Investigações e controvérsias envolvendo Flávio Bolsonaro (PL) viraram as sete fases de um videogame inspirado em "Super Mario World". Lançado na reta final do primeiro turno e compartilhado nas redes após a eleição, o "Super Flávio World" transforma episódios relacionados à trajetória do candidato à presidência em missões, obstáculos, moedas e vidas.
O jogo é gratuito e se apresenta como uma iniciativa independente. Os responsáveis não são identificados. Na tela inicial, há um aviso de que se trata de uma "paródia baseada em fatos reais" e de que as fontes utilizadas são apresentadas depois de cada fase.
Reportagens sobre o lançamento classificam a produção como um newsgame, formato que utiliza mecânicas de videogame para apresentar acontecimentos e informações jornalísticas.
A estética remete diretamente aos jogos de plataforma dos anos 1990. O personagem corre, pula, coleta moedas e perde vidas. Mas, em vez de atravessar mundos fictícios, precisa cumprir tarefas relacionadas a casos envolvendo Flávio.
São sete fases. O percurso começa em um suposto emprego fantasma na Câmara dos Deputados, passa pelas rachadinhas e pelas relações com Adriano da Nóbrega e termina em episódios mais recentes, envolvendo emendas parlamentares e o Banco Master.
Fase 1: O fantasma da Câmara
A primeira missão é "O fantasma da Câmara".
O jogador controla "Flavinho", apresentado como um jovem de 19 anos que conseguiu um cargo de 40 horas semanais na Câmara dos Deputados, em Brasília, enquanto morava, estudava e estagiava no Rio de Janeiro.
A missão é bater o ponto de segunda a sexta sem ser visto pelos servidores. Para isso, o personagem pode ficar invisível temporariamente e precisa alcançar cinco relógios espalhados pelo cenário.
Se algum servidor encostar no personagem enquanto ele estiver visível, a partida termina. Na tela aparece "Flagrado!", acompanhado da mensagem de que um servidor percebeu que ele nunca estava no local.
A fase faz referência a uma reportagem da BBC News Brasil sobre o período em que Flávio ocupou um cargo na Câmara. O próprio jogo, ao apresentar as fontes, ressalva que se trata de uma investigação jornalística e que não houve condenação sobre esse episódio.
Fase 2: O assessor de Wall Street
A segunda fase muda inclusive o personagem controlado pelo jogador.
Em "O assessor de Wall Street", o protagonista é Fabrício Queiroz, ex-assessor de Flávio na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj).
A missão apresentada pelo jogo é recolher salários de assessores. O texto da fase diz ao jogador para não esquecer de "rachar" os valores e afirma que metade de cada um deve seguir para o chefe.
Enquanto coleta o dinheiro, o personagem precisa escapar de obstáculos que representam o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf).
A referência é ao caso das chamadas rachadinhas no antigo gabinete de Flávio na Alerj. O senador chegou a ser denunciado pelo Ministério Público do Rio de Janeiro, mas decisões judiciais posteriores anularam provas usadas na investigação. Flávio sempre negou ter participado de esquema de rachadinhas.
O game transforma até esse desfecho em elemento da partida. Em uma das telas de "game over", surge uma "ajuda inesperada": uma representação de Sergio Moro aparece para devolver cinco vidas ao personagem, acompanhada de referências à trajetória política do ex-juiz.
Fase 3: Laços de família
A terceira fase é chamada "Laços de família".
"Flavinho" volta a ser o personagem principal. Desta vez, precisa recolher dois crachás do gabinete e entregá-los a personagens que representam a mãe e a ex-mulher de Adriano da Nóbrega.
O jogo também determina que o personagem distribua medalhas pelo caminho.
A fase remete à passagem de parentes de Adriano pelo gabinete de Flávio na Alerj e às homenagens concedidas pelo então deputado estadual ao ex-capitão do Bope.
Adriano da Nóbrega foi apontado por autoridades como chefe de uma milícia no Rio de Janeiro e morreu em 2020, durante uma operação policial na Bahia. As relações entre integrantes da família de Adriano e o antigo gabinete de Flávio apareceram nas investigações sobre as rachadinhas.
Fase 4: A fantástica fábrica de depósitos
A quarta fase leva o jogador para uma loja de chocolates.
Em "A fantástica fábrica de depósitos", o objetivo é pegar dinheiro vivo e fazer depósitos em caixas eletrônicos. A meta indicada na própria tela do jogo é chegar a 1.512 depósitos.
Há ainda uma dificuldade adicional: quanto mais dinheiro o personagem carrega, mais pesado fica o pulo.
A referência é à investigação sobre movimentações financeiras de uma franquia da Kopenhagen da qual Flávio foi sócio.
As movimentações da loja foram analisadas durante as investigações sobre suspeitas de lavagem de dinheiro relacionadas ao caso das rachadinhas. Flávio negou irregularidades.
Fase 5: E as provas, o vento levou
Na quinta etapa, intitulada "E as provas, o vento levou", o cenário muda novamente.
Uma ventania atinge Brasília e espalha pelo caminho documentos que representam relatórios do Coaf. O objetivo do jogador é desviar das "provas" enquanto atravessa o cenário.
Para passar pelos buracos, precisa pisar em carimbos que aparecem e desaparecem com a inscrição "anulado". O destino final da fase é o Supremo Tribunal Federal (STF).
A etapa satiriza decisões judiciais que invalidaram provas utilizadas na investigação das rachadinhas. A anulação desse material teve impacto sobre o andamento do caso contra Flávio.
Fase 6: Quase 200 mil
A sexta etapa aproxima o jogo de episódios mais recentes.
Em "Quase 200 mil", a missão é destinar uma emenda para um projeto no Rio de Janeiro.
O jogador precisa juntar 20 moedas até alcançar o valor de R$ 199.999,79.
Durante o percurso, aparecem obstáculos que representam celulares e agentes públicos. O texto da missão afirma que a Polícia Federal estaria lendo conversas e avisa que, próximo ao final, há um auditor do Tribunal de Contas da União (TCU) "fazendo as contas".
A fase faz referência a apurações sobre a destinação de recursos de emendas e menciona um personagem identificado como "Peixe".
Fase 7: Show me the money
O jogo termina com "Show me the money", fase relacionada ao financiamento de "Dark Horse", cinebiografia sobre Jair Bolsonaro.
O cenário reproduz um ambiente cinematográfico. "Flavinho" aparece montado em um cavalo e precisa seguir uma nuvem identificada com a letra "M", enquanto coleta dólares.
A meta exibida na tela é chegar a US$ 24 milhões. No caminho, o jogador deve escapar de personagens que representam agentes da Polícia Federal.
A etapa faz referência às investigações sobre a captação de recursos para "Dark Horse" e às relações do projeto com o Banco Master.
Segundo o próprio jogo, o personagem perde o cavalo, mas não uma vida, quando é atingido. A fase encerra, assim, o percurso iniciado com o episódio da Câmara e leva a narrativa até uma das investigações mais recentes envolvendo o candidato.
Fontes aparecem depois das fases
Além de transformar os episódios em desafios, o jogo reserva telas específicas para explicar o que inspirou cada fase e indicar as fontes usadas pelos criadores.
A iniciativa está ligada a uma página que reúne investigações e controvérsias relacionadas a Flávio. Segundo os responsáveis, o levantamento reúne 31 conexões, nove casos e 215 fontes, entre reportagens e documentos públicos.
O "Super Flávio World" foi lançado poucos dias antes do primeiro turno, realizado no domingo (4), e ganhou maior circulação nas redes depois da votação. Os criadores não informam suas identidades e descrevem o projeto como independente.
Flávio Bolsonaro disputa o segundo turno da eleição presidencial contra Luiz Inácio Lula da Silva (PT), marcado para 25 de outubro.