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Chile e Argentina expõem o custo político e social do ajuste fiscal

Kast enfrenta rejeição de 64% no Chile, enquanto a Argentina de Milei convive com dificuldades sociais após o ajuste. Experiências acendem debate sobre cortes de gastos no Brasil.

14/10/2026
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O remédio amargo que parte da direita latino-americana apresenta como solução para os problemas econômicos começa a revelar seus efeitos políticos e sociais. No Chile, José Antonio Kast enfrenta forte rejeição apenas sete meses depois de assumir a Presidência. Na Argentina, Javier Milei comemora avanços no equilíbrio fiscal, mas ainda convive com dificuldades sociais e sinais de enfraquecimento da recuperação econômica.

As duas experiências colocam uma questão no centro do debate presidencial brasileiro: quem paga a conta do ajuste?

No Chile, a desaprovação de Kast chegou a 64%, o dobro de sua aprovação, de 32%, segundo levantamento da consultoria Cadem divulgado em outubro. Outra medição da mesma empresa, realizada em 8 de outubro, registrou rejeição ainda maior, de 65%. Pesquisas da Criteria também apontam desaprovação na casa dos 60%.

O desgaste é significativo para um presidente eleito com a promessa de restaurar a ordem econômica, reduzir o tamanho do Estado e impulsionar os investimentos privados. Uma de suas principais bandeiras era cortar US$ 6 bilhões dos gastos públicos em aproximadamente 18 meses, preservando os benefícios sociais.

O entusiasmo inicial, entretanto, deu lugar a um ambiente de desconfiança. Pesquisas recentes apontam pessimismo sobre o futuro da economia, dúvidas sobre a condução do governo e preocupação crescente com emprego e preços.

Em fevereiro, antes da posse, 54% dos chilenos acreditavam que o país teria bom desempenho sob Kast. Em outubro, os levantamentos já mostram uma mudança expressiva nas expectativas. A austeridade não explica, sozinha, essa deterioração, mas integra o conjunto de dificuldades enfrentadas pelo governo.

A economia chega ao bolso dos chilenos

Os indicadores oficiais ajudam a compreender a insatisfação.

Segundo o Instituto Nacional de Estatísticas do Chile, o desemprego alcançou 9,6% no trimestre encerrado em agosto, um ponto percentual acima do registrado no mesmo período de 2025. O número de pessoas ocupadas caiu 0,9%, enquanto o de desempregados cresceu 13%.

Outro foco de desgaste está nos combustíveis. Diante da alta internacional do petróleo provocada pela crise envolvendo o Irã, o governo Kast modificou o mecanismo de estabilização de preços, conhecido como MEPCO, que amortecia as oscilações para o consumidor.

A consequência foi imediata. Em março, a gasolina de 93 octanas sofreu um aumento de aproximadamente 32%, enquanto o diesel disparou cerca de 62%, após mudanças no mecanismo de estabilização dos preços dos combustíveis adotadas pelo governo Kast.

A decisão permitiu reduzir a pressão sobre as contas públicas. Segundo informações do Ministério da Fazenda chileno divulgadas pelo jornal La Tercera, as alterações no mecanismo produziram economia fiscal próxima de US$ 1,6 bilhão até o início de junho.

O episódio ilustra uma das questões centrais da austeridade: a despesa retirada do orçamento do governo pode reaparecer no orçamento das famílias.

A alta do petróleo teve origem externa, mas a decisão sobre quanto desse aumento seria absorvido pelo Estado e quanto seria repassado aos consumidores envolveu uma escolha de política econômica.

O governo argumenta que os cortes são necessários para enfrentar o déficit e evitar o agravamento das contas públicas. Economistas favoráveis ao ajuste também defendem maior eficiência e focalização dos benefícios sociais. Já críticos alertam que reduções aceleradas de despesas podem comprometer serviços essenciais e agravar dificuldades enfrentadas pela população.

A promessa de Kast de reduzir os gastos sem atingir direitos sociais encontra, assim, seu principal desafio: transformar economia orçamentária em melhora efetiva das condições de vida.

Kast enfrenta rejeição de 64% no Chile; Milei convive com dificuldades sociais na Argentina.Reprodução/Redes Sociais

Argentina: depois do choque, a recuperação perde força

Se o Chile oferece um retrato dos primeiros meses de austeridade, a Argentina permite observar uma experiência mais longa.

Desde dezembro de 2023, Javier Milei promoveu cortes expressivos de despesas públicas, reduziu subsídios e adotou medidas para reorganizar as contas do Estado. Conseguiu resultados importantes: a inflação, que havia alcançado níveis extraordinários, recuou significativamente, e o país voltou a registrar superávits fiscais.

O custo social foi especialmente elevado no início. No primeiro semestre de 2024, a pobreza atingiu 52,9% da população. Com a desaceleração da inflação e a recuperação parcial da atividade, o índice caiu para 28,2% no segundo semestre de 2025.

A melhora, entretanto, não se sustentou integralmente. Segundo o Instituto Nacional de Estatística e Censos (Indec), a pobreza voltou a subir, alcançando 32,3% no primeiro semestre de 2026, aumento de 4,1 pontos percentuais em apenas seis meses.

É importante reconhecer que a pobreza permanece abaixo dos 41,7% registrados no último semestre de 2023, antes da chegada de Milei ao poder. A experiência argentina não pode, portanto, ser resumida a um fracasso social. Houve avanços concretos na estabilização econômica, acompanhados de dificuldades na recuperação da renda e do emprego.

Os sinais de fragilidade persistem. Em julho de 2026, a atividade econômica argentina recuou 1,4% em relação ao mesmo mês do ano anterior, enquanto as vendas reais dos supermercados caíram 2,1% na comparação anual.

A Argentina demonstra que o equilíbrio das contas públicas pode ser alcançado antes que seus benefícios se traduzam em melhora duradoura da vida cotidiana. Também evidencia que os efeitos do ajuste não são uniformes: dependem da inflação, do crescimento econômico, dos salários e da proteção oferecida aos grupos mais vulneráveis.

Chile e Argentina atravessam momentos diferentes, mas compartilham um dilema: como restaurar a confiança na economia sem transferir uma parcela excessiva dos custos para a população?

O paralelo brasileiro: R$ 250 bilhões em discussão

No Brasil, a questão adquiriu relevância eleitoral com a divulgação de estudos sobre um eventual ajuste fiscal de até R$ 250 bilhões, equivalente a aproximadamente 2% do Produto Interno Bruto.

Segundo informes, integrantes da equipe econômica de Flávio Bolsonaro avaliam mudanças na correção de benefícios previdenciários e do Benefício de Prestação Continuada (BPC), além da desvinculação dos pisos constitucionais de saúde e educação das receitas federais.

O candidato, entretanto, negou que pretenda retirar direitos previdenciários. Afirmou que manterá reajustes das aposentadorias acima da inflação e que não pretende acabar com os pisos constitucionais de saúde e educação. Seu coordenador econômico, Adolfo Sachsida, sustenta que o ajuste será realizado mediante a eliminação de excessos da máquina pública, sem prejudicar os mais vulneráveis.

As medidas examinadas nos bastidores, portanto, não podem ser confundidas com compromissos oficiais da candidatura.

Ainda assim, permanece uma dúvida econômica: como obter uma economia dessa magnitude preservando integralmente os compromissos sociais?

O desafio é considerável. As despesas obrigatórias consomem cerca de 92% do orçamento federal, segundo informações divulgadas durante o debate sobre o programa econômico de Flávio. Isso limita a possibilidade de realizar cortes expressivos apenas com a redução de ministérios, cargos e despesas administrativas.

A eventual mudança nos critérios de reajuste de aposentadorias e benefícios assistenciais, por exemplo, poderia reduzir seu crescimento real ao longo dos anos. Já a desvinculação dos pisos de saúde e educação não implicaria necessariamente cortes nominais imediatos, mas poderia limitar a expansão dos recursos destinados a essas áreas.

São medidas com efeitos distintos, que exigiriam demonstrações de impacto financeiro e social.

Subsídios: quando a conta muda de endereço

Outra dimensão da discussão envolve os subsídios econômicos.

No Brasil, benefícios tarifários e incentivos fiscais atingem setores muito diferentes, desde famílias de baixa renda até grandes atividades empresariais.

No setor elétrico, a Conta de Desenvolvimento Energético (CDE) financia políticas públicas e benefícios cujos custos são distribuídos, em parte, entre os consumidores por meio das tarifas.

Rever subsídios ineficientes pode gerar economia e corrigir distorções. Mas a retirada de benefícios destinados a consumidores vulneráveis, sem compensações adequadas, pode elevar despesas essenciais.

A experiência chilena com os combustíveis é ilustrativa. O governo reduziu o custo de um mecanismo de estabilização, enquanto consumidores e empresas passaram a absorver mais diretamente as oscilações internacionais.

Na Argentina, a diminuição dos subsídios energéticos também integrou a estratégia de contenção das despesas públicas, exigindo maior participação dos consumidores no pagamento dos serviços.

Não se trata de afirmar que todo subsídio deva ser preservado. Benefícios mal direcionados podem favorecer justamente quem menos precisa deles. A questão é identificar quem será atingido por sua retirada e quais efeitos econômicos ela poderá provocar.

O mesmo raciocínio vale para o Brasil: uma economia fiscal obtida pela redução de despesas sociais pode ter consequências muito diferentes daquela alcançada pelo combate a fraudes, desperdícios ou incentivos empresariais ineficientes.

O preço do ajuste

As experiências de Chile e Argentina não autorizam conclusões automáticas sobre o futuro brasileiro. Os três países possuem estruturas econômicas, condições fiscais e sistemas de proteção social diferentes.

Também seria equivocado ignorar os custos da ausência de ajuste. Dívida pública crescente, inflação elevada e juros persistentes podem comprometer investimentos e atingir especialmente as famílias mais pobres.

O que os casos argentino e chileno acrescentam à discussão é a necessidade de examinar não apenas o resultado fiscal pretendido, mas o caminho escolhido para alcançá-lo.

Na Argentina, a estabilização produziu ganhos mensuráveis, mas a recuperação social mostrou oscilações. No Chile, o desgaste político apareceu ainda no primeiro ano, em meio a dificuldades econômicas, pressões sobre os preços e uma política de contenção de gastos.

No Brasil, a duas semanas do segundo turno presidencial, o debate sobre cortes bilionários exige respostas concretas: quais despesas seriam atingidas, em que prazo, com quais compensações e quais consequências para a população?

A sustentabilidade das contas públicas é parte indispensável da estabilidade econômica. Mas a qualidade de um ajuste também depende da maneira como seus custos e benefícios são distribuídos.

Afinal, quando o Estado deixa de pagar uma conta, isso nem sempre significa que ela desapareceu. Às vezes, apenas mudou de endereço: foi parar na casa do contribuinte, no caso, do eleitor.

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