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Cadeirada, inseticida e debate: a cadeira como destaque nas eleições

Objeto aparentemente banal já virou símbolo de vitória antecipada, foi "desinfetado" e até usado como arma durante debate.

2/10/2026
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Ela costuma estar no cenário sem chamar atenção. Serve para o candidato esperar, descansar entre um bloco e outro ou, simbolicamente, representar o cargo que está em disputa. Mas algumas cadeiras conseguiram um feito improvável: entraram para a história das eleições brasileiras.

A mais célebre delas talvez seja a cadeira do prefeito de São Paulo. Em 1985, Fernando Henrique Cardoso sentou nela antes de saber o resultado da eleição. Favorito na disputa, acabou derrotado por Jânio Quadros. A mesma cadeira voltaria à cena em uma provocação que atravessaria décadas.

Quase 40 anos mais tarde, também em uma eleição paulistana, uma cadeira ganhou função bem diferente. Em pleno debate eleitoral, José Luiz Datena a arrancou do cenário para atingir Pablo Marçal. O episódio foi tão marcante que obrigou emissoras a repensarem até a mobília dos encontros seguintes.

O Congresso em Foco relembra algumas vezes em que a cadeira deixou de ser apenas parte do cenário e acabou roubando a cena nas eleições.

Sentou na cadeira antes da hora.Arte Congresso em Foco

Sentou na cadeira antes da hora

Era 14 de novembro de 1985, véspera da eleição para a Prefeitura de São Paulo. Fernando Henrique Cardoso, então senador pelo PMDB, aparecia como favorito na disputa contra Jânio Quadros (PTB).

Durante uma sessão de fotos, FHC se sentou na cadeira do então prefeito Mário Covas. O registro foi publicado pela imprensa justamente no dia da votação e acabou transformado em símbolo de uma confiança excessiva na vitória.

A eleição, porém, terminou de outra maneira. Jânio recebeu 1,57 milhão de votos, contra 1,43 milhão de FHC, e voltou à prefeitura da capital paulista. Na época, não havia segundo turno nas eleições municipais.

Anos depois, o próprio Fernando Henrique reconheceria o tamanho da gafe. Em exposição organizada pela Fundação FHC sobre suas campanhas eleitorais, o ex-presidente resumiu o episódio dizendo que a fotografia provava que ele havia merecido perder por ingenuidade.

Mandou "desinfetar" a cadeira.Arte Congresso em Foco

Mandou "desinfetar" a cadeira

Jânio não esqueceu a fotografia.

Em 1º de janeiro de 1986, logo depois de tomar posse, o novo prefeito entrou no gabinete acompanhado por jornalistas e transformou a cadeira em parte de uma encenação política.

Com um inseticida nas mãos, borrifou o móvel no qual FHC havia posado durante a campanha. Disse que estava "desinfetando" a poltrona porque "nádegas indevidas" haviam se sentado ali.

A provocação ajudou a eternizar a fotografia da véspera da eleição. Décadas depois, sentar na cadeira antes de ganhar continuaria sendo uma espécie de sinônimo político de comemorar antes da hora.

A cadeira vira superstição eleitoral.Arte Congresso em Foco

A cadeira vira superstição eleitoral

Vinte e cinco anos depois, a história ainda assombrava candidatos favoritos.

Em junho de 2010, Dilma Rousseff liderava uma pesquisa Ibope na disputa pela Presidência quando foi questionada sobre a vantagem sobre José Serra. Para dizer que não considerava a eleição ganha, recorreu justamente ao episódio de 1985.

"Quem sentou na cadeira antes, perdeu a eleição. Tiveram até que desinfetar a cadeira", afirmou.

A ironia é que, dois meses depois, foi Serra quem acusou Dilma de estar fazendo exatamente isso.

Ao comentar uma declaração da adversária sobre como pretendia se relacionar com a oposição depois de eleita, o tucano afirmou que Dilma estava "sentando na cadeira" mais de um mês antes da votação.

A cadeira de prefeito de São Paulo de 1985 já não precisava mais estar fisicamente presente. Havia virado uma referência política nacional para o risco de antecipar uma vitória eleitoral.

De símbolo a arma, a cadeirada.Arte Congresso em Foco

De símbolo a arma, a cadeirada

Em 2024, outra eleição para a Prefeitura de São Paulo colocaria uma cadeira no centro da campanha, desta vez de maneira literal e violenta.

Durante debate promovido pela TV Cultura em 15 de setembro, José Luiz Datena (PSDB) e Pablo Marçal (PRTB) protagonizaram uma sequência de provocações.

Datena levantou-se, pegou uma das cadeiras do cenário e atingiu Marçal. O debate foi interrompido. Datena acabou expulso do programa, enquanto Marçal deixou o estúdio.

A imagem se espalhou imediatamente e se transformou em um dos episódios mais conhecidos daquela campanha.

E produziu uma consequência inusitada para os debates seguintes.

Depois da cadeirada, parafuso.Arte Congresso em Foco

Depois da cadeirada, parafuso

Dois dias depois, os candidatos paulistanos voltaram a se encontrar, desta vez em debate promovido por RedeTV! e UOL.

A mobília já não era exatamente a mesma.

Por precaução, a emissora decidiu parafusar as cadeiras dos candidatos ao chão, impedindo que fossem levantadas e eventualmente utilizadas em uma nova agressão.

Assim, por alguns dias de uma eleição municipal brasileira, até a forma como uma cadeira era presa ao chão passou a fazer parte das preocupações de segurança de um debate eleitoral.

A cadeira que a Justiça mandou desaparecer.Arte Congresso em Foco

A cadeira que a Justiça mandou desaparecer

Em 2026, a cadeira ganhou um novo papel eleitoral: virou objeto de uma decisão judicial antes mesmo de aparecer na televisão.

As regras do último debate presidencial da Globo previam que o lugar de um candidato ausente permaneceria vazio e identificado. A cadeira seria destacada pela câmera quando chegasse a vez dele e, em uma das rodadas, os adversários poderiam dizer qual pergunta fariam ao ausente.

Na véspera do primeiro turno, a ministra Estela Aranha, do TSE, suspendeu essas regras. Proibiu a exibição identificada do lugar vazio e as perguntas simuladas ao candidato que não comparecesse.

Horas depois, em meio a novas reviravoltas envolvendo a participação dos candidatos, a Globo cancelou o debate.

A cadeira que não poderia aparecer acabou levando junto todo o cenário.

Cadeira também faz campanha: histórias insólitas das eleições brasileiras.Arte Congresso em Foco
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