O deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) protagonizou nesta terça-feira (20) uma controvérsia semelhante às enfrentadas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, durante suas campanhas eleitorais. Assim como o republicano, o parlamentar utilizou em uma publicação política - favorável a Flávio Bolsonaro - a música de um artista que não compartilha de seu posicionamento eleitoral. Após a retirada do áudio por direitos autorais, Nikolas passou a acusar o músico de tentar silenciar o Nordeste.
Com a legenda "O Nordeste que foi esquecido", a publicação reúne depoimentos de moradores da região que criticam o governo do presidente Lula (PT) e manifestam apoio à candidatura de Flávio Bolsonaro (PL). O vídeo utilizava como trilha sonora uma versão instrumental de Grão de Areia, parceria entre Rubel e Xande de Pilares.
Rubel, que tem manifestado apoio a Lula nas redes sociais, foi apontado por Nikolas como responsável por solicitar à Sony Music Brasil a retirada da música. O Instagram removeu o áudio após uma reivindicação de direitos autorais, conforme confirmou a Meta, responsável pela plataforma. A empresa, porém, não identificou publicamente o responsável pela solicitação.
A partir da remoção, o deputado passou a apresentar o episódio como uma tentativa de impedir que os nordestinos fossem ouvidos. Em suas redes sociais, acusou Rubel de censurar os depoimentos e incentivou seguidores a cobrar explicações do cantor.
Estratégia norte-americana
O uso de músicas de artistas contrários a determinado candidato já provocou uma série de controvérsias nas campanhas de Donald Trump, especialmente durante a disputa presidencial de 2024, contra a democrata Kamala Harris.
Um dos episódios mais conhecidos envolveu Beyoncé. Em agosto daquele ano, Steven Cheung, porta-voz da campanha republicana, publicou no X um vídeo de Trump desembarcando de um avião ao som de Freedom, música lançada pela cantora em 2016.
A escolha da faixa tinha um significado político particular. Freedom havia sido adotada como uma das principais músicas da campanha de Kamala Harris, com autorização da própria Beyoncé, que apoiava a candidata democrata.
A equipe da cantora contestou o uso da composição pela campanha republicana, que não havia recebido autorização. Após a reação, o vídeo foi excluído da rede social.
Em outubro de 2024, Beyoncé participou de um comício de Kamala Harris em Houston, no Texas, onde declarou publicamente apoio à democrata. Meses depois, em julho de 2025, Trump acusou o Partido Democrata de ter pago US$ 11 milhões à cantora em troca do apoio eleitoral e pediu que Harris fosse processada.
Também em agosto de 2024, o músico Jack White, ex-integrante da banda The White Stripes, criticou a divulgação de um vídeo que mostrava Trump entrando em um avião ao som de Seven Nation Army. O artista afirmou que não havia autorizado o uso da composição e anunciou medidas judiciais contra a campanha.
No mesmo mês, o grupo sueco ABBA exigiu que a equipe do republicano retirasse vídeos de eventos eleitorais que utilizavam músicas como Dancing Queen, Money, Money, Money e The Winner Takes It All. A gravadora Universal Music informou que não havia concedido autorização para a utilização das obras.
A banda Foo Fighters também reagiu à execução de My Hero em um comício de Trump com Robert F. Kennedy Jr. Seus representantes afirmaram que a campanha não havia solicitado permissão e que, mesmo se tivesse feito o pedido, a autorização não seria concedida.
Outro conflito envolveu o espólio do cantor Isaac Hayes, responsável pela composição de Hold On, I'm Coming, executada repetidamente em eventos do republicano. A família do músico ingressou na Justiça e conseguiu, em setembro de 2024, uma decisão que impediu novas utilizações da canção em atos de campanha. A determinação judicial, entretanto, não exigiu a retirada de vídeos anteriormente publicados.
A banda R.E.M., Céline Dion e outros artistas também se manifestaram contra o uso de suas músicas em eventos eleitorais ou vídeos de Trump.
Mais recentemente, em agosto de 2026, a equipe de Trump voltou a enfrentar uma controvérsia semelhante, desta vez envolvendo Taylor Swift. Um vídeo publicado no TikTok da campanha republicana mostrava o presidente e a primeira-dama, Melania Trump, assistindo a uma queima de fogos ao som de August, lançada pela cantora em 2020. A legenda provocava a artista: "Tenho certeza de que Taylor Swift ficará super feliz por termos usado sua música". Dias depois, o áudio foi removido da publicação por restrições de direitos autorais. Outras músicas de Swift também tiveram o som retirado de vídeos associados a Trump.
Essa não foi a primeira confusão envolvendo Trump e Taylor Swift. Em agosto de 2024, durante a campanha presidencial, o republicano compartilhou em sua rede social, Truth Social, imagens geradas por inteligência artificial que sugeriam falsamente o apoio da cantora e de seus fãs à candidatura dele. As publicações mostravam mulheres com camisetas que diziam "Swifties for Trump" e uma montagem da própria artista incentivando o voto no republicano. Trump compartilhou o conteúdo com a legenda "Aceito!".
No mês seguinte, Taylor Swift declarou apoio à democrata Kamala Harris e mencionou as imagens falsas como uma das razões para tornar público seu posicionamento eleitoral. A manifestação ocorreu após o debate presidencial de 10 de setembro. Cinco dias depois, Trump reagiu em sua rede social com uma publicação: "Eu odeio Taylor Swift!".
Da disputa autoral ao confronto político
Os episódios envolvendo Trump e Nikolas têm em comum a utilização de obras musicais em conteúdos políticos sem autorização reconhecida pelos respectivos artistas, seguida de reações públicas e reivindicações de direitos autorais.
Nos Estados Unidos, parte das contestações envolveu músicas executadas em comícios, não somente vídeos publicados nas redes sociais. No caso de Nikolas, a remoção do áudio deu origem a uma nova linha de discurso do parlamentar, que passou a associar a reivindicação de direitos autorais a uma tentativa de silenciar o Nordeste.
A legislação brasileira protege os direitos dos autores sobre a utilização de suas obras, inclusive em conteúdos de natureza político-eleitoral. A retirada da trilha sonora, porém, decorreu de uma solicitação relacionada ao uso da composição musical, e não de uma determinação para excluir os depoimentos ou impedir sua divulgação.