O setor de eventos voltou ao debate nacional na reta final das eleições presidenciais de 2026. O motivo foi a lembrança do Programa Emergencial de Retomada do Setor de Eventos (Perse), criado durante a pandemia de covid-19 para ajudar empresas de um dos segmentos mais afetados pelas restrições sanitárias. Embora o benefício fiscal tenha sido encerrado em 2025, sua trajetória recoloca em discussão uma questão que ultrapassa a política tributária: a importância dos eventos para a economia brasileira.
Shows, festivais, competições esportivas, congressos e feiras movimentam uma cadeia de atividades que vai muito além dos organizadores. Hotéis, restaurantes, empresas de transporte, fornecedores, profissionais de segurança, técnicos de som e iluminação, trabalhadores temporários e comerciantes estão entre os beneficiados pela realização desses encontros.
O impacto também alcança o turismo e a ocupação dos espaços urbanos. Quando uma cidade consegue manter uma programação diversificada ao longo do ano, cria oportunidades de negócios, amplia suas opções de lazer e fortalece sua capacidade de atrair visitantes.
É nesse contexto que modelos de gestão de arenas multiuso ganham relevância. Em Brasília, a Arena BSB exemplifica uma proposta de utilização contínua de equipamentos esportivos e culturais, associando a realização de eventos à movimentação econômica e à revitalização de espaços da capital federal.
O que foi o Perse
Instituído pela Lei nº 14.148/21, o Perse surgiu em resposta à crise provocada pela pandemia, período em que shows, congressos, feiras, festivais e outras atividades presenciais foram suspensos ou sofreram restrições.
Uma de suas principais medidas foi a redução a zero das alíquotas de quatro tributos federais para empresas enquadradas nas condições legais: PIS/Pasep, Cofins, CSLL e IRPJ.
O objetivo era oferecer condições para a recuperação de atividades que haviam perdido receitas durante a emergência sanitária. Ao longo de sua vigência, o programa passou por alterações nas regras de acesso e no alcance dos benefícios.
Em 2024, o Congresso Nacional aprovou uma reformulação que estabeleceu novos critérios e limitou a renúncia fiscal a R$ 15 bilhões. O benefício foi encerrado a partir de abril de 2025, após a Receita Federal informar que o limite previsto em lei havia sido alcançado.
O programa também foi alvo de questionamentos sobre seu custo fiscal e possíveis irregularidades na utilização dos incentivos. Essas discussões integram o debate sobre a necessidade de conciliar políticas de estímulo econômico, transparência e responsabilidade com as contas públicas.
Embora o Perse tenha sido concebido para uma situação excepcional, seu retorno à pauta eleitoral chama atenção para uma questão permanente: a importância de criar condições para que o setor de eventos continue investindo, se modernizando e ampliando sua contribuição econômica.
Um modelo de utilização contínua
Em Brasília, a Arena BSB exemplifica como a gestão de equipamentos esportivos pode ir além da realização de partidas de futebol.
Responsável pela administração do complexo que inclui o Estádio Nacional Mané Garrincha e o Ginásio Nilson Nelson, a concessionária desenvolve um modelo voltado à diversificação das atividades, reunindo esporte, entretenimento, cultura, gastronomia e eventos corporativos.
A proposta é ampliar a utilização de estruturas de grande porte, que tradicionalmente dependiam de calendários esportivos, e transformá-las em espaços capazes de receber públicos e atividades diferentes ao longo do ano.
Esse modelo tem implicações econômicas importantes. Um estádio utilizado com frequência pode atrair produtores de eventos, estimular a contratação de fornecedores e ampliar a circulação de consumidores na região. A diversificação também contribui para criar novas fontes de receita e apoiar a manutenção dos equipamentos.
A localização do Mané Garrincha, na região central de Brasília, favorece sua integração com a rede de hotéis, restaurantes, comércio e serviços da capital federal.
A atuação da Arena BSB também contempla iniciativas que não dependem exclusivamente de grandes espetáculos. É o caso do Mercado Mané, espaço gastronômico e de convivência implantado na região do complexo, que contribui para ampliar a circulação cotidiana de pessoas.
A experiência demonstra como a gestão de uma arena pode associar o aproveitamento da infraestrutura existente à criação de novas atividades econômicas, com efeitos que ultrapassam os dias de jogos e shows.
Desenvolvimento econômico e transformação social
A capacidade de receber eventos de diferentes portes também pode contribuir para fortalecer a posição de Brasília no circuito nacional de entretenimento, esporte e negócios.
Para a economia do Distrito Federal, essa atividade representa oportunidades em diversas frentes. Grandes produções demandam serviços de montagem, limpeza, segurança, alimentação, transporte, comunicação e apoio técnico. Quando atraem visitantes de outras regiões, também podem beneficiar a rede de hospedagem e o comércio.
Há ainda uma dimensão social que não deve ser desconsiderada. Equipamentos esportivos e culturais são espaços de convivência e podem contribuir para aproximar a população de atividades de lazer, cultura e esporte.
A utilização frequente dessas estruturas amplia as possibilidades de ocupação dos espaços urbanos e ajuda a fortalecer sua relação com a cidade.
No caso da Arena BSB, a diversificação da programação e a incorporação de atividades comerciais ao complexo representam uma proposta de gestão que busca conciliar viabilidade econômica e aproveitamento de equipamentos de interesse público.
Uma agenda que precisa continuar
A retomada do debate sobre o Perse oferece uma oportunidade para discutir o futuro do setor de eventos, mas essa discussão não deve terminar com a eleição presidencial.
O programa cumpriu o papel de instrumento emergencial de apoio durante a recuperação de uma crise sem precedentes. Agora, a questão é mais ampla: quais condições são necessárias para que o setor continue crescendo e gerando oportunidades de forma sustentável?
A resposta passa por diferentes frentes, como investimento em infraestrutura, modernização de equipamentos, capacitação de profissionais, simplificação de procedimentos, segurança jurídica e estímulo à realização de eventos em diferentes regiões do país.
Isso não significa necessariamente reproduzir os benefícios fiscais do passado. Significa reconhecer que uma atividade com capacidade de movimentar tantas outras merece fazer parte de uma agenda permanente de desenvolvimento econômico.
O Perse pode ter voltado aos holofotes por causa das eleições. Mas a importância econômica e social dos eventos permanece independentemente do calendário político.
O desafio é garantir que o setor continue sendo visto não apenas como entretenimento, mas como uma atividade estratégica para gerar oportunidades, estimular investimentos e movimentar a economia brasileira.