O Grupo Globo anunciou nesta quinta-feira o desligamento de seu diretor-geral de Mídia Impressa e Rádio, após tomar conhecimento de conversas privadas que revelaram, segundo a própria empresa, uma relação inadequada com Daniel Vorcaro, personagem central do escândalo do Banco Master. A decisão merece reconhecimento. Uma potência de comunicação como a Globo não poderia ficar à mercê de episódios que destoam da grandeza de sua história e da responsabilidade que exerce perante a sociedade brasileira. Mais que uma empresa, é uma instituição que atravessa gerações, participa da formação da opinião pública e acompanha os acontecimentos mais relevantes da vida nacional. Seu jornalismo é um patrimônio que transcende os interesses de acionistas e dirigentes. Preservá-lo é também uma questão de interesse público.
Essa história foi construída por gerações de profissionais e conduzida por nomes que se tornaram referências da imprensa brasileira. Armando Nogueira, com sua inteligência e elegância; Evandro Carlos de Andrade, com o rigor e a autoridade de quem conhecia profundamente o ofício; e, mais recentemente, Carlos Henrique Schroder, que ajudou a consolidar uma estrutura jornalística de alcance nacional. Cada qual, a seu tempo, contribuiu para erguer uma organização cuja força repousa menos em seu poder econômico do que na confiança de milhões de brasileiros.
É evidente que a trajetória da Globo não é imune a erros, controvérsias e decisões editoriais que merecem reparos. Nenhuma instituição humana é. Mas uma coisa são os equívocos próprios do exercício do jornalismo, sujeitos à crítica e à correção; outra, muito diferente, é permitir que interesses particulares, conveniências empresariais ou relações pessoais lancem sombras sobre a independência editorial. Os acontecimentos recentes tornam especialmente oportuno recordar essa distinção. A credibilidade, afinal, não admite zonas de penumbra. E a proximidade com o poder, seja ele político ou econômico, jamais pode se converter em intimidade capaz de comprometer a liberdade de informar.
O Brasil precisa de empresas jornalísticas fortes, respeitadas e independentes. Precisa de repórteres, correspondentes e investigações. Nesse sentido, é inegável a extraordinária capacidade da Globo de levar informação aos quatro cantos do país. Em tempos de desinformação, radicalização e descrédito das instituições, seria um desserviço assistir ao enfraquecimento de uma estrutura dessa importância. Justamente por isso, quanto maior a influência de um veículo, maior deve ser seu compromisso com os princípios que exige dos demais: transparência, rigor, independência e responsabilidade.
Preservar o jornalismo da Globo não significa protegê-lo das críticas, mas das práticas que dão razão a elas. Significa manter a distância necessária entre os interesses do negócio e a liberdade da redação. Uma empresa pode conquistar mercados, ampliar receitas e multiplicar plataformas.
Mas há algo que não se compra, não se negocia e dificilmente se recupera depois de perdido: a confiança do público.
Ao se desvincular de um executivo com 29 anos de casa, a Globo demonstra compreender essa verdade elementar. A instituição é maior que seus dirigentes, e o trabalho de milhares de profissionais não pode ficar à mercê da conduta de alguns. Afinal, um veículo de comunicação pode sobreviver sem qualquer um de seus executivos. Sem credibilidade, deixa de ser jornalismo.