Alvo da Polícia Federal nesta segunda-feira (14), o deputado Cezinha de Madureira (PL-SP) ganhou projeção nacional como liderança da bancada evangélica e teve participação ativa na mobilização pela aprovação de André Mendonça para o STF. Quase cinco anos depois, o parlamentar voltou a aparecer ligado ao ministro ao participar da articulação de um encontro entre Mendonça e Daniel Vorcaro, então controlador do Banco Master.
Cezinha é um dos alvos da terceira fase da Operação Transparência, que investiga possíveis crimes de exploração de prestígio, tráfico de influência, corrupção passiva e lavagem de dinheiro. Segundo a PF, investigados teriam negociado pagamentos de valores elevados sob o argumento de que poderiam influenciar decisões judiciais.
A corporação ressalta que não há elementos que indiquem participação de integrantes do Judiciário nos fatos apurados. Foram cumpridos quatro mandados de busca e apreensão no Distrito Federal e em São Paulo, autorizados pelo ministro Flávio Dino, do STF.
A operação é desdobramento de uma investigação iniciada em dezembro de 2025 sobre possíveis irregularidades na destinação de emendas parlamentares. Com o avanço das apurações, a PF identificou indícios da suposta negociação de influência sobre processos judiciais.
Da bancada evangélica à Câmara
Antonio Cezar Correia Freire, nome civil de Cezinha, nasceu em Ipiaú, na Bahia, em 1973. Jornalista e comunicador, foi deputado estadual em São Paulo antes de chegar à Câmara em 2019. Eleito e reeleito pelo PSD, filiou-se ao PL em 2026. Desde abril de 2025, ocupa também o cargo de secretário de Transparência da Câmara.
O nome político vem de sua ligação com a Assembleia de Deus Ministério de Madureira, da qual é pastor e uma das principais lideranças. Em 2021, Cezinha presidia a Frente Parlamentar Evangélica, posição que lhe deu protagonismo na campanha para levar Mendonça, pastor presbiteriano indicado por Jair Bolsonaro, ao Supremo.
Cezinha também manteve relação próxima com Bolsonaro. Reportagens da época o identificavam como amigo pessoal do então presidente, e o deputado apoiou sua tentativa de reeleição em 2022.
Mesmo próximo de Bolsonaro, Cezinha também manteve interlocução com o governo Lula. Ainda no PSD, participou, em outubro de 2025, de um encontro com o presidente no Palácio do Planalto ao lado do bispo Samuel Ferreira, presidente executivo da Convenção Nacional das Assembleias de Deus no Brasil — Ministério de Madureira. A reunião também teve a presença do então advogado-geral da União Jorge Messias. Cezinha classificou a conversa como uma visita de cortesia.
Articulação por Mendonça
Quando a indicação de Mendonça estava parada no Senado, Cezinha procurou o então presidente da Casa, Rodrigo Pacheco, para tentar destravar a sabatina na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ). Depois do encontro, ele e outras lideranças evangélicas foram ao Palácio do Planalto cobrar de Bolsonaro maior empenho pela aprovação do indicado.
A mobilização se estendeu até a votação. Mendonça foi sabatinado em 1º de dezembro de 2021, após meses de espera, e teve o nome aprovado pela CCJ por 18 votos a 9 e pelo plenário do Senado por 47 a 32.
Ponte com Vorcaro
A proximidade entre Cezinha e Mendonça voltou ao noticiário neste mês, após a divulgação de mensagens extraídas do celular de Vorcaro. O material mostrou que o deputado e o advogado Ciro Rocha Soares participaram da articulação de uma reunião entre o empresário e o ministro, realizada em março de 2025, em São Paulo. Em uma das mensagens, Ciro afirma a Vorcaro que Mendonça já conhecia a situação enfrentada pelo Banco Master no Banco Central porque "o Cezinha já tinha falado com ele". No dia do encontro, Vorcaro avisou ao deputado que estava chegando e recebeu como resposta: "Ministro já está te esperando".
Mendonça confirmou a reunião, mas afirmou que recebeu Vorcaro uma única vez, limitou-se a ouvi-lo e tratou de uma ação sobre precatórios de interesse do banco. Segundo o ministro, sua atuação posterior no processo foi contrária à posição defendida pelo empresário. Cezinha, quando a intermediação veio a público, negou ter cometido irregularidade e afirmou que, à época do encontro, não havia informação pública sobre investigação ou suspeita envolvendo Vorcaro.
Até o momento, Cezinha não se manifestou sobre a operação policial desta segunda-feira.
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