associada à proximidade dos valores e à sequência das operações, que a PF tenta esclarecer.
A decisão de Dino foi assinada em 3 de setembro e permaneceu sob sigilo até o cumprimento das buscas. O ministro determinou que, concluídas as diligências, o documento fosse tornado público e os autos encaminhados à Procuradoria-Geral da República (PGR).
Processo: Petição 16.669