A Faria Lima acaba de descobrir seu Oscar Maroni. E, guardadas as proporções, talvez tenha também encontrado seu Jeffrey Epstein. O personagem da vez é Daniel Vorcaro, dublê de banqueiro, que, segundo reportagem publicada nesta terça-feira (13) pelo UOL, não se contentava em frequentar festas com mulheres contratadas. Teria financiado uma verdadeira estrutura internacional de recrutamento, seleção e manutenção de garotas, incluindo refugiadas ucranianas. Tudo com a sofisticação logística que se espera de um grande empreendimento financeiro.
Segundo a apuração dos jornalistas Natália Portinari, Cézar Feitoza e Fabio Serapião, Vorcaro "investiu" tempo e milhões no negócio. Havia intermediários, agência de modelos, contratos, pagamentos, passagens aéreas e hospedagens. As festas atravessavam fronteiras, de São Paulo a Londres, Paris, Roma e Dubai. Em mensagens obtidas pela reportagem, o pseudo-banqueiro aparece dando ordens, selecionando mulheres e discutindo valores. Algo como um leilão de gado. Não por acaso algumas eram chamadas de "escravas"; as mais jovens, de "creche". Uma refugiada ucraniana de 19 anos, impedida pela guerra de regressar tranquilamente ao seu país, chegou a ser objeto dessas negociações. A Polícia Federal investiga possíveis crimes relacionados à estrutura.
A história faz recordar Oscar Maroni, o extravagante empresário que transformou o Bahamas Club, em São Paulo, num símbolo da noite paulistana. Preso em 2007, processado e condenado em primeira instância por acusações ligadas à prostituição, Maroni acabou absolvido posteriormente. Sempre fez de sua atividade uma bandeira pública, apresentando-a como entretenimento adulto. Sua história é diferente da de Vorcaro, mas a aproximação tem algo de irresistível: enquanto Maroni anunciava seu negócio luminosamente, o dono do Master preferia os bastidores.
A comparação mais perturbadora, porém, é com Jeffrey Epstein. O financista americano cultivou relações com integrantes da elite econômica, política e social enquanto operava uma rede de exploração sexual de adolescentes. Acusado de tráfico sexual de menores em 2019, morreu na prisão antes do julgamento federal. Sua colaboradora Ghislaine Maxwell foi condenada e recebeu pena de 20 anos. Não há, até aqui, fundamento para equiparar juridicamente os casos, muito menos para afirmar que Vorcaro tenha cometido os crimes de Epstein. O paralelo está no mecanismo de aproximação entre dinheiro, mulheres recrutadas e círculos de poder — e na vulnerabilidade das pessoas transformadas em instrumentos dessa engrenagem.
Há ainda um aspecto talvez mais revelador. Segundo o UOL, as festas de Vorcaro recebiam personagens influentes. Isso não significa que os convidados tenham participado de ilegalidades. Mas convida a uma reflexão desconfortável sobre a facilidade com que ambientes de suposto refinamento intelectual, econômico e institucional se deixam impressionar por demonstrações primárias de riqueza.
A questão, portanto, não é a liberdade sexual de adultos, tampouco algum falso puritanismo. É a fragilidade moral de uma elite que, não raro, confunde extravagância com grandeza, dinheiro com respeitabilidade e acesso ao luxo com distinção.
No fim, a ironia é quase cruel. A moderníssima Faria Lima, com suas operações sofisticadas, seus fundos, derivativos e estruturas financeiras, talvez tenha apenas reproduzido um dos negócios mais antigos do mundo. Com uma inovação: a prostituição, que antes tinha endereço conhecido, agora possui departamento financeiro e governança corporativa. Só falta o compliance.