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Abstenção volta ao nível de 1998, mas perfil de quem não vota muda

Levantamento mostra que a abstenção cresce há quatro eleições gerais, é maior entre homens e menos escolarizados, recua entre idosos e varia entre os Estados sem relação direta com a renda.

29/9/2026
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Quase 33 milhões de brasileiros ficaram fora das urnas no primeiro turno de 2022. O número impressiona, mas esconde uma mudança menos visível: não são os mesmos grupos que vêm se afastando, ou se aproximando, do voto.

A questão ganha ainda mais peso em 2026. A poucos dias da eleição, pesquisas mostram uma disputa presidencial apertada, com cenários de segundo turno dentro da margem de erro. Nesse quadro, o tamanho e, sobretudo, o perfil de quem comparece às urnas podem ter importância adicional no resultado.

Levantamento do Congresso em Foco com base em dados da Justiça Eleitoral mostra que a abstenção cresceu nas quatro últimas eleições gerais, mas de forma desigual. Homens faltam proporcionalmente mais que mulheres. A escolaridade separa grupos com comportamentos muito diferentes. Entre os mais velhos, a ausência caiu. E, quando se olha para os Estados, nem mesmo a renda oferece uma explicação simples.

O cruzamento entre a taxa de abstenção nas 27 unidades da Federação e o rendimento domiciliar per capita do IBGE reforça essa complexidade: em 2022, a correlação entre as duas variáveis ficou próxima de zero. Estados mais pobres não necessariamente tiveram maior abstenção, assim como os mais ricos não foram, automaticamente, os que mais compareceram.

No conjunto do país, 32,77 milhões dos 156,45 milhões de eleitores aptos não votaram no primeiro turno de 2022: 20,95% do eleitorado, praticamente um em cada cinco brasileiros habilitados a votar. O percentual foi o maior desde 1998.

Abstenção cresce desde 2006

A trajetória das últimas sete eleições gerais indica uma curva clara. A abstenção, que havia chegado a 21,5% em 1998, caiu para 17,7% em 2002 e atingiu 16,8% em 2006, menor patamar da série considerada. A partir daí, voltou a subir: 18,1% em 2010, 19,4% em 2014, 20,3% em 2018 e 21% em 2022.

Nas três últimas eleições gerais, a alta também aparece em números absolutos. Foram 27,7 milhões de ausentes em 2014, 29,9 milhões em 2018 e 32,8 milhões em 2022.

A tendência nacional, porém, diz pouco sobre quem está deixando de votar. Quando o eleitorado é dividido por idade, gênero e escolaridade, as diferenças se tornam bem mais marcantes.

Escolaridade separa os extremos

É no grau de instrução que aparece um dos contrastes mais fortes. No primeiro turno de 2022, a abstenção entre eleitores declarados analfabetos chegou a 52,08%. Entre aqueles com ensino superior completo, ficou em 11,85%.

A distância é superior a 40 pontos percentuais. Em termos proporcionais, a ausência entre analfabetos foi mais de quatro vezes maior que entre quem havia concluído uma faculdade.

A comparação exige cautela. Para os analfabetos, o voto é facultativo, assim como para jovens de 16 e 17 anos e maiores de 70. Além disso, escolaridade pode se relacionar a renda, condições de deslocamento, idade e outros fatores que os dados, isoladamente, não permitem separar.

Ainda assim, o contraste mostra o quanto a média nacional de 21% pode esconder realidades muito distintas de participação eleitoral.

Mulheres comparecem mais

A diferença por gênero é menor, mas também aparece com clareza. Em 2022, 80,2% das mulheres aptas a votar foram às urnas, ante 78,14% dos homens. A abstenção ficou, portanto, em 19,8% entre elas e 21,86% entre eles.

O dado ganha dimensão porque as mulheres são maioria do eleitorado brasileiro. Não se trata apenas de saber quantos homens ou mulheres faltaram, mas de observar que, proporcionalmente ao tamanho de cada grupo, elas compareceram mais.

Idosos seguem caminho contrário

Se a abstenção aumentou no conjunto do eleitorado, entre os brasileiros mais velhos ocorreu o movimento inverso.

A taxa de abstenção entre eleitores com 60 anos ou mais caiu de 37,1% em 2014 para 36,4% em 2018 e 34,5% em 2022. Entre aqueles com mais de 70 anos, para quem o voto é facultativo, a queda foi ainda mais nítida: 63,6% em 2014, 62,7% em 2018 e 58,9% em 2022.

A taxa continua muito acima da média nacional, mas vem diminuindo justamente enquanto o eleitorado brasileiro envelhece. Há, portanto, mais idosos aptos a votar e, proporcionalmente, uma parcela maior deles tem decidido comparecer.

O comportamento ajuda a relativizar a ideia de que o voto facultativo leva, por si só, ao afastamento das urnas. Entre os jovens de 16 e 17 anos, também sujeitos à regra facultativa, o comparecimento médio cresceu 52,3% entre 2018 e 2022, segundo o TSE. Ainda assim, houve uma queda acentuada no percentual de jovens que deixaram de tirar o título de eleitor aos 16 ou 17 anos.

O endereço também faz diferença

O lugar onde o eleitor vive acrescenta outra camada ao retrato. Em 2022, Rondônia registrou uma das maiores taxas de abstenção do país: 24,66%, segundo o TRE/RO. Mato Grosso e Rio de Janeiro também ficaram entre as unidades da Federação com maior ausência às urnas. No Rio, a abstenção chegou a aproximadamente 22,8%.

Na outra ponta apareceram Roraima, Paraíba e Ceará, além do Distrito Federal. As diferenças territoriais chamam atenção porque se repetem em Estados com características econômicas muito distintas.

Renda, sozinha, não explica o mapa

O cruzamento com os dados do IBGE mostra que a renda média dos Estados pouco ajuda a explicar quem comparece mais ou menos. Em 2022, o Maranhão tinha o menor rendimento domiciliar per capita do país, R$ 814, e apresentou abstenção elevada. Mas Ceará e Paraíba, também entre os Estados de renda mais baixa, ficaram entre os de maior comparecimento.

No outro extremo, o Rio de Janeiro, com rendimento per capita de R$ 1.971, apareceu entre as maiores taxas de abstenção. Já o Distrito Federal, com a maior renda domiciliar per capita do país, R$ 2.913, ficou entre as unidades com menor ausência às urnas. Consideradas as 27 unidades da Federação, a correlação entre rendimento domiciliar per capita e taxa de abstenção ficou próxima de zero.

Relação contestada

O dado derruba uma relação automática entre pobreza regional e ausência às urnas. Isso não significa que renda seja irrelevante para o acesso individual ao voto, apenas que o nível de renda do Estado não explica, sozinho, o comportamento eleitoral de sua população.

Há uma limitação importante: o TSE não informa a renda de cada eleitor. O indicador do IBGE mede o rendimento médio da população residente. O cruzamento, portanto, permite comparar territórios, não identificar se quem deixou de votar era pobre ou rico.

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