A cinco dias do segundo turno, Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) disputam a Presidência diante de quase 49 milhões de eleitores que não votaram em nenhum dos dois em 4 de outubro. São 30,7% do eleitorado brasileiro, entre ausentes, pessoas que votaram em branco ou nulo e aquelas que escolheram candidatos eliminados. Levantamento do Congresso em Foco, com base em dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), mostra que 22,2 milhões desse grupo estão no Sudeste, quase metade do total nacional.
Embora reúna 41,8% dos aptos a votar, o Sudeste responde por 45,5% daqueles que não escolheram os finalistas. São Paulo concentra o maior contingente absoluto, com 11,7 milhões, enquanto Goiás lidera proporcionalmente: 36,2% de seus eleitores não votaram em Lula nem Flávio.
O tamanho desse grupo ganha relevância diante da vantagem de 2,2 milhões de votos obtida por Flávio no primeiro turno. Os dez candidatos eliminados receberam 9,3 milhões de votos, mais de quatro vezes essa diferença. A disputa de domingo, porém, envolve também a mobilização dos ausentes, a preservação dos votos já conquistados e eventuais mudanças de preferência entre os finalistas.
As viagens de Lula e Flávio desde o primeiro turno também passaram por estados com grandes contingentes de eleitores que não escolheram os finalistas. Flávio esteve em Goiás logo após a votação, quando recebeu o apoio de Ronaldo Caiado (PSD), responsável por 472 mil dos 587 mil votos destinados aos presidenciáveis eliminados no estado. Ambos cumpriram agendas no Sudeste: Flávio passou por São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Espírito Santo; Lula esteve em São Paulo e Minas Gerais, além de participar de uma agenda de televisão no Rio.
Sudeste concentra quase metade
A proporção de eleitores que não escolheram os finalistas chegou a 33,5% no Sudeste, acima do Centro-Oeste (32,5%), Sul (30,1%), Norte (27%) e Nordeste (26,7%).
São Paulo responde por 11,7 milhões dessas pessoas, seguido de Minas Gerais (5,4 milhões) e Rio de Janeiro (4,2 milhões). Juntos, os três estados concentram 21,3 milhões de eleitores, ou 43,7% do contingente nacional.
Goiás lidera, impulsionado por Caiado
Goiás apresenta o maior percentual do país: 1,84 milhão de seus 5,1 milhões de eleitores não votou em Lula nem Flávio, o equivalente a 36,2%. O grupo inclui 1,1 milhão de ausentes, 144 mil votos brancos e nulos e 587 mil votos destinados a candidatos eliminados.
O ex-governador Ronaldo Caiado recebeu 472.041 desses votos, o equivalente a 80,4% dos atribuídos, no estado, aos presidenciáveis que não avançaram ao segundo turno. Seu desempenho ajuda a explicar por que Goiás registrou a maior participação proporcional dos eliminados: 15,3% dos votos válidos, praticamente o dobro da média nacional de 7,8%.
Mato Grosso do Sul apresenta um perfil diferente. Embora tenha o quinto maior percentual de eleitores que não escolheram os finalistas (31,3%), o principal componente é a abstenção. Dos 634 mil que não escolheram Lula nem Flávio, 483 mil não compareceram às urnas. A taxa de ausência, de 23,9%, foi a maior do país.
Depois de Goiás, os maiores percentuais de eleitores que não escolheram os finalistas foram registrados em São Paulo (34,3%), Minas Gerais (33%) e Rio de Janeiro (32,6%). Os menores ficaram em Roraima (23,9%), Ceará (24,1%) e Piauí (24,6%). A distância entre os extremos chega a 12,4 pontos percentuais.
Quase sete em cada dez não foram votar
Dos 48,8 milhões de eleitores que não escolheram os finalistas, 33,5 milhões deixaram de comparecer às urnas, equivalentes a 68,6% do grupo. Outros 9,3 milhões votaram em candidatos eliminados (19,1%) e 6 milhões escolheram branco ou nulo (12,3%).
A predominância das abstenções impede tratar os quase 49 milhões como votos automaticamente disponíveis. Parte dos ausentes pode continuar sem votar, enquanto eleitores que escolheram branco ou nulo podem repetir a opção. Já os votos dos eliminados podem migrar para qualquer um dos finalistas ou deixar de ser válidos.
Pesquisa Datafolha divulgada em 13 de outubro mostrou que, entre os entrevistados que declararam ter votado em Augusto Cury (Avante), Renan Santos (Missão), Ronaldo Caiado ou Romeu Zema (Novo), 46% pretendiam escolher Flávio no segundo turno, 32% apontavam Lula e 15% indicavam branco ou nulo. Os percentuais revelam preferências distintas, mas não representam transferência efetiva de votos.
Comparecimento pode fazer diferença
Pesquisa BTG/Nexus divulgada na segunda-feira (19) mostrou Flávio com 50,3% dos votos válidos, contra 49,7% de Lula, em empate técnico dentro da margem de erro de dois pontos percentuais.
O levantamento também identificou diferenças na disposição declarada de comparecer às urnas. Entre todos os entrevistados, 85,9% afirmaram que certamente votariam no segundo turno. Entre aqueles que rejeitam ambos os candidatos, o percentual caiu para 70,9%. A diferença indica menor disposição declarada de comparecer entre os que rejeitam os dois finalistas, sem permitir estimar quantos dos ausentes no primeiro turno voltarão às urnas.
Em 2022, leve queda na abstenção no 2º turno
A experiência da eleição anterior mostra que o comparecimento pode mudar entre os turnos. Em 2022, a abstenção caiu de 20,95% no primeiro turno para 20,59% no segundo, com cerca de 570 mil ausências a menos. Já a proporção de votos brancos e nulos subiu ligeiramente, de 4,41% para 4,59% dos votos depositados, segundo o TSE.
Flávio terminou o primeiro turno com 56.104.503 votos (47,03% dos válidos), contra 53.879.538 de Lula (45,16%). A diferença de 2.224.965 votos foi inferior à votação individual de cada um dos três candidatos eliminados mais votados: Augusto Cury, Renan Santos e Ronaldo Caiado.
A disputa, portanto, não depende apenas do destino desses votos. O levantamento mostra que os desafios das campanhas variam pelo país: em Goiás, destaca-se o eleitorado dos candidatos eliminados; em Mato Grosso do Sul, a abstenção; no Sudeste, o tamanho do contingente que não escolheu nenhum dos finalistas.